A professora Rafaela da Silva de Jesus, 28, passou