O Brasil, país vive uma crise sem precedentes de emprego para a juventude, tem um programa nascido nas periferias do Rio que eleva em 9 pontos percentuais as chances de a população de 14 a 29 anos conseguir um trabalho formal, e em 11 pontos percentuais sua probabilidade de abrir um negócio.

O projeto, chamado Agência Redes para Juventude, também aumenta em 20 pontos percentuais o engajamento de seus beneficiados em atividades para resolver os problemas de suas comunidades.

Esse diagnóstico sobre a metodologia do programa – criado há dez anos pelo diretor teatral e escritor Marcus Faustini e exportado para países como o Reino Unido – foi concluído há pouco pela Universidade de Stanford.

 

Foto: Agência Brasil

 

Desde 2015, a universidade (uma das mais reputadas do mundo) fazia uma avaliação do impacto da Agência Redes sobre seus beneficiários.

Apesar da experiência positiva do projeto, Faustini diz não se surpreender com a crise de emprego vivida hoje pelos jovens brasileiros.
Como mostrou uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a atual diferença de 16,4 pontos percentuais entre a taxa de desocupação da população de 18 a 24 anos – próxima a 30% -, comparada a média da população, é recorde.

“Com tantos anos sem políticas para a juventude, tanto na esfera governamental, quanto no mercado, não dava para esperar um resultado diferente após uma pandemia”, diz Faustini.

A conclusão é compartilhada por outros especialistas envolvidos em projetos destinados a aumentar a empregabilidade dos jovens.
“Ninguém olha para os jovens”, diz Humberto Casagrande, presidente do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola), o principal intermediário de vagas de aprendizes e estágios no Brasil.

As empresas brasileiras, que, em média, já não cumpriam suas cotas de contratação de aprendizes estabelecidas por lei, reduziram ainda mais o uso dessa mão de obra após o início da pandemia. De março a setembro, 87,2 mil vagas de aprendizes – destinadas a jovens de 14 a 24 anos que não estejam na faculdade – foram fechadas, segundo o Caged.

Para reverter esse quadro, o Ciee tem proposto às empresas que apoiem um outro projeto, mais barato, também voltado a estudantes do ensino médio, chamado Jovem Talento. A modalidade prevê, além do estágio na empresa, uma hora diária de treinamento dos participantes em cursos ministrados pelo centro.

“O estágio tradicional não costuma oferecer capacitação. O jovem não é acompanhado, escutado e, muitas vezes, sua mão de obra é usada em funções mais precárias”, afirma Casagrande.

A percepção de que jovens de baixa renda não são ouvidos foi justamente o que motivou Faustini a criar a Agência Redes para Juventude, que é voltada para jovens que vivem em comunidades vulneráveis.

“A sociedade brasileira trata o jovem pobre como um carente que não sabe nada, ignora que a juventude é uma enorme potência”, diz.
Faustini ressalta que não basta “oferecer a ele um cursinho de três meses e esperar que vire um cidadão”. “É preciso uma metodologia específica de trabalho”, explica.

Por isso, durante cada ciclo de trabalho, que dura um ano, os jovens são estimulados a seguir uma jornada que os ajuda a identificar desejos e construir projetos.

Os participantes recebem formação – que inclui conhecimento prático para participar de editais, por exemplo – e são apresentados a profissionais de suas áreas de afinidade, para que deixem o programa com uma rede de contatos.

“Quando fui selecionada, nunca havia pensado que poderia criar algo meu”, diz Elaine Rosa, 31.

Nascida no Complexo do Chapadão, conjunto de favelas na Pavuna, no Rio, a produtora cultural entrou para a Agência com 24 anos. Na época, a ideia elaborada por Elaine foi uma das selecionadas de sua turma para ser desenvolvido.

Batizado de Feira Crespa, o projeto fundado por ela é uma ação afirmativa que incentiva o empreendedorismo de mulheres negras e já teve 26 edições desde 2014.

A Agência financiou 93 projetos até 2019, como a ONG Providenciando a Favor da Vida que acompanha adolescentes grávidas, e o jornal Fala Roça. O número de ideias escolhidas varia anualmente, dependendo do valor dos patrocínios captados. O investimento em cada projeto também depende do apoio conseguido, que girou nos últimos anos em torno de R$ 10 mil.

Enquanto participam do programa, os jovens da Agência recebem um subsídio mensal. Aqueles cujas ideias não são selecionadas podem integrar os projetos de outros colegas.

Para Mariana Almeida, superintendente da Fundação Tide Setubal, o estímulo para que jovens de um mesmo perímetro urbano pensem seus projetos de vida juntos aumenta as chances de sucesso.

“Se apoiamos um grupo de jovens que se identificam entre eles, enfrentam problemas parecidos, eles se fortalecem.”

Partindo desse princípio, a Fundação lançará em 2021, no Jardim Lapena (zona leste de São Paulo), o piloto de um projeto batizado de Asas, que consistirá em uma bolsa de oito meses para que jovens do último ano do ensino médio conheçam as possibilidades de carreira no mundo corporativo, no setor público e no empreendedorismo.

A metodologia do Asas – parecida com a desenvolvida por Faustini no Rio – também trabalhará com os jovens a importância de pensar em projetos que impactem o território onde vivem.

“A ideia é realmente dar asas a esses jovens, cujos sonhos, muito cedo, vão sendo podados pela falta de oportunidades, estímulos e contatos”, diz Mariana.