Era perto das 23h quando a moto saiu do quartel da Polícia Militar em direção à favela de Heliópolis (zona sul de São Paulo). Sobre a Honda CG 150 sem placa, decididos a dar início a uma chacina, estavam, em trajes civis, os policiais militares Hailton Borges dos Santos Evangelista, 33, e Antônio Paulo da Rocha, 35.

(Foto: EBC)

 

Eles não sabiam que iam em direção a uma emboscada. O plano de chacina, arquitetado durante a confraternização de equipe da Força Tática do 46º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, havia sido delatado a traficantes por outro PM que participava da festa.

Os detalhes do bastidor sombrio estão em documentos obtidos pela reportagem, resultantes de uma investigação concluída pela Polícia Militar no ano passado.

Dois PMs são acusados de participação do plano de chacina. A investigação buscou também apurar quem foi o delator dos dois policiais mortos.
O processo sobre esse caso tramita no Tribunal de Justiça Militar de SP. O ritmo do andamento, porém, preocupa integrantes da PM e do próprio Judiciário, pela possibilidade de prescrição de penas.

Os PMs Borges e A. Paulo, como eram chamados, morreram em 31 de outubro de 2012 em meio a uma guerra não declarada entre PMs e criminosos do PCC. Até aquele mês, haviam sido vitimados mais de 90 policiais militares no estado e um desconhecido número de bandidos ligados à facção.

Havia suspeitas do uso de “motoqueiros fantasmas” nessa guerra, algo nunca provado -até agora. “Motoqueiros fantamas” é a forma como os próprios PMs chamam os autores de ataques com motos sem placa, perpetrados por policiais de folga. As mortes nessas ações são chamadas de “caixa 2”.

Segundo a investigação da PM, a ideia do ataque a traficantes da favela partiu de Borges, inconformado com o assassinato de colegas. Testemunhas afirmam que ele chamou outro colega para participar. Este negou-se, gerando discussão entre eles. Foi quando A. Paulo se ofereceu para acompanhar Borges.

Quando a notícia de duas pessoas baleadas em Heliópolis chegou ao quartel, parte dos PMs começou a chorar -mesmo sem informações sobre as vítimas. Isso é apontado pela investigação como indício de que todos na confraternização, mais de 15 pessoas, sabiam do plano de chacina.

A identificação das vítimas demorou a chegar porque os PMs, al vejados na cabeça, ficaram desfigurados. Um deles levou 9 tiros e, o outro, 12.
Uma das provas de que houve um delator foi o relato de uma testemunha localizada pelo DHPP (departamento de homicídios). Ela estava com um traficante da favela, na noite do crime, quando chegou a informação de que dois policiais, sob o pretexto de irem buscar o “arrego” (propina), matariam traficantes de lá.

A investigação aponta ainda que, enquanto parte dos policiais estava atônita com a notícia, outros tentavam pôr em marcha outro crime: fraudar o cenário, para afastar as suspeitas da participação do grupo no plano de chacina.

A ideia era criar uma narrativa de que os PMs haviam sido sequestrados em São Caetano do Sul -Heliópolis fica na divisa entre os dois municípios-, levados para a favela e mortos por lá.

Sempre segundo a investigação, esse plano de fraude foi capitaneado pelo então comandante do pelotão, o tenente Leandro Braz Tokuno. O oficial teria mandado um soldado até a favela para tirar a moto usada pelos PMs assassinados, porque sabia que o veículo pertencia a outro policial.

Além de mandar um soldado para alterar a cena do crime, o oficial solicitou a outro PM que levasse a moto de uma das vítimas até São Caetano, para ser abandonada por lá, para criar a versão do sequestro.

O plano naufragou porque os PMs que faziam a preservação da cena do crime não permitiram que a moto usada pelos mortos fosse removida. De acordo com a denúncia, dois sargentos negaram o pedido, mesmo com a pressão exercida por Tokuno, com apoio do cabo Anaucleto Gomes Albuquerque.

A investigação também apurou que o tenente alterou a escala de serviço naquela noite, para tentar esconder que uma das vítimas, o soldado A. Paulo, estava trabalhando no momento em que participava da tentativa de chacina.

Por essa fraude, Tokuno perdeu o posto e a patente, uma espécie de expulsão da PM. Também foi condenado, em 2016, a dois anos e seis meses de reclusão, em regime aberto.

Mesmo com a condenação do tenent, a investigação seguiu em busca do traidor. Um policial ouvido pelo Ministério Público chegou a apontar o próprio Tokuno como o responsável pela delação.

Segundo os documentos obtidos pela reportagem, a testemunha protegida disse que o então oficial transportava drogas e armas para criminosos do PCC, da Baixada Santista até Heliópolis. Após desviar uma carga de armas, ficou em dívida com os traficantes e os teria compensado denunciando o plano de chacina.

A investigação não conseguiu comprovar essas informações, mas surgiram novos detalhes sobre o plano. Tokuno foi, então, mais uma vez denunciado pela Promotoria, em março do ano passado, pela participação da reunião ilegal em que se urdiu a chacina e por tentar alterar a cena do crime.

De acordo com estimativa feita membros da investigação, o primeiro crime deve prescrever apenas em 2027, mas, o segundo pode perder a punibilidade em março de 2021.

O processo foi distribuído para o primeiro juiz que havia tratado do caso, Ronaldo João Roth, da 1ª Auditoria. Em agosto de 2019, a pedido da defesa, foi trasnferido para a 4ª Auditoria, sob responsabilidade do juiz José Álvaro Machado Marques.

Até a semana passada, a última movimentação do processo havia sido em 21 de janeiro deste ano, quando uma testemunha foi intimada, mas não compareceu, e o magistrado não marcou nova audiência.

Procurado, o juiz Marques disse que não marcou nova data porque estaria “seguindo a ordem da pauta”.
“Estamos trabalhando com o máximo esforço para dar celeridade e temos que garantir a ampla defesa, respeitar o contraditório e cumprir todo o processo legal”, diz o magistrado, por nota.

Procurado por meio de seus advogados, Tokuno não quis se manifestar. Em seus depoimentos na investigação, afirmou de “forma contundente que não ligou para nenhum traficante informando sobre a ida dos militares para a favela do Heliópolis”. Ele também negou as outras irregularidades.

Já o advogado Wanderley Alves, que defende o cabo Anaucleto Gomes Albuquerque, disse que seu cliente vai provar sua inocência. “Há provas suficientes de que o Anacleuto não está envolvido nos fatos. Confiamos na aplicação de um processo penal militar de índole democrática, que não coaduna com conjecturas fáticas da denúncia -sobretudo ilações; e acusação desprovida de um mínimo de standard probatório”, diz nota do defensor.​