A quadrilha presa neste domingo (22) após escavar um túnel de cerca de 70 metros até o cofre do Banco do Brasil, em Campo Grande (MS), tinha uma organização profissional, como troca sistemática de casas, alugadas em bairros nobres, e material de contrainteligência, segundo a Polícia Civil.

A ação policial ocorreu na madrugada de sábado para domingo e, no fim, houve dois mortos, um ferido e seis presos, entre eles uma mulher, apontada como contadora da quadrilha.

(Foto: Polícia Civil/Divulgação)

De acordo com o delegado João Paulo Sartori, do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros), esse poderia ser um dos maiores roubos a bancos da história do país. Ele não quis falar em estimativas de quanto estava guardado no cofre do Banco do Brasil.

A investigação começou há seis meses e, de acordo com Sartori, teve início a partir de outra apuração. A ação faz parte da Operação Oros, em parceria com o Ministério da Justiça.

Entre os integrantes do grupo, alguns têm passagem por roubo a banco e tentativas de fuga da prisão. Um dos mortos é Renato Nascimento de Santana, 42, considerado o líder da quadrilha pela polícia. Há uma suspeita de que a identidade dele seja falsa, já que os demais presos falaram que foram procurados por ele na cadeia, e não há nenhum registro policial no nome apresentado.

De acordo com a polícia, além do armazém, onde estava o túnel, pelo menos outras seis casas foram alugadas, normalmente em bairros nobres. O grupo costumava trocar de residência de tempos em tempos, para não levantar suspeitas dos vizinhos.

O grupo alugou o armazém em maio e usou documentos falsos para ligar a luz. A localização foi estratégica, pois, além de somente uma avenida separar o galpão e o banco, a região tem muitos estabelecimentos comerciais.

O túnel, de cerca de 70 metros, tem 7 metros de profundidade. No início, é possível ficar quase em pé, já que o grupo começou “com muita vontade de cavar”, conforme o delegado. À medida que o túnel avança, é necessário ficar de cócoras e andar engatinhando.

Há ventiladores a cada cinco metros e o espaço é bem escorado e iluminado. Nos últimos dez metros, porém, a terra não fica mais escorada em nenhum suporte e deve-se quase engatinhar. Ninguém sai limpo de lá.

O grupo chegou a marcar um local para fazer o buraco e entrar no banco, mas viram que ali não acessaria o cofre. O objetivo estava cerca de dois metros mais para frente, onde eles fizeram um pequeno furo no chão do estabelecimento. Eles usavam uma broca com uma câmera para ver dentro do prédio.

Segundo a polícia, eles usariam um macaco hidráulico para abrir o chão do cofre. O cuidado de usar pás e outros materiais silenciosos foi adotado em toda a escavação, a fim de evitar barulho e variações sísmicas.

De acordo com a polícia, o gasto por semana com o plano girava em torno de R$ 21 mil. O grupo utilizava uma câmera e um bloqueador de sinal eletromagnético no local, como técnica de contrainteligência, e também adotou a prática de tirar o rótulo das garrafas para evitar que o código de barras auxiliasse na investigação.

No armazém, há centenas de sacos de terra, retirada do túnel. Eles jogaram cal em todos os cômodos para apagar digitais e outros vestígios.

A operação foi deflagrada após a movimentação do grupo aumentar, no sábado. A polícia foi ao armazém, mas três suspeitos já haviam deixado o local, em um caminhão e uma caminhonete. O motorista do caminhão tentou atropelar um agente e fugiu. Ele foi encontrado dando entrada no hospital, ferido.

Os outros dois suspeitos, na caminhonete, foram mortos. Os seis presos foram encontrados em uma casa longe do túnel. Há a suspeita de que o grupo todo tenha cerca de 20 pessoas.