ROGÉRIO PAGNAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A cuidadora de idosos Elcy Leopoldina, 48, acordou cedo na segunda-feira (2), Dia de Finados, para retomar uma rotina iniciada há dois meses: tentar provar a inocência do filho, o produtor de eventos Angelo Gustavo Pereira Nobre, 28, e conseguir tirá-lo da prisão.

O rapaz está preso desde setembro por suposta participação em um roubo ocorrido em 2014, após investigação da polícia que baseou o reconhecimento de Nobre em foto de Facebook. Ele não tem nenhuma condenação anterior ou passagem prévias pela polícia.

Segundo testemunhas, na época do crime o produtor se recuperava de quatro intervenções cirúrgicas (pneumotórax) e mal conseguia andar.

“Mas ele não praticou o crime porque estava recém-operado. Ele não praticou o crime porque não é bandido”, diz a advogada Clarissa Oliveira, que faz parte da nova banca de defesa. “Além de não ter participado, na época ele estava recém-operado”, diz.

O produtor de eventos Angelo Gustavo Peira Nobre, 29, cuja família tentar provar inocência – Arquivo pessoal

Na segunda-feira (2), amigos e parentes do rapaz se reuniram na rua onde mora a família de Elcy, no bairro do Catete, no Rio, onde Nobre é bastante conhecido, e recolheram mais de 500 assinaturas em um abaixo-assinado pedindo sua liberdade.

“A única prova? Reconhecimento por foto de Facebook. Mais um caso ‘isolado’? Até quando?” dizia um dos cartazes na terceira manifestação. A quarta está prevista para ocorrer no dia em que a Justiça analisará um dos últimos recursos que ainda cabem ao rapaz, condenado a seis anos, dois meses e sete dias.

Nobre foi condenado em segunda instância e, sem a apresentação de recursos aos tribunais de superiores, o caso foi transitado em julgado. Agora, a defesa apela para uma revisão criminal para tentar anular a sentença.

“A defensoria havia dito que o caso havia sido arquivado, que era para ele aguardar em casa. Ele ficou despreocupado, até porque estava de consciência limpa. Foi na delegacia que descobriu que havia sido julgado e condenado. Foi muito triste, muito desesperador para ele e para mim”, diz Elcy Leopoldina.

O crime pelo qual Nobre foi condenado ocorreu em 27 de agosto de 2014, por volta das 22h50, no bairro do Flamengo, no Rio. Seis criminosos em três motos cercaram um carro parado no semáforo, renderam a vítima e a levaram para uma rua próxima, onde a abandonaram. Antes de irem, um dos ladrões tirou sua correntinha do pescoço.

Naquela noite, segundo as testemunhas levadas à Justiça, Nobre participou de uma missa em homenagem à memória de um irmão de criação, morto após uma queda de uma escada. Mesmo estando debilitado por causa de cirurgias recentes, Nobre decidiu participar da missa por se tratar de seu melhor amigo.

De acordo com a investigação, o veículo roubado foi localizado dois meses depois. Dentro dele, havia documentos de um suspeito chamado João Carlos da Silva Mateus. Ao analisar as fotografias, a vítima reconheceu um dos assaltantes.

Protesto da família e amigos de Angelo – Arquivo pessoal

Dias depois, segundo depoimento prestado à Polícia Civil, a vítima voltou à delegacia. Afirmou que tinha feito uma investigação nas redes sociais de João Carlos e encontrou uma das fotos dele com Nobre. A foto não foi anexada na investigação. Na Justiça, a vítima reconheceu Nobre como coautor do roubo.

Mesmo tendo residência fixa e sendo conhecido no bairro do Catete, não há registro de que a polícia tenha procurado Nobre para ouvi-lo na investigação ou de que foram feitas buscas de câmeras de segurança nos locais citados pela vítima para ajudar a elucidar o roubo do veículo.

O inquérito foi concluído com 56 páginas, conforme relatório final das investigações assinado pelo delegado Marcelo Ambrósio, que indiciou Nobre e João Carlos.

Segundo a defesa de Nobre, ele foi colocado sozinho sentado em uma cadeira para ser reconhecido, e não em meio a outras pessoas parecidas.

No depoimento à Justiça, porém, a vítima deu uma versão diferente do depoimento à polícia. Disse que foi um policial quem investigou as redes sociais de João Carlos e que ele só confirmou que Nobre era coautor. Disse também que Nobre havia curtido fotos de João Carlos em rede social. Testemunhas, porém, afirmam que os dois se conheciam só de vista.

Cinco testemunhas prestaram depoimento à Justiça para atestar a inocência de Nobre e dizer que ele estava debilitado, sentindo muitas dores para fazer qualquer movimento.

Já a vítima afirmou que o criminoso pulou da garupa da moto, correu até ele e arrancou sua correntinha do pescoço.

O Ministério Público diz, nas alegações finais, que não encontrou nesses testemunhos nada que contrariasse a versão da vítima e que a defesa não “logrou ilidir a robusta prova produzida em desfavor dos réus”. “Como se pode observar de tudo que foi exposto acima, o quadro probatório é harmônico e robusto, não pairando qualquer dúvida acerca da autoria imputada aos réus.”

Sobre os problemas de saúde de Nobre, a promotora Fernanda Vale Pacheco de Medeiros disse que entre a alta hospitalar e roubo se passaram 34 dias e, assim, Nobre teria condições de cometer o crime.

“Não há nos autos qualquer relato médico sobre a piora no estado de saúde do réu ou sobre qualquer limitação física por este sofrida. Pelo contrário, o que se observa da documentação é que a cirurgia foi bem-sucedida, sem intercorrências e o dreno foi retirado da alta hospitalar”, diz trecho da manifestação da promotora.

Para a Promotoria, versão com a qual a Justiça concordou, mesmo que tivesse participado da cerimônia em homenagem ao amigo morto haveria tempo de ter cometido o crime.

“Deixou margem para um subjetivismo. Subjetivismo esse que, sabemos, promotor e juiz não têm que ter, mas tiveram, de que ele poderia sim, pelo espaço/tempo e proximidade do local, poderia sim ter praticado o crime. Mas não poderia, porque estava com o padrasto”, disse a advogada.

Procurado, o Ministério Público do Rio não comentou o assunto até a publicação deste texto.

“É muito triste. É muito revoltando toda essa injustiça. Eu não desejo para não nenhuma o que estou passando. É mais revoltante pensar que aquele que cometeu o crime está solto e meu filho está pagando por um crime que não praticou”, afirma Elcy Leopoldina, mãe do produtor de eventos. “Não desejo a ninguém isso que estou passando.”