O Paraná vive um momento decisivo para definir projetos que ampliem e aumentem a eficiência de sua malha ferroviária, fator considerado fundamental para acompanhar o constante crescimento do setor produtivo do Estado. Essa foi uma das principais conclusões de uma reunião que a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), por meio de seu Conselho Temático de Infraestrutura, promoveu nesta segunda-feira (15), em Curitiba, para debater o panorama atual do transporte ferroviário paranaense. Para a Fiep e representantes de usuários das ferrovias que participaram do encontro, parte da solução dos problemas atuais passa por investimentos e melhorias no modelo de concessão da chamada Malha Sul, que liga principalmente as regiões Norte e Noroeste do Estado ao Porto de Paranaguá, cujo contrato se encerra em 2027.

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(Fotos: Gelson Bampi)

O presidente do Sistema Fiep, Edson Vasconcelos, destacou que o Paraná vive uma “janela de oportunidade” para discutir o tema, devido ao fim do período de concessão da Malha Sul em três anos. “Então, é importante ouvir e estar próximo ao usuário para entender quais são as dificuldades que ele tem e os grandes gargalos que existem hoje nesse modal”, disse.

“Nós vamos sair hoje daqui com uma proposta de trabalho. Vamos rodar o interior para conversar com os usuários, perceber deles as expectativas de crescimento e qual é o olhar dele para uma possível nova concessão ou renovação da Malha Sul. Aí sim teremos parâmetros para sentar com os diferentes atores e colocar a posição do usuário quanto ao tema ferrovia”, completou.

As reuniões regionais para tratar especificamente das questões de infraestrutura serão realizadas nos próximos meses e servirão, também, para iniciar uma nova atualização do Plano Estadual de Logística em Transporte (PELT). Sob coordenação técnica da Fiep e participação de diversas entidades, as versões anteriores do PELT apresentavam os projetos prioritários para que o Estado elimine gargalos logísticos. Agora, a nova versão terá como foco a intermodalidade. “O PELT nasceu em 2009 com objetivo de priorização das obras. Agora, junto com a intermodalidade, vamos ter condições de levantar as bandeiras do Paraná na área de infraestrutura que já estão aí há muitos anos”, disse o coordenador do Conselho Temático de Infraestrutura, José Alberto Pereira Ribeiro.

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(Fotos: Gelson Bampi)

Integração intermodal

A reunião desta segunda faz parte de uma mobilização que a Fiep iniciou neste mês para discutir em profundidade, com participação dos diferentes atores envolvidos, as condições da infraestrutura logística utilizada pelo setor produtivo paranaense. O primeiro encontro, que analisou as condições dos portos, foi realizado no último dia 3. Com essa iniciativa, a Federação pretende que sejam planejadas ações efetivas em curto, médio e longo prazo para aprimorar a infraestrutura logística do Paraná.

“Nós temos que trabalhar todos esses assuntos juntos e saber que a renovação da concessão ou nova licitação ferroviária vai impactar inclusive em ações nos outros equipamentos de infraestrutura para exportação”, explicou.

Vasconcelos ressaltou que o transporte ferroviário é importante principalmente para o interior do Estado, onde está concentrada a maior parte da indústria alimentícia paranaense.

“A ferrovia passa na capital, mas ela serve muito para quem está no interior. E o setor de alimentos hoje, que já é 40% da indústria do Estado, é o que mais usa”, disse. “Nós temos portos de outras regiões com uma taxa ferroviária já muito mais adequada do que o Paraná, que hoje está com 17% da sua carga chegando via férreo. Mas a ferrovia dá constância, dá sazonalidade adequada para o transporte de cargas, comparada ao rodoviário, por isso a necessidade de fortalecer os escoamentos de exportação por esse modal”, acrescentou.

presidente do Sistema Fiep, Edson Vasconcelos

Visão dos usuários

A reunião na Fiep contou com a presença de representantes de grandes exportadores paranaenses. Entre eles, a Coamo, cooperativa com sede em Campo Mourão que responde pelo maior volume de exportações do Sul do país. “A gente tem uma certa limitação hoje da malha no Sul do Brasil, mais especificamente no estado do Paraná, que limita volumes”, afirmou o diretor de Logística e Operações da Coamo, Edenilson Oliveira. “Então, muitas vezes você tem a intenção de contratar o serviço e há uma limitação pela própria malha ou pelo material rodante”, acrescentou.

Para Oliveira, o debate em torno do fim do período de concessão da Malha Sul é fundamental para aprimorar o sistema ferroviário do Estado. “São contratos que perduram por muito tempo, então tudo há que ser posto na mesa agora e discutido neste momento, olhando os três lados: da agência reguladora, do concessionário e, principalmente, do usuário”, disse. Ele afirmou, ainda, que os investimentos nas ferrovias devem acompanhar novos projetos que estão sendo feitos no Porto Paranaguá para receber com mais eficiência as cargas, como é o caso do chamado Moegão. “Hoje, olhando pelo Corredor de Exportação, você tem limitações de terminais para fazer as descargas ferroviárias. Com esse projeto do Moegão, a partir do momento em que ele entra em operação, você transfere esse gargalo de lugar, e aí o próximo gargalo passa a ser a ferrovia”, justificou.

Já Rodrigo Buffara Farah Coelho, gerente do terminal portuário da Cotriguaçu, operado pelas cooperativas C.Vale, Lar, Copacol e Coopavel, todas com sede no Oeste do Paraná, explicou que, atualmente, o maior problema na malha ferroviária paranaense não é o custo do frete, mas a eficiência do sistema. “O tomador do frete nem está, neste momento, reclamando tanto do que ele paga, mas sim da eficiência do serviço. Tem lugares, como a nossa região da Cotriguaçu, no Oeste, em que o transit time, o tempo que leva, é de cerca de 7 a 9 dias (até Paranaguá). Isso torna a ferrovia inviável”, disse.

Para Buffara, acelerar o debate sobre a Malha Sul é uma urgência para o setor produtivo. “Como essa malha está próxima de ser vencido o contrato, já não tem grandes investimentos, já não tem largas ideias sobre o que se deve fazer. E quem sofre com isso é o setor produtivo paranaense, que tem uma malha muito antiga, com poucos investimentos”, declarou.

O encontro desta segunda contou, ainda, com uma palestra do especialista em infraestrutura Luiz Henrique Dividino, ex-presidente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa). Ele ressaltou o baixo índice de cargas que chegam hoje a Paranaguá por ferrovias, não alcançando 20% do total, enquanto portos como o de São Francisco do Sul (SC) alcançam índices de até 50%. “Dentro do que é possível, nós temos um serviço adequado, porém tem muito para fazer ainda. Temos que expandir o sistema de expedição no interior, de recepção no porto, melhorar a Serra do Mar, então realmente nós temos um desafio”, explicou.

Para Dividino, investir na integração entre os diferentes modais de transporte é fundamental para aprimorar a infraestrutura do Estado. “Nós temos, na verdade, todos os anos um tsunami de soja e milho que tem que ser exportado, principalmente para o hemisfério norte, então é um grande desafio logístico. E a intermodalidade vem para isso, você receber cargas não só do Paraná e encaminhar para o porto, mas as que vem do Mato Grosso do Sul, do Mato Grosso. E é preciso permitir que o produtor paranaense e dos demais estados tenha um meio de escoamento, seja pelo Porto de Paranaguá, seja pelo Porto de São Francisco do Sul, pelo caminho mais econômico e mais racional”, disse.

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Fim do contrato da Malha Sul é oportunidade para debater investimentos em ferrovias no Paraná

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