Morando nos Estados Unidos desde 1997, Heloíza Barbosa, 53, está acostumada a ouvir dos americanos a pergunta “where are you from?” [de onde você é?]. “Quando digo que sou do Brasil, a reação é quase sempre a mesma. ‘Oh, really? [é mesmo?] A minha faxineira também é brasileira!”, relata.

 

Na foto, Heloíza Barbosa, criadora do Faxina Podcast. Foto: Arquivo Pessoal

 

Escutar isso faz Heloíza se lembrar das histórias que ela própria viveu quando trabalhou limpando casas, por três anos, logo que chegou ao país. Uma delas foi quando serviu comida em uma mansão durante o jantar para um convidado ilustre e se animou ao reconhecer quem ele era: o escritor anglo-indiano Salman Rushdie. Ao contar para a patroa que tinha acabado de ler um livro dele, ouviu dela: “Não fala! Trabalha!” e, em seguida, um “shhhh!”.

Vinte anos depois, Heloíza, que hoje tem pós-doutorado em educação, decidiu quebrar esse silenciamento de outros brasileiros que trabalham limpando casas na região de Boston, onde vive. Ela criou o podcast Faxina, no qual narra histórias de alguns desses imigrantes.

 

Foto: Divulgação

 

“Esse silêncio já durou tempo demais”, diz, no primeiro episódio, em que narra a trajetória de Samuel Andrade. Goiano, ele mora nos EUA há 16 anos e tem um perfil com mais de 40 mil seguidores no Instagram em que conta sua rotina de forma bem-humorada por meio de um personagem que batizou de Coisinha.

“Vai, vai, vai, faxineira, vai descendo até o chão, vai surrando a banheira, lava pia, vaso e chão, deixa tudo bem limpinho pra agradar o teu patrão”, canta ele, no trecho de um vídeo do Coisinha que é incluído no episódio, em que ele também fala sobre a humildade necessária para trabalhar nessa profissão e sobre como o “diploma do Brasil na América é simplesmente uma folha guardada dentro da gaveta”.

A narrativa se aprofunda na vida de Samuel e aborda as dificuldades de se descobrir gay tendo sido criado em uma família religiosa em uma cidade pequena, os perigos que enfrentou ao migrar com os serviços de um coiote e a dureza de trabalhar por 12 horas de madrugada, de domingo a domingo, em um supermercado, quando chegou a Boston.

Heloíza teve a ideia do podcast após ouvir uma história que a impressionou de uma brasileira que foi limpar sua casa. Ela já queria escrever um livro de contos sobre outro tema, mas mudou o foco e o formato. “Queria amplificar essas vozes, contar como é a vida de quem tenta criar uma nova casa aqui enquanto limpa a casa dos outros. E podcast me lembra rádio, é mais acessível, porque hoje quase todo mundo tem um celular.”

Outra inspiração foi sua infância no Pará, com seus quatro irmãos e pais analfabetos. “Minha mãe era empregada doméstica, lavadeira e depois costureira. Ela não conseguia ler e por isso adorava ouvir o rádio. Meu pai, um caboclo do interior da floresta também analfabeto, comprava o jornal e pedia aos filhos para lerem para ele. Foi assim que aprendi a ler. Meu amor pelo rádio e pelas histórias vêm daí”, conta.

Formada em pedagogia na Universidade Federal do Pará, Heloíza fez mestrado, doutorado e pós-doutorado nos EUA e foi professora da Universidade Federal de Santa Catarina de 2005 até 2013. Casada com um americano, ela voltou para Boston nessa época.

Segundo ela, o Faxina não é se trata de um produto jornalístico, mas de “etnografia participante”, no qual o entrevistado trabalha junto com ela no roteiro. “O mais bonito de fazer o Faxina é dividir com os donos das histórias o escrever e editar. Elas têm o poder de editar sua própria narrativa”, diz.

As entrevistas começaram em setembro do ano passado, e a equipe é toda voluntária –há uma campanha de financiamento coletivo online para cobrir os custos de produção e remunerar os profissionais.

O programa foi inscrito em uma seleção do Google para mentoria e patrocínio e ficou em sétimo lugar entre 5.600 propostas, mas só havia seis vagas. A empresa, porém, ofereceu uma semana de treinamento e o direito de usar seu estúdio gratuitamente.

Três dos seis episódios programados para a primeira temporada estão no ar. Um deles aborda a história de Elza (nome fictício), que saiu do Brasil para fugir de uma situação de violência doméstica e passou anos tentando levar seu filho para junto dela nos EUA.

A entrevistada conta em detalhes como contraiu uma dívida com um coiote e o que viveu para cruzar a fronteira: ficou presa em uma casa com 13 pessoas e foi extorquida por mexicanos, caminhou 18 horas, atravessou um rio, passou frio, pulou cercas e chegou com os pés cheios de mordidas de formiga e espinhos.

Já no destino, sofreu racismo por parte de uma patroa brasileira, viu sua dívida com o coiote ser acrescida de juros até ficar quase impossível de pagar e chegou a trabalhar em três empregos, dormindo cerca de três horas por noite. Hoje, melhorou de vida e levou o filho para junto dela.

De acordo com o Itamaraty, a região coberta pelo Consulado-Geral em Boston (que inclui os estados de Massachusetts, Maine, New Hampshire e Vermont) concentra cerca de 350 mil brasileiros. Junto com a área de Nova York, que tem a mesma quantidade, está em segundo lugar entre os dez consulados no país –o primeiro é Miami, com 370 mil.

Segundo Heloíza, como a maioria dos imigrantes que trabalham com faxina está em situação irregular nos EUA, muitos têm medo de falar e alguns desistem depois de fazer a entrevista. Mas a primeira temporada está sendo finalizada e deve terminar em agosto.

Os episódios do Faxina estão no site do programa e em plataformas como Spotify e Apple Podcasts e são ilustrados por artistas brasileiros.