Apenas 16% dos professores do país consideram ter internet com velocidade e alcance adequado dentro das escolas públicas em que dão aula. Para 99% deles, é imprescindível ou importante melhorar a conectividade das unidades no próximo ano.

Os dados são de pesquisa feita pelo Datafolha a pedido da Fundação Lemann. Foram entrevistados, por telefone, 1.005 professores de todas as regiões do país entre os dias 22 de setembro e 10 de outubro. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.

Especialistas em educação e gestores públicos dizem ser fundamental melhorar a conectividades das escolas para o próximo ano, já que a perspectiva é de que ainda em 2021 seja necessário continuar com parte das atividades de forma remota por causa da pandemia.

 

 

 

A pesquisa mostra que o acesso à internet é bastante desigual no país. No Sul, 14% dos professores disseram não haver conexão em suas escolas. No Nordeste, o número é 2,5 vezes maior –35% responderam não ter internet.

Até mesmo dentro das regiões a desigualdade é acentuada. No Sudeste, está a maior proporção de professores que dizem ter internet adequada (20%), mas também o segundo maior número dos que não têm nenhum acesso na escola (32%).

Apesar de 71% das escolas públicas brasileiras estarem conectadas à internet, dados do MEC (Ministério da Educação) mostram que a conexão da maioria delas é apenas para serviços administrativos. A média de velocidade de internet das unidades do país é de 11 mega –nos Estados Unidos, a média é de 100 mega por escola, segundo dados do Programa de Inovação Educação Conectada.

“O próximo ano letivo ainda vai ser com ensino híbrido. Fomos pegos de surpresa neste ano e os estados e municípios implementaram atividades remotas de forma emergencial, mas, agora, sabemos que a tecnologia vai ser necessária para a aprendizagem em 2021 e precisamos nos preparar”, avalia Cristieni Castilhos, gerente da Força Tarefa Educação/Covid-19 da Fundação Lemann.

Há em tramitação no Congresso hoje ao menos dois projetos de lei que podem melhorar a conectividade das escolas públicas.

No Senado, uma das propostas é a de regulação do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), que pode garantir recursos para incentivar empresas de telecomunicação a levar serviços de internet a regiões do país que hoje estão sem conexão com internet –cerca de 1.500 municípios não têm nenhuma estrutura de fibra ótica.

Na Câmara dos Deputados, um projeto propõe que a União assegure recursos necessários a estados e municípios para prover acesso à internet a todos os alunos e professores da educação básica pública. A proposta é de que as empresas de telefonia móvel isentem o consumo de dados para o acompanhamento de atividades letivas remotas.

O projeto também prevê o uso de recursos do Fust, que atualmente tem seus recursos contingenciados pelo teto de gastos para reduzir o déficit das contas públicas. O PL prevê que a proposta custe R$ 26,6 bilhões para universalizar o acesso à internet aos alunos e professores e compra de equipamentos.

“Senadores e deputados têm hoje oportunidades muito concretas de garantir que o ensino em 2021 aconteça em melhores condições e é importante que esses projetos sejam aprovados ainda este ano”, diz Castilhos.

Professora de língua portuguesa em uma escola municipal de Caruaru, em Pernambuco, Marcela Aguiar, 24, conta que seus alunos nunca usaram computador ou internet na escola, já que há só um equipamento na unidade para uso administrativo.

“Além de muitos não terem internet ou celular em casa, eles não tinham familiaridade em usar a tecnologia para o ensino porque nunca tiveram a oportunidade”, conta. Nos últimos meses, ela tentou diversos projetos para engajar os alunos nas atividades remotas, mas o máximo que conseguiu de participação foi de 35 dos seus 150 alunos.

Ainda que planeje o próximo ano letivo com a maior parte das aulas de forma presencial para 2021, a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo prevê três ações para melhorar a conectividade de alunos, professores e escolas para o próximo ano.

A tecnologia será necessária para atender docentes e estudantes do grupo de risco que não poderão retornar presencialmente e para atividades de reforço escolar.

“Queremos a escola aberta e recebendo os alunos pelo maior tempo possível, mas a tecnologia ainda vai ser importante como suporte complementar”, diz Henrique Pimentel Filho, subsecretário de articulação regional da pasta.

Para o próximo ano, o PDDE Paulista (Programa Dinheiro Direto na Escola) prevê a destinação de um recurso para que as unidades comprem equipamentos de tecnologia para o ensino híbrido. A secretaria também lançou um projeto para subsidiar a compra de computadores para 161 mil professores (a rede tem cerca de 200 mil docentes), em até R$ 2.000.

A pasta também informa que vai distribuir 750 mil chips de celular com acesso gratuito à internet –250 mil para professores e 500 mil para estudantes. Os docentes devem receber ainda este ano para que possam fazer a busca ativa dos mais de 500 mil alunos da rede que não fizeram nenhuma atividade letiva desde o início da suspensão das aulas.

“Ainda não sabemos o quanto das aulas vamos poder oferecer de forma presencial, nosso planejamento é para que seja o máximo possível, mas precisamos garantir um melhor atendimento para quem não puder voltar no próximo ano”, diz Pimentel Filho.