Debaixo d’água há mais de 15 dias, Eldorado do Sul, a pequena cidade gaúcha com o maior número proporcional de pessoas desalojadas e com quase 80% da população afetada pela enchente, começa aos poucos a entender a dimensão da tragédia.

A aparição do sol e a lenta redução dos níveis do rio Jacuí e do lago Guaíba permitiram que alguns moradores abrissem suas casas pela primeira vez nesta sexta-feira (17).

O reencontro com o lar é marcado pela perda material total. Móveis pesados como sofás e camas foram arrastados para outros lugares com a força da cheia. Estão úmidos e cheiram a lodo.

Eletrodomésticos, mesas, cadeiras, roupas, frutas e outros alimentos ficaram banhados em lama, assim como qualquer superfície da casa. Janelas e portas quebraram pela corrente de água ou por saques, relatam os moradores.

Acostumada com outras inundações, a família de Fabrício Santos, 48, técnico de manutenção, ergueu roupas e colchão para o alto dos armários, pensando que seria suficiente. A cidade enfrentou outras duas enchentes em menos de um ao. Só que a rapidez da elevação da água surpreendeu e eles precisaram se mudar para o vizinho, deixando tudo para trás.

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Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

“A ficha ainda não caiu, mas vamos recomeçar”, diz. Sua esposa, Claudia Soares de Silva, 45, varre o pátio junto à sogra. Lamenta ao lembrar que perdeu o álbum de gestante. Em meio ao entulho, seu marido grita: “Olha o que encontrei”. Não eram recordações da gravidez, mas de seu filho, quando bebê. “Esse tipo de coisa [fotografia] a gente não consegue reconstruir, né?”, diz Claudia.

O filho, hoje com 12 anos, ainda não viu como ficou o lugar onde cresceu.

A mãe de Santos, Maria Terezinha, encontra a casa de madeira, que fica mais à frente, com o interior irreconhecível. Repete frases de motivação enquanto chora discretamente. “É toda uma vida… A gente vai seguir em frente porque é o que precisamos fazer.”

Alguns vizinhos de uma minúscula área que está seca em Eldorado se reencontraram após as duas semanas que transformaram a cidade num imenso rio com lixo e móveis boiando. Com galochas e rodos na mão, se cumprimentam com encorajamento. “Estamos vivos” virou uma saudação recorrente.

Um casal próximo à casa da família de Terezinha conseguiu deixar a casa com os avós logo quando iniciaram os alertas climáticos, no início do mês. “Morava aqui desde que nasci, há 36 anos. É melhor meu avô não estar junto agora [na limpeza], ia querer salvar até esse telefone”, diz José Lopes, apontando para um aparelho dos anos 1990 destroçado no chão barrento.

Eldorado do Sul é uma cidade nova, de 35 anos, e com 39,5 mil habitantes. Fica a 12 quilômetros de Porto Alegre, é plana e contornada pelo rio Jacuí e pelo Guaíba, o que favorece a inundação. O município tem algumas propriedades rurais e parte do emprego local é industrial e dependente de grandes empresas ali instaladas , como Ambev, Dell e Grupo Panvel.

De modo proporcional, o município é o pior ao considerar o número de moradores (81,1%) e de imóveis (71,2%) afetados pela tragédia no estado, segundo levantamento do núcleo de dados da Folha com base no IBGE e em mapeamento da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

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Ruas do centro histórico de Porto Alegre, na capital gaúcha, alagadas após enchente histórica de maio de 2024 – Foto: Divulgação/Giulian Serafim/Prefeitura do Município de Porto Alegre

Estão comprometidos 15.164 imóveis, metade dos estabelecimentos agropecuários, metade dos religiosos, 75,5% das instituições de ensino (de um total de 37), além de 80% dos estabelecimentos de saúde. Seis pessoas foram encontradas mortas e 16 estão desaparecidas, de acordo com a Defesa Civil.

