O jovem Charleston Roberto de Oliveira Mayer Júnior, de 21 anos, diagnosticado com distrofia muscular de Duchenne (DMD) — doença degenerativa rara que afeta os músculos —, não se deu por vencido e fez história ao conquistar uma vaga no curso de Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR) na primeira tentativa e sem cursinho preparatório.

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O jovem Charleston Roberto de Oliveira Mayer Júnior, aprovado aos 21 anos de idade no curso de Direito da UFPR – Foto: Arquivo pessoal

Charleston Roberto nasceu em Curitiba e se mudou com a família para Colombo, na Região Metropolitana, em 2009. Ele foi diagnosticado com distrofia muscular de Duchenne (DMD) ainda na infância e aprendeu desde cedo a nunca desistir dos sonhos.

A doença começou a apresentar os primeiros sinais quando o então garoto tinha entre 5 e 6 anos de idade. De acordo com familiares, os primeiros desafios enfrentados por Charleston foram quedas frequentes, dificuldade para subir escadas e fraqueza muscular.

“Quando o médico nos deu o laudo, falou que ele ia andar até os dez anos de idade, ia para a cadeira de rodas e que a vida dele ia até os 18 [anos], porque o corpo ia deixar de funcionar, já que a doença vai tirando a força muscular. O nosso corpo é todo músculo. Então, ele perdeu as forças não só das pernas. Realmente, com dez anos, foi um choque pra gente, porque escutar uma coisa, mas vivenciar é outra totalmente diferente. Ele foi pra cadeira de rodas com dez anos. Aconteceu de um dia para o outro. Ele dormiu e perdeu as forças. Não teve mais forças para ficar em pé”

relatou Alessandra Mara Rodrigues, mãe de Charleston.

Dedicação aos estudos em meio às dificuldades

Mesmo passando a usar cadeira de rodas aos dez anos, Charleston não se deu por vencido e seguiu focado na vida acadêmica. Ele estudou no Colégio Passionista Rosário, em Colombo, do pré ao 9º ano do Ensino Fundamental.

Já o Ensino Médio, decidiu se inscrever no curso técnico em informática do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e foi aprovado, demonstrando mais uma vez superação.

Antes de tentar o vestibular para cursar Direito, o jovem foi aprovado para estudar Sistemas de Informação na UTFPR e Análise e Desenvolvimento de Sistemas no IFPR. No entanto, problemas de saúde fizeram com que o rapaz acabasse sendo internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Cruz.

À época, diante de uma nova internação, Charleston percebeu que precisava ajudar outras pessoas que necessitam de acessibilidade, segundo a mãe.

“Quando ele foi para a UTI por causa de uma intercorrência, começou a repensar… Ver as dificuldades enfrentadas e deu uma repaginada na vida dele. Foi uma virada mesmo. Então ele quis fazer Direito porque pensou muito em ajudar as pessoas nessa área. Ele viu quanto é difícil para a gente a parte da acessibilidade. Andar no Centro, por exemplo, é uma dificuldade”

comentou a mãe.

Início da trajetória pela luta dos direitos

Mesmo com uma grande experiência na área de T.I., Charleston decidiu seguir o exemplo da mãe, Alessandra Mara Rodrigues, que é pedagoga e ex-professora da rede municipal de Colombo, e decidiu ingressar no Direito após presenciar as dificuldades enfrentadas pelo filho. Ela foi aprovada no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) enquanto ainda estava na faculdade e virou uma referência para o jovem.

Charleston prestou vestibular para Direito na UFPR em 2025 e foi aprovado na primeira tentativa, mesmo sem cursinho preparatório e com limitações físicas, como o uso contínuo de ventilação mecânica e da cadeira de rodas.

“Quando a gente sai, vamos a lugares que a gente sabe que têm acessibilidade. Temos que ligar antes e perguntar. Por muitas vezes, eles falam que têm acessibilidade, mas, às vezes, é uma acessibilidade adaptada que não condiz com a realidade de um cadeirante. É uma rampa muito íngreme; é um banheiro que não tem uma porta por onde passe a cadeira de rodas. Ele quer lutar pelos direitos das pessoas com deficiência”

disse.
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O jovem Charleston Roberto de Oliveira Mayer Júnior, aprovado aos 21 anos de idade no curso de Direito da UFPR – Foto: Arquivo pessoal

Orgulho e inspiração

A aprovação no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná veio com muita alegria e orgulho para a família, que destaca que, mesmo com todas as dificuldades, Charleston Roberto nunca se deu por vencido e que sonha em tornar o mundo um lugar melhor.

“Cada dia para a gente é um presente de Deus para viver hoje. Por isso, nós estamos muito, muito orgulhosos dele… De saber que, mesmo com todas as dificuldades que tem, ele tem vontade de tornar o mundo melhor. Ele está sempre pensando no próximo. […] Ele é um ser de muita luz que Deus nos deu, um presente mesmo. É uma pessoa extremamente carinhosa, amorosa e que está sempre pensando no próximo, extremamente correto”

afirmou.

O novo calouro da universidade mais antiga do Brasil comemorou a aprovação com o tradicional banho de lama, onde os estudantes aprovados fazem uma verdadeira festa para comemorar o início da nova fase acadêmica.

O que é a distrofia muscular de Duchenne (DMD)

A distrofia muscular de Duchenne (DMD) é uma doença genética rara e progressiva, caracterizada pela ausência da proteína distrofina, afetando principalmente meninos na infância.

Segundo a farmacêutica Pfizer, a prevalência da distrofia muscular de Duchenne é de três casos para cada 100 mil pessoas. No Brasil, são aproximadamente 700 novos casos da doença a cada ano.

A doença causa fraqueza muscular severa, perda da capacidade de andar, geralmente antes dos 12 anos, complicações cardíacas e respiratórias. O tratamento exige acompanhamento contínuo e multidisciplinar.