“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. A frase do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, ajuda a explicar o incentivo que as cooperativas paranaenses promovem através de programas educacionais.

A cultura cooperativista sempre esteve interligada com a educação, e a Camila Catafesta, de 35 anos, percebeu isso assim que começou a trabalhar na Lar Cooperativa Agroindustrial, em Medianeira, na região oeste do Paraná. Ela entrou para a equipe como operadora de caixa e, atualmente, ocupa o cargo de coordenadora de Publicidade de Alimentos. A ascensão profissional ocorreu de forma natural, por meio de muito estudo.

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Camila começou na Lar como operadora de caixa e, atualmente, ocupa o cargo de coordenadora de Publicidade de Alimentos (Foto: Acervo Pessoal)

Camila, que é formada em jornalismo pela Unipar (Universidade Paranaense), teve dificuldades no início da carreira, para conquistar uma vaga no mercado de trabalho. Sem medo de arriscar, entrou na Lar em 2011 como operadora de caixa e foi conquistando novas colocações dentro da cooperativa

“Nesse período, eu fiz a minha primeira especialização com apoio da cooperativa. A Lar tem um incentivo de financiar a especialização. Enquanto você está cursando ela subsidia 50%, e depois de concluir o curso você devolve esse valor sem juros. Depois eu fiz um MBA em marketing pro agronegócio com apoio do Sescoop e incentivo da cooperativa. Então, toda essa minha trajetória de busca por conhecimento foi pelo cooperativismo”, disse em entrevista à Banda B.

A coordenadora nasceu em Céu Azul, cidade a cerca de 30 km de Medianeira e com pouco mais de 11 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). De família humilde, Camila tinha a vontade de ter uma boa colocação profissional para conquistar sonhos, mas sabia que no mercado de trabalho tradicional isso seria mais difícil.

“Quando você olha pro mercado de trabalho, você consegue perceber como no cooperativismo somos privilegiados por ter oportunidades. O cooperativismo é referência nesse princípio de educação para todos. É um modelo econômico e social que funciona muito bem, porque você contribui para o desenvolvimento geral. O profissional ganha, a cooperativa ganha e a sociedade onde essas pessoas estão inseridas também ganha. Quando iniciei na Lar como operadora de caixa e estava disposta a agarrar oportunidades, foi confiando no cooperativismo”, ressaltou. 

A Lar Cooperativa Agroindustrial tem quase 13 mil associados e mais de 25.650 trabalhadores. De acordo com Camila, o apoio à educação é uma prática comum na instituição porque a missão é promover o desenvolvimento econômico e social dos associados e da comunidade. 

“Eu vejo como uma inspiração, porque muita gente na Lar hoje tem oportunidade, busca conhecimento e cresce aqui dentro. Isso acontece desde os nossos superintendentes, porque temos um que começou na cooperativa como empacotador de supermercado e outro como office boy. Então você olha e pensa: eu também posso buscar conhecimento e evoluir dentro do cooperativismo”, comemorou. 

Abrindo portas para o mundo

As cooperativas paranaenses têm feito cada vez mais negócios e parcerias com empresas internacionais. A necessidade de os cooperados e associados aprenderem uma nova língua, especialmente o inglês, fez com que um grupo de professores fundasse a Academia de Línguas do Paraná. 

A cooperativa de professores de idiomas, criada há 19 anos, atende outras cooperativas pelo país que subsidiam cursos para profissionais, junto com Sescoop Paraná (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo). São 47 turmas de cursos online de alemão, francês, espanhol e inglês, com quase 700 alunos atendidos. 

“Era uma demanda que as cooperativas tinham há muitos anos de interesse em línguas mas não tinham como viabilizar isso. Então, temos procura por cooperativas de várias cidades diferentes. Até nas menorzinhas do estado há turmas. Existe uma aluna que vive em um município que tem 5 mil habitantes e ela também está tendo a oportunidade de estudar. É uma janela que se abre de contato com o mundo. Essas trocas se tornam muito ricas”, afirmou Glaucia Vargas Sanchez, diretora da Associação.