Como o território está quase inabitável, a maioria da população está abrigada em municípios próximos, como Guaíba, Esteio ou Porto Alegre. Alguns poucos conseguiram alojamento no local e é possível ver gente dormindo em salas da sede administrativa, como faz o próprio prefeito, Ernani Gonçalves (PDT-RS), que há duas semanas passa a noite em um colchão no chão de seu gabinete.
“A gente precisa de socorro de todo lado do mundo, dos governantes, mas precisa ser para ontem”, afirma. “O que vivemos aqui foram cenas de terror.”

Segundo ele, que está no quinto mandato (o segundo consecutivo), as pessoas debandaram para o prédio da prefeitura nos primeiros dias da catástrofe e cerca de 3.000 moradores passaram por lá, muitos acompanhados de seus animais de estimação.

A construção tem três andares e é inapropriada para tantas pessoas. No térreo, a água batia na cintura e as aglomerações ocorriam nas escadas. Servidores relataram que as pessoas conviveram com centenas de cachorros. Quando a prefeitura já não deu mais conta, famílias foram deslocadas para a rodovia BR-290, onde dormiram ao relento. Parte permanece lá até agora.

A reportagem presenciou na sexta dezenas de barracas e caminhões parados na rodovia federal, com cobertores fazendo as vezes de janelas. “Precisamos trazer essa gente de volta, mas não tem estrutura”, diz Guimarães.

Alguns vizinhos de uma minúscula área que está seca em Eldorado se reencontraram após as duas semanas que transformaram a cidade num imenso rio com lixo e móveis boiando. Com galochas e rodos na mão, se cumprimentam com encorajamento. “Estamos vivos” virou uma saudação recorrente.

Na parte alagada da cidade só é possível andar de barco. Quem mora lá vai demorar a conseguir entrar em casa, pois o nível da água ainda cobre automóveis e paradas de ônibus. O maior receio entre voluntários que ainda resgatam animais e levam mantimentos aos poucos que ficam em andares altos é o que será encontrado debaixo d’água e da lama quando tudo secar.

“A gente não pode abandonar o barco. Ajudamos quem deu para ajudar, mas perdemos alguns camaradas, paciência…”, diz Otávio Volnei Aguiar, 57, um voluntário que se diz um “faz-tudo” da cidade. De Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, carrega na bermuda um facão que usa para cortar uma pequena laranja. Ele domina o caminho pela água de todas as ruas e envia áudios comentando a situação das casas aos respectivos donos.

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Hospital de Campanha no RS – Foto: Gustavo Mansur/Secom

Pede para o barqueiro parar. “O que tem de rango aí?”, fala alto a um homem que está em uma varanda de casa de tijolos não terminada com um fogão improvisado em uma lata. “Hoje sai massa com sardinha”, responde Roberto Sotelo, 62, de manta e gorro. “Estou bem quentinho aqui na frente do fogo, não vou sair”, diz. Fazia 14ºC no início da tarde.

Otávio, o faz-tudo, mostra de longe a sua residência. Há dias não arrisca entrar. “Está há 15 dias debaixo d’água, o que tu acha que eu ainda tenho? Não tenho mais roupa e nem documento, mas de que adianta documento, todo mundo me conhece por ‘Zoreia’ mesmo.”

De chinelo de dedo e bermuda, Zoreia pula do barco com a água na cintura. Caminha até o que um dia foi um campo de futebol e desenrola das redes uma bandeira preta que está intacta, estampada com a foto de uma senhora negra de trajes típicos gaúchos sobre um cavalo. Ele conta que foi uma figura simbólica para os tradicionalistas da cidade e morreu há alguns anos. Acima da foto, está escrito Cavalgada Noeca Mendes.

“Tivemos morte de uns camaradas, mas eu encontrei essa bandeira da dona Noeca…”, diz Zoreia, que tenta segurar o choro e agarra firme na mão a memória que conseguiu recuperar.

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