(Foto: Reprodução/Facebook)

 

“Papai, papai! Ele vai entrar aqui! Eles vão me pegar, papai! Estou com medo, com muito medo!” Ao ouvir os gritos e o choro da filha Isadora deitada na maca, Carlos Alberto Morais pulou da cadeira e a abraçou. A menina estava em pânico. Morais sussurrou algo em seu ouvido para tranquilizá-la e, aos poucos, o desespero cedeu. Restou um choro baixo, até que a jovem, prostrada, dormiu novamente.

Tem sido assim desde que Isadora de Morais, de 14 anos, deu entrada no Centro de Reabilitação e Readaptação Doutor Henrique Santillo (Crer), em Goiânia. Com o uso de remédios e a presença de médicos e parentes, ela tem conseguido dormir algumas horas à noite, mas é constantemente revisitada por pesadelos.

As imagens e os pensamentos que atormentam Isadora brotam da tragédia que há um mês chocou o País.

Na manhã de 20 de outubro, um aluno de 14 anos entrou na sala do 8.º ano do Colégio Goyases, no Conjunto Riviera, bairro de classe média de Goiânia, abriu a mochila, sacou uma pistola calibre 40 e disparou 12 vezes contra seus colegas. Dois morreram no local e outros quatro sobreviveram, entre eles Isadora. Sua batalha, porém, está apenas começando. Ela ficou paraplégica.

A manhã daquela sexta-feira havia começado como qualquer outra para a família Morais. Na discreta casa da Rua 10, o pai, servidor público, tomou café com os filhos e levou Isadora até o portão da escola. A rua onde moram acaba na porta de entrada do Colégio Goyases. São cerca de 50 metros entre a casa da menina e sua sala de aula.

Às 11h30, quando estava no trabalho, Morais recebeu a ligação da mulher, Isabel, que é professora. Ela tinha recebido a informação de que um tiroteio havia ocorrido na escola e Isadora estaria entre os atingidos. Por meio de uma mensagem no WhatsApp, o irmão da estudante, Vinícius de Moraes, de 17 anos, também recebia a notícia durante uma aula de História, em outro colégio.

A família seguiu em desespero até a escola da filha. Ao chegar ao colégio, a rua já estava tomada por carros da imprensa, ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), do Corpo de Bombeiros e do Instituto Médico-Legal (IML).

Isadora estava entre as vítimas, mas viva. Sob a mira do atirador, recebera tiros na mão, no pescoço e no tórax – o último atingiu sua medula espinhal, entre a nona e a décima vértebra da coluna torácica. Socorrida no Hospital de Urgências de Goiânia, foi sedada, entubada e passou por cirurgias. Os riscos de paraplegia logo se confirmariam.

Após 20 dias de internação, Isadora deixou a UTI e foi para o Crer, onde iniciou uma nova fase de tratamento. Do umbigo até a ponta dos pés, a jovem não tem mais nenhuma sensibilidade ou movimento. O funcionamento da bexiga também foi totalmente comprometido. “Logo ela vai andar. A gente crê nisso e ela também, mas vai um processo longo, com várias equipes”, diz o pai. “É no tempo de Deus, não no tempo do homem. Muitas vezes a gente é até ingrato, porque pede uma coisa para ser atendido hoje. Mas com certeza o tempo de Deus é maior que o nosso.”

‘Risadora’

A menina que hoje alimenta a fé de voltar a andar é conhecida na família como Risadora, graças ao seu senso de humor e à risada que arranca sorriso de quem está ao redor. Comunicativa e boa aluna, foi aprovada no 8.º ano já no terceiro bimestre. O irmão, que está em casa, estuda para o vestibular de Medicina e cuida daquilo que Isadora mais sente saudades: Tonico, um cão shih-tzu de 6 meses. “A gente fala que agora falta o Tinoco para que a dupla caipira fique pronta”, conta Vinícius. A inspiração sertaneja vem de Isadora, que é fã de duplas mais modernas, como Henrique e Juliano, Jorge e Mateus. “Ela adora sertanejo universitário, eu gosto mais de Tropicália, MPB. A gente fica se provocando.”

Isadora ainda deve passar um bom tempo sem ver Tonico. Os próximos 30 dias serão decisivos para saber como, efetivamente, será a sua vida. “Sabemos que é uma lesão grave com consequências sérias, mas não posso afirmar neste momento qual é exatamente a intensidade. É preciso ter muita cautela”, diz Válney Luís da Rocha, diretor-geral do Crer.

A bala que atingiu a medula da jovem ainda está alojada na estrutura da coluna vertebral. O trauma provocou um edema que interrompe o estímulo cerebral, causando a paralisia. Com o tempo, o cenário pode melhorar ou piorar. Após quatro dias na reabilitação, Isadora venceu o primeiro desafio: sentar, o que lhe permitiu tomar banho de chuveiro.

O otimismo e o sentimento de confiança que cercam Isadora, reconhecem os médicos, são fundamentais para a recuperação. “Pacientes com esperança são mais colaborativos, participam do processo de reabilitação e respondem melhor”, diz Rocha. Nesta semana, a jovem deve começar a sair do quarto para passear pelos corredores do hospital em uma cadeira de rodas. O irmão comemora: “Ela vai sair dessa mais forte, não tenho dúvida disso Ela tem uma alegria incrível de viver”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.