A pandemia de Covid-19 jogou um balde de água fria nas celebrações de fim de ano e nas férias de adultos e de crianças. Mas poucos foram tão duramente afetados como os idosos que vivem em asilos e casas de repouso.

(Foto: EBC)

 

Esta época do ano, era muito aguardada pelos mais velhos, pois muitos deles deixavam as instituições e retornavam brevemente ao convívio familiar.
Mas a Covid-19 mudou o cenário: idosos continuaram privados de suas atividades e isolados da família numa época que inspira o aconchego.

Nos dez meses de pandemia, o isolamento foi tão árduo para esse grupo que fragilizou os laços familiares e resultou em casos de abandono para os que vivem em instituições.

Eles foram as vítimas preferenciais do novo coronavírus. De acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde -com informações relativas à primeira semana de dezembro-, 73,8% dos mortos por Covid-19 tinham 60 anos ou mais.

A fragilidade frente ao coronavírus exigiu medidas extremas para preservar os mais velhos, que passaram a enfrentar um isolamento social ainda mais severo do que os demais.

Em asilos ao redor do país, a primeira medida adotada foi o fim das visitas. “O que mais sinto falta é das visitas das crianças, que vinham aqui sempre. Amo crianças”, diz Angelina Pereira Barbosa, 68, que vive no Lar dos Velhinhos Bezerra de Menezes, em Sobradinho (DF).

Angelina conta que havia perdido contato com a família, mas foi descoberta por parentes pela internet. Eles são de Mato Grosso do Sul e tinham planos de visitá-la em 2020, mas a pandemia cancelou o encontro.

Além das crianças, a idosa diz sentir falta dos banhos de sol, momento em que colocava o papo em dia ao lado dos colegas.
Angelina chegou a ter sintomas da Covid-19 e por isso foi isolada -o pior momento de sua vida, conta.

“Fiquei 16 dias em isolamento, só conversando com uma funcionária. Me deu um pouco de depressão. Mas felizmente comecei a reagir, quando aprendi crochê”.

O fim das visitas é considerado a pior parte da pandemia, afirma Elaine Alves Ribeiro de Araújo, sócia da Casa Clara Residencial para Idosos.
As instituições criaram videochamadas para conectar os idosos aos familiares, mas, segundo Araújo, nem isso surtiu muito efeito pela falta de familiaridade do grupo com a tecnologia.

“Um deles [que apresentou indícios de depressão] é um idoso com problema de visão, que por isso não sentia o mesmo prazer que os demais ao conversarem com os familiares pelo computador”, conta Araújo.

Para os casos mais graves de depressão, Araújo afirma que precisou fazer encontros presenciais –todos a distância e respeitando as normas sanitárias vigentes.

“Para nós foi uma parada [na rotina] muito ríspida. De uma hora para a outra ficamos restritos de fazer certas coisas, não podemos abraçar as pessoas que a gente ama, não podemos beijar nossos filhos. E com isso a gente vai se isolando”, diz o servidor público aposentado José Antônio de Magalhães, que também vive em asilo.

Segundo Maércia Correia de Mello, promotora de Justiça da Pessoa Idosa do Distrito Federal, a pandemia exacerbou os casos de abandonos, um problema que já era crônico. “Terminada essa pandemia, o grande desafio será retomar o contato dos familiares com esses idosos, que são carentes de afeto”, afirma.

Os vínculos rompidos impactaram diretamente na gestão dos abrigos. Muitos gestores tentaram convencer os familiares a levarem seus idosos para casa para conter a superlotação dos espaços e diminuir os riscos de contaminação. “Não conseguimos colaboração por parte deles”, afirma Inês Miranda, diretora do Bezerra de Menezes.

Quando a pandemia deu sinais de queda, entre agosto e setembro, algumas instituições implantaram nas visitas a “cortina do abraço”. Feita de plástico e com um espaço para o encaixe dos braços, os filhos e seus pais idosos puderam experimentar novamente o gesto de afeto.

Na mesma ocasião, atividades de dança e rezas também voltaram à rotina dos abrigados e foram fundamentais para a melhoria da autoestima dos idosos. Porém, a segunda onda da pandemia de Covid-19 no país atrapalhou os planos.

“Dá uma dor porque eles perguntam: ‘quando meu filho vem me buscar’. E aí a gente precisa explicar que eles não vão poder sair neste ano. Nós vamos ter nossa festinha tradicional, mas, infelizmente, a gente não vai poder receber os familiares”, afirma Elaine de Araújo.

Os familiares que mantêm relação mais próxima com os idosos também temem os riscos pelos quais os abrigados correm com o atual nível de contaminação.

“Já é difícil a gente ficar longe, poder vir só uma, duas, três vezes por semana. Mas com a pandemia a família ficou mais afastada”, afirma Lied Helena Firmino, que visita a tia que a criou, muitas vezes apenas pelo portão do asilo.

“É difícil porque num tempinho desses [da visita], você não poder aproximar, pegar na pessoa, abraçar, você sente falta disso. Vamos levando com a esperança de que vai melhorar”, diz Firmino.