A família de Magda Maria Barbosa de Alencar, de 53 anos, é grande. Ela, o marido, a filha, o irmão e uma sobrinha moram juntos. Com a pandemia, ela foi afastada da creche em que trabalhava, mas conseguiu manter o salário. O marido, que é garçom, ficou sem trabalho. A filha e a sobrinha continuaram trabalhando a distância e o irmão, que bancava a maior parte das despesas, fechou a empresa. Resultado: a renda familiar despencou.
Magda tirou coisas supérfluas da lista de compras e cortou em 80% o consumo de carne.
Para economizar na conta de água, eles foram além: “Tomávamos vários banhos por dia, tivemos de diminuir.”
Antes da pandemia, a família saía para comer fora. “Agora, jamais.” As viagens para visitar os parentes em Fortaleza (CE) estão fora de cogitação.
Advogado Riccardo Marcori Varalli mudou os hábitos – Foto: Estadão ConteúdoO mesmo acontece com o advogado Riccardo Marcori Varalli, de 42 anos, que transferiu o escritório para casa e descobriu que pode fazer muita coisa por conta própria. Ele passou a cozinhar, reduzindo gastos com restaurante. “Não é necessário comer fora três vezes por semana, sendo que posso fazer em casa.”
Em home office, também passou a gastar menos com roupas. Ele costumava usar traje social para ir ao escritório. Agora, faz tempo que não compra itens de vestuário. “Na pandemia comecei a ficar mais consciente do tanto de coisas supérfluas que comprava ”
Varalli pretende continuar economizando. Ida a restaurantes, shoppings e grandes viagens estão suspensos.
Cerca de 69 milhões de brasileiros, ou 42% da população adulta, pretendem comprar menos nos próximos meses comparado ao que gastavam antes da pandemia do coronavírus, mostra pesquisa nacional feita pelo Instituto Locomotiva.
A freada no consumo tem relação direta com a queda na renda provocada pela pandemia. Mas uma mudança mais estrutural também está a caminho, já que o isolamento social acabou provocando alterações no comportamento do consumidor, segundo Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.
“Há mais de cem dias dentro de casa, as pessoas descobriram o que precisam e o que não precisam”, diz Meirelles. Com a pandemia, o consumidor racionalizou as compras. “Nesse novo mundo não cabe ostentação.”
Movimentação na Praia de Boa Viagem (Foto: Marlon Costa/Futura Press/Folhapress)A freada nas compras, constatada em todas as classes sociais, ocorre em um cenário de queda recorde no consumo das famílias que é esperado para este ano – uma retração de 7,2%, segundo projeção feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
É como se, apenas neste ano, o consumo das famílias caísse mais do que as perdas acumuladas em 2015 e 2016, quando o País enfrentou uma longa recessão.
“Além de ser o item de maior peso do Produto Interno Bruto (PIB), o consumo das famílias é o que faz o brasileiro perceber se está em uma situação melhor ou pior. Ele sente que a vida está mais difícil quando sua capacidade de consumir cai”, afirma o economista sênior da CNC, Fabio Bentes.
Recuo
A perspectiva de continuar segurando as compras nos próximos 12 meses é confirmada por outra pesquisa, da consultoria Bain & Company. A enquete ouviu 1,6 mil pessoas e foi feita no fim de junho. Aponta que, em todos os segmentos, o número de pessoas que pretende gastar menos é maior do que o dos que devem aumentar gastos depois da pandemia.
Em serviços, por exemplo, 57% dos consultados declararam que vão gastar menos em viagens, 51% em eventos, 41% em academias, 36% em restaurantes. “As pessoas não sabem quanto tempo a pandemia vai durar, por isso há mais gente prevendo desembolsar menos”, observa Frederico Eisner, sócio da consultoria. Na sua avaliação, as pessoas estão com medo e esse sentimento não combina com consumo.