Lina, 63, não respira sozinha e está intubada. Carlos, 77, não respira sozinho, está intubado e faz hemodiálise. Idalina, 90, não respira sozinha, está intubada, faz hemodiálise e tem as funções cardiovasculares comprometidas. Lina, Carlos e Idalina, cujos nomes foram trocados para preservar sua privacidade, travam uma batalha contra a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

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As histórias dos três pacientes estão pelos corredores da UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na Bela Vista, no centro da cidade de São Paulo. A reportagem entrou na UTI do hospital privado, fundado há 122 anos, na última quarta-feira (6).
Para entrar lá, na tarde de quarta-feira (6), a reportagem precisou cumprir protocolos como higienizar as mãos, usar máscara N95, gorro e óculos e trocar a roupa pelo uniforme desinfetado do hospital.

A reportagem da Folha já esteve na UTI do Instituto Emílio Ribas em abril. A unidade, que é referência na área de infectologia da rede pública paulista, foi a primeira a ter seus leitos 100% ocupados apenas por infectados pelo vírus Sars-Cov-2.
Naquela ocasião, a superlotação e o esgotamento de recursos estavam forçando a equipe médica do hospital público a correr contra o tempo para escolher quem devia continuar vivo e quem não.

Os problemas estruturais do Emílio Ribas passam ao largo do cotidiano do Oswaldo Cruz. Não há correria nos corredores. O silêncio só é quebrado quando um equipamento nos leitos apita, e a equipe de enfermagem precisa verificar o problema.

Mesmo com a doença em plena expansão, sobram leitos no hospital privado, diz a enfermeira Cristiane Schmitt, gerente da UTI. “Temos 38 leitos para pacientes com Covid-19; 24 estão ocupados e 14 estão vagos. Na UTI para pacientes com outras enfermidades, a gente tinha um leito sobrando nesta quarta”.

“As pessoas com outros diagnósticos tinham medo de procurar o hospital por causa da pandemia e isso está mudando agora”, completa.

Mas no começo da crise, quando a rede hospitalar privada absorveu a maioria dos infectados, o Oswaldo Cruz precisou criar uma operação especial para não ficar sem suprimentos e dar conta da quantidade de pacientes graves que chegavam.

Foram contratados cerca de 50 profissionais de saúde e abertos dez leitos, conta Schmitt. “Também redimensionamos as equipes que faziam os procedimentos eletivos, todos suspensos agora, para o reforço contra a Covid-19.”

Com 95% dos leitos de UTI ocupados em metade dos hospitais designados para tratar a Covid-19, a gestão Covas (PSDB) tem buscado os hospitais privados para ampliar a oferta. O Oswaldo Cruz vai disponibilizar leitos de sua unidade no bairro da Liberdade.

A semelhança entre Emílio Ribas e Oswaldo Cruz está mesmo na gravidade do quadro clínico dos internados. Na UTI do hospital da Bela Vista, a reportagem viu pacientes “caçando o ar”, situação que levou a maioria a serem intubados.

O tempo de permanência nos leitos tem sido longo. Carlos, 77, por exemplo, está internado desde o dia 26 de março. Na média, segundo o hospital, os pacientes têm ficado mais de 12 dias na UTI.

Os leitos são individuais e se parecem com uma caixa de vidro. A estrutura envidraçada ajuda o corpo clínico a acompanhar visualmente os pacientes e a monitorar as funções vitais deles, medidas por aparelhos como os respiradores.

Os aparelhos de ventilação mecânica, também posicionados de frente aos corredores por onde circulam a equipe médica, ajudam a manter o pulmão aberto dos pacientes para eles receberem a quantidade complementar de oxigênio que necessitam.

No esforço pela recuperação, sobressai o trabalho das técnicas de enfermagem, profissionais que cuidam da medicação, da comida, do banho e dos aparelhos.

A enfermeira Myrcea Maria de Carvalho Suzuki, 43, chefia um grupo de técnicos de enfermagem do Oswaldo Cruz. Ela diz que quando um paciente com Covid-19 começa a falar, é o sinal de que o tratamento está no rumo certo. “Falar já é uma fase bem adiantada, embora ele ainda tenha um longo caminho a percorrer”, afirma.

Quem tem melhora clínica e deixa a UTI é levado para outra área de internação isolada. O paciente que permanece em estado grave recebe a visita diária de uma equipe composta por médico, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista e farmacêutico. Dessa reunião saem protocolos de tratamento individualizado.

O médico intensivista Estevão Bassi, 36, cuida de cerca de dez leitos da UTI só para internados com Covid-19 do Oswaldo Cruz. Ele diz que a doença predomina entre idosos, mas tem afetado jovens.

Quando a Folha esteve no hospital, Bassi monitorava dois pacientes com suspeita da doença. Eles apresentavam baixo nível de saturação no sangue e falta de ar. A saturação é o índice que mede a quantidade de oxigênio transportada pelo sangue. Um dos pacientes, disse Bassi, apresentava índice de 80% –o ideal é entre 95% e 100%. “A maior parte dos pacientes vem pra UTI à procura de oxigênio em nível mais alto. Só intubamos os que não conseguem respirar”, afirma.

Para Bassi, a pandemia mudou a sua própria rotina. “UTI sempre foi o meu ambiente de trabalho. A diferença é, que agora, se eu não tomar todos os cuidados, também posso pegar o vírus”, diz.

O médico já assinou quatro atestados de óbito por Covid-19 –a taxa de mortalidade da UTI, segundo o hospital, é de 1,8%. “Sempre fica aquela sensação: o que eu poderia ter feito a mais para salvar aquelas vidas?”, pergunta ele.