Data marcada pela reflexão sobre as questões raciais em torno das mulheres, 25 de julho é conhecido como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Para entender quais são os pilares da luta do feminismo negro e as barreiras impostas pela sociedade a essas mulheres, a Banda B conversou com a pesquisadora e integrante do movimento negro “Respeito não tem cor”, Sara Brown, de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. Ela deixou respostas, e questionamentos.

O Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra foi instituído no Brasil através da Lei nº 12.987 pela ex-presidente Dilma Rousseff no ano de 2014. Tereza de Banguela foi uma líder quilombola que viveu no atual estado de Mato Grosso, no Brasil, durante o século 18, e se tornou um símbolo de resistência, força e luta pela liberdade.

Para Brown, de 48 anos, essa é uma data muito especial, porém não é um dia para se festejar e sim dar visibilidade à causa. A ideia é conscientizar as pessoas a respeito da realidade e preconceitos enfrentados pelas mulheres negras tanto no âmbito do gênero quanto da cor de pele. “Nossa luta é diária, não é algo que acontece pontualmente. Esse dia serve para lembrar que a luta não dá trégua e que ela é incessante, pois lutamos contra o racismo, o patriarcado e várias outras formas de opressão e dominação”, explicou.

Tereza de Benguela – Foto: Reprodução

A luta mencionada pela ativista é também sobre a invisibilidade das mulheres negras e o racismo que estrutura a sociedade, mas que ninguém percebe. Segundo ela, no Brasil, há a concepção de que não há racismo, no entanto, ela rebate: “Como se nós estamos em um dos países que mais registra casos de racismo? Se não há racismo aqui, por que fazemos parte dessa estatística? A questão é que ninguém se percebe como racista. Às vezes temos atitudes racistas e não percebemos, então é hora de questionarmos isso”, indagou.

O racismo estaria presente em falas, atitudes e olhares. Porém, Brown destaca que a mulher negra sofre dupla opressão por conta do gênero e da cor. A segregação e o preconceito, segundo ela, são alguns dos maiores desafios enfrentados. Para a pesquisadora, é necessário que haja o reconhecimento das diferenças entre mulheres brancas e negras, pois é a partir disso que as desigualdades começarão a cair.

“A primeira coisa que devemos fazer é repensar nossas atitudes. Eu enquanto mulher negra, no meu vocabulário, por exemplo, adoto palavras de cunho racista, pois fui educada nessa sociedade estruturada pelo racismo. A palavra denegrir, como amostra, é uma dessas palavras e muitos não sabem. Deve haver essa discussão. É importante que brancos saibam quais são as lutas enfrentadas pelo povo negro”, afirmou.

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Além disso, entre os questionamentos que Brown deixou no ar, há aquele bastante conhecido pela população negra e que vale a reflexão: “Quando você, mulher branca, entra em um mercado ou shopping calçando chinelos e camiseta é barrada ou vista de outra forma por seguranças? Eles a seguem enquanto faz suas compras?”

Para ela, é imprescindível que mulheres brancas reconheçam os privilégios que têm por terem a cor de pele clara. “Por ser branca, pode ser que as pessoas não desconfiem de você, mas em relação aos negros há outros olhares sim”, disse.