Além de um diferencial no currículo, o segundo idioma se tornou importante ferramenta para ampliar experiências. Kátia Góes, de 48 anos, trabalha há mais de 20 anos no RH de uma cooperativa da área de saúde, em Curitiba, e conseguiu interagir melhor com a função depois que iniciou o curso de inglês. 

“Eu percebo que o inglês tem sido parte do vocabulário dentro das organizações. Para mim fica claro que o cooperativismo tem um papel central para que esse curso aconteça. Você tem um profissional em busca de oportunidade, a cooperativa acolhe e este profissional se torna um cooperado. Nesse papel de cooperado, ele pode exercer o seu trabalho e através dele gerar oportunidade de aprendizado para a comunidade”, analisou. 

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Katia (esquerda) e Débora (direita) são alunas de turmas gratuitas de inglês (Fotos: Acervo Pessoal)

Débora Fátima Souza Barros, de 40 anos, atua há 10 anos como assistente técnica em uma cooperativa da área de saúde. Ela se encantou com o inglês ainda no ensino médio, só que não tinha condições financeiras de arcar com as aulas. 

“Peguei o gosto pela língua americana ainda no 2° grau, e ela se tornou minha matéria preferida na escola. Então apareceu a oportunidade de fazer o curso de forma gratuita pela cooperativa e eu não poderia deixar de aproveitar para unir o útil ao agradável […] Sei da importância deste curso para poder prestar processos seletivos dentro da própria empresa”, disse à Banda B. 

Conforme Andre Luiz Galor, presidente da Academia de Línguas do Paraná, a associação de professores conversa com as cooperativas para entender quais as demandas. Só depois disso é que as turmas são abertas. 

“A gente faz essa conversa com as cooperativas para que elas vejam quais as demandas delas, quais idiomas têm interesse e etc. A partir disso, criamos turmas específicas para atender essas necessidades e as cooperativas organizam para os cooperados, que estudam sem custo nenhum. Quem subsidia esse curso é o Sescoop, através das contribuições que são feitas pelas cooperativas anualmente. É muito gratificante ver o interesse da Ocepar e do Sescoop de fazer o projeto acontecer”, destacou.

Para Glaucia, diretora da Academia, a mudança promovida pela educação é vista rapidamente. 

“A gente se juntou como cooperativa para ver essa melhora na vida das pessoas, porque a gente acredita muito na diferença que faz você saber outras línguas, você ter contato com outro mundo, além do seu mundinho, na evolução das pessoas”, ressaltou. 

Educação cooperativa desde cedo

Praticar a cooperação ajuda a desenvolver sociedades mais humanizadas. Pensando nisso, é que existem os programas de cooperativas escolares em parceria com instituições de ensino. Com o auxílio de um professor orientador, os alunos criam suas próprias cooperativas com fins educativos.

Alyne Lemes, assessora de Desenvolvimento do Cooperativismo da Central Sicredi PR/SP/RS, citou que no ensino do cooperativismo as crianças e adolescentes aprendem valores como respeito e trabalho em equipe.

“Os alunos são agentes dessa construção. Eles se organizam entre si, fazem as reuniões e assembleias, e definem o objeto de estudo deles. A cooperativa escolar tem um cunho bastante focado no empreendedorismo, porque essas crianças vão trabalhar gestão e trabalho em equipe […] Nós entendemos que, muito embora nossos produtos sejam de soluções financeiras, por sermos cooperativa o desenvolvimento das nossas comunidades é essencial para nós, e a educação é o caminho para isso”, reforçou. 

O professor Marcos Henrique Ribeiro é orientador do programa Cooperativas Escolares do Sicredi. Ele atua em aulas de contraturno em um lar infantil na cidade de Ribeirão Claro, no norte pioneiro do Paraná. O município tem 10 mil habitantes e a mudança depois do projeto tem sido visível. 

