Universidades de todo o país foram esvaziadas com a quarentena contra o coronavírus, mas em quase todas permanece um grupo de estudantes, o dos moradores das residências estudantis.

Como as moradias são imóveis com muitos espaços de uso coletivo e grande circulação de pessoas, as instituições buscaram estratégias para desocupá-las.

Algumas universidades pagaram passagem de ônibus ou avião para que os alunos voltassem às cidades de suas famílias, outras aumentaram o valor do auxílio mensal pago para que possam ajudar com as despesas domiciliares.

Em alguns casos, no entanto, os estudantes não têm para onde ir, ou não conseguem retornar para casa devido às restrições de circulação no país.

As universidades têm estudado ações para diminuir os riscos de contágio entre os estudantes que permanecem nas moradias, como a reserva de unidades para isolamento de casos suspeitos ou confirmados de coronavírus.

Não há uma estimativa atualizada de quantos alunos residem em universidades do país. Levantamento feito em 2015 pela Fonaprace, entidade que reúne pró-reitores de assuntos estudantis na rede federal de ensino, dizia que somente nesse âmbito -sem contar portanto universidades públicas estaduais- havia pouco mais de 16 mil vagas em moradias estudantis.

“As universidades fizeram um esforço, mas viram que não conseguiriam esvaziar completamente as moradias. Elas também não podiam despejar os estudantes, deixando-os em situação ainda mais vulnerável ou expondo suas famílias à doença”, disse César Augusto da Ros, coordenador do Fonaprace.

 

(Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Estudante de pedagogia, Carina Matheus, de 29 anos, pensou em várias alternativas para deixar seu dormitório no Crusp (Conjunto Residencial da USP), mas não teve para onde ir. “Minha mãe é muito doente e fiquei com medo de transmitir algo a ela. Nenhum parente podia me receber. Então, a opção foi ficar”, contou.

Ela divide um apartamento com três colegas, cada um em um quarto individual, mas divide a cozinha, banheiro, salas de estudos com dezenas de outros moradores. Para se alimentar, ela tem ido todos os dias ao restaurante universitário, a fim de buscar o marmitex ali oferecido.

“A situação já era precária há anos, mas agora fica evidente o quanto a falta de investimento nos coloca em risco. A cozinha não funciona, não tem local pra cozinhar ou lavar a louça. É na mesma pia do banheiro que nós lavamos talheres, roupa, escovamos os dentes. Então, não estamos fazendo o isolamento como deveríamos”, disse. No sábado, 28, um aluno da USP morreu em decorrência do coronavírus.

Em nota, a reitoria da USP reconheceu que os problemas da residência “se acumulam historicamente”, mas informou ser preciso mais tempo para uma solução. “A pandemia amplificou alguns problemas e o que podemos fazer, nesse momento, é agir com os recursos que temos de imediato”, disse em nota.

Sobre as ações adotadas, a USP diz ter distribuído kits de limpeza aos moradores e fornecer informações de prevenção. Também afirma ter feito levantamento de quantos dos 1.500 residentes do Crusp permanecem no local, apesar de não ter informado o número, nem respondido se deu auxílio financeiro àqueles que saíram.

Na Unesp, por exemplo, os departamentos ajudaram a custear as passagens de alunos que optaram por voltar às suas cidades. Dos 1.200 moradores, apenas 234 permaneceram nos campi da universidade.

“Só ficaram aqueles que têm nas nossas residências a opção mais segura e saudável. São pessoas que não têm uma rede familiar ou teriam de ir para casas pequenas e com muita gente”, disse Mário Sérgio Vasconcelos, coordenador de permanência estudantil da Unesp.

Na Unicamp, não houve política de esvaziamento da moradia estudantil, que abriga cerca de mil alunos, mas ações para o isolamento. As unidades, que até então não tinham acesso a rede de wifi, receberam o recurso para evitar que os moradores precisem sair de casa. A comida do restaurante universitário também passou a ser entregue diretamente nas residências.

“Para a maioria deles, aqui é a verdadeira morada. Então nossa ação foi no sentido de deixá-los mais seguros e confortáveis para fazer a quarentena”, contou Eliana Amaral, pró-reitora de graduação da universidade. Algumas unidades já foram esvaziadas e reservadas para o isolamento de casos suspeitos ou confirmados da doença.

AJUDA FINANCEIRA

A fim de evitar que os alunos permanecessem na residência estudantil por dificuldades financeiras, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) aprovou um auxílio emergencial de R$ 450 mensais. O objetivo é auxiliar aqueles que retornaram para casa – moradores, 38 já deixaram o local e outros 48 ainda estudam opções para ir embora.

Outras instituições também privilegiaram ações de auxílio financeiro para que os estudantes deixassem as moradias, como é o caso da Ufal (federal de Alagoas), UFG (de Goiás) e UFRN (do Rio de Grande do Norte).

João Marcelo da Silva, de 21 anos, estudante de Saúde Pública da UFRN, disse ter deixado a moradia estudantil um dia após as aulas serem suspensas e ter a garantia de que continuaria recebendo um auxílio mensal ao voltar para sua cidade, São Paulo do Potengi, no interior do estado.

“Eu não poderia ser uma despesa a mais na minha casa. Minha mãe e minha irmã são muito doentes, não trabalham. Então essa bolsa é o que tem nos ajudado aqui em casa”, contou.

Os recursos emergenciais aprovados pelas universidades federais para auxiliar os estudantes são do Pnaes (Programa Nacional de Assistência Estudantil), ligado ao MEC (Ministério da Educação). O programa teve queda nominal de 3% no orçamento deste ano, em relação a 2019.

O orçamento da área caiu de R$ 1,070 bilhão para R$ 1,038 bilhão. No entanto, 40% do recurso de 2020 ainda está sob “supervisão”, ou seja, não está disponível para ser usados pelas universidades já que sua liberação depende de aprovação pelo Congresso.

“O auxílio financeiro aos estudantes é fundamental para a permanência deles na universidade e o orçamento da área há anos é insuficiente para as nossas demandas. Agora, esse recurso se tornou ainda mais essencial, já que as bolsas não são só para que continuem estudando, mas para que fiquem saudáveis, seguros”, disse Da Ros.

Procurado, o MEC não comentou sobre a queda orçamentária no programa.