Um paciente com covid-19 chega a uma unidade de pronto atendimento em Pernambuco. Em estado grave, precisa de ventilador — mas não há equipamento para todos. Na frente de médicos que assistem sem poder ajudar, ele morre.

(Foto: Arquivo Pessoal)

 

Médicos locais relatam cenas como essa, em especial nas UPAs (unidades de pronto atendimento), porta de entrada para as emergências, onde pacientes ficam esperando por uma vaga em hospitais. “As UTIs de campanha até que estão conseguindo atuar no limite da capacidade, mas a gente está com gargalo muito difícil nas UPAs. Elas ficaram esquecidas”, diz o médico generalista Joabe Oliveira Vasconcelos. “Não tem ventilador suficiente para todos. Já tive que escolher entre dois pacientes.”

O sistema de saúde do Estado tem dado demonstrações de que não aguenta o número de pacientes na crise do coronavírus. Pernambuco teve 15.588 casos confirmados de coronavírus e 1.298 mortes até quinta-feira (14). A Secretaria de Saúde de Pernambuco não respondeu perguntas específicas da reportagem sobre fila para acesso a UTIs e ocupação de leitos no Estado.

O secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, já disse que há fila por leitos de UTI no Estado, que é “extremamente dinâmica” e pode ter, em determinado momento do dia, mais de cem pessoas. Cinco municípios da região metropolitana de Recife tiveram quarentena decretada pelo governo do Estado, começando neste sábado (16), até dia 31 de maio.

A BBC News Brasil colheu relatos de cinco médicos sobre a difícil situação que têm enfrentado no dia a dia.

‘Já vi pacientes chegando perto da morte sentados em cadeira dura durante 48 horas por falta de leito’ – Joabe Oliveira Vasconcelos, 28 anos, médico generalista de UTIs e UPAs em Recife

“Estou trabalhando 72 horas por semana em UTIs e UPAs. As UTIs de campanha até que estão conseguindo atuar no limite da capacidade, mas a gente está com gargalo muito difícil no atendimento primário, na porta de entrada para a emergência, que são as UPAs. Elas ficaram esquecidas.

Não tem ventilador suficiente para todos nas UPAs. Já tive que escolher entre dois pacientes [sobre quem seria intubado e colocado no ventilador] e escolhi pelo que aparentemente tinha melhor chance de sobreviver. Já aconteceu em mais de um plantão, e continua acontecendo, porque o número de ventiladores não é suficiente.

Fico com uma sensação de indignação com a falta de recursos para todo mundo receber o atendimento que precisa. É um direito básico.

Os pacientes são transferidos de UPAs para hospitais entre 24 horas e mais de 72 horas. Há pacientes que ficam 4 dias ou 5 dias intubados na UPA. A vida deles corre risco.

É muito comum ter pacientes na UPA — uns 10 pacientes no mínimo por plantão — recebendo oxigênio no cateter, mas sem terem leito para ficar, sentados em uma cadeira dura por 24 horas, 48 horas.

Ficam reclamando do desconforto, olhando para gente, e a gente sem ter como acomodá-los no leito. Isso é horrível, nossa. Ter uma pessoa 48 horas olhando para você lhe pedindo um leito e você não poder oferecer. Os mais velhos e idosos sofrem muito porque a doença agrava bastante, ficam sonolentos na nossa frente e não tem lugar para botar eles. É indigno. Já vi pacientes chegarem muito perto da morte assim.

Um dos maiores medos que os pacientes têm é de serem intubados e nunca mais acordar. Um paciente de 56 anos disse a mim: ‘Eu tenho medo de ser intubado e nunca mais sair, doutor’. E eu soube que em 24 horas ele morreu. Para mim foi muito duro porque quando eu o intubei eu dei a ele alguma esperança, eu respondi que aquela era a melhor chance que ele teria de sobreviver, e isso não aconteceu.

Na semana passada, atendi um paciente que tinha 33 anos. Quando cheguei no plantão ele tinha sido intubado havia cerca de 10 horas. Era um paciente obeso e a doença dele agravou-se absurdamente em 24 horas. Passei 30 min tentando reanimá-lo, mas infelizmente ele não sobreviveu. E dar a notícia para a família, e para o irmão, de que a pessoa que estava com eles há menos de 24 horas não estaria mais nunca, sem terem direito a ver o corpo e ter um momento de luto? Isso para mim foi o mais trágico.”

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