“Nós não estamos impactando só nossos alunos, estamos impactando quem está em casa com eles e a comunidade onde vivem. Então, os pais estão aprendendo com os filhos. Isso muda a realidade das pessoas […] Quando começamos a vivenciar o cooperativismo, tentamos olhar tudo com esse olhar cooperativo. Eu deixo de olhar só o meu eu e passo a olhar os que estão à minha volta e isso faz muita diferença. Se uma gotinha de cooperativismo caísse sobre cada um, com certeza teríamos menos problemas no mundo”, analisou. 

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Professor Marcos e a equipe que atua em Ribeirão Claro (Foto: Acervo Pessoal)

O professor Marcos revelou que a educação cooperativa mudou, inclusive, o modo como ele pensa. 

“O cooperativismo muda muito a nossa realidade. Eu como professor, até alguns anos atrás, não conhecia esse ambiente da educação cooperativista. A partir do momento que eu comecei a conhecer tudo que a educação cooperativa pode fornecer, isso tornou a minha visão como professor e cidadão diferenciada”, garantiu. 

Uliana Fernandes é tia da Dhemily Vitória Helena da Silva de Oliveira, de 12 anos. A estudante participa do projeto há cerca de um ano e, junto com outros estudantes, ajuda a administrar a Cooperlar, em Ribeirão Claro.  

Dhemily cooperlar
Dhemily tem 12 anos e participa do projeto de cooperativa escolar em Ribeirão Claro (Foto: Acervo Pessoal)

“O projeto na vida dela só trouxe coisas boas. A minha sobrinha melhorou a autoestima, tem autonomia, aprendeu a ter mais responsabilidade, a se comunicar melhor, a desenvolver a solidariedade, a cooperação, a justiça, a democracia, e isso é muito importante. Quando ela entrou no projeto, começou a enxergar o mundo de uma maneira diferente, que temos que ajudar o próximo e ser unidos para que tudo melhore. Ela agora confia que estudando terá um futuro melhor”, contou Uliana emocionada. 

Alyne Lemes, do Sicredi, também é educadora, professora de língua portuguesa e mãe de um adolescente da mesma idade de Dhemily. Para ela, o que mais chama a atenção é a responsabilidade social educacional que as cooperativas têm. 

Cooperativismo e educação têm tudo a ver. Como é que eu vou ter sociedades e comunidades mais justas, mais prósperas, mais solidárias, mais cooperativas, se eu não assumo essa responsabilidade de fazer parte desse processo? Hoje as empresas precisam olhar para a educação, não só porque ela é um importante agente de transformação, mas pela estratégia de sobrevivência do negócio”, pontuou. 

Incentivo que transforma

Existe um provérbio africado que diz “se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá em grupo”. E é nessa linha que está o cooperativismo. Desde 1999, o Sistema Ocepar conta com o Sescoop Paraná, que atua na formação profissional e promoção social nas cooperativas do estado.

“Isso é vital para nós. Um dos princípios do cooperativismo fala dessa questão da educação. As cooperativas hoje, com a criação do Sescoop, têm à disposição vários tipos de formação, desde o Cooperjovem que atende turmas do ensino fundamental até programas de mestrado. Todas as áreas de treinamento também são contempladas, da área técnica até gestão”, explicou à Banda B Leandro Macioski, gerente de Desenvolvimento Humano do Sescoop-PR

Por ano, são cerca de R$ 100 milhões investidos em projetos de educação, com mais de 13 mil eventos e 350 mil participações. Segundo Macioski, a ideia é aproximar as pessoas e mostrar que elas podem acreditar em um futuro melhor.  

“Eu gosto sempre de reforçar que as cooperativas são negócios de proximidade. Quando o empregado da cooperativa ou o próprio cooperado sente que pertence a isso, o papel da educação é essencial. Somos uma sociedade de pessoas e temos que pensar em desenvolver as pessoas. Nas cooperativas é muito normal e muito recorrente encontrar pessoas que começaram em níveis mais básicos na operação e hoje têm cargos de gestão. Quando você conversa com elas, fica ainda mais claro esse reconhecimento do poder das cooperativas”, finalizou. 

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De operadora de caixa a cargo de chefia: como a educação cooperativa muda a vida de paranaenses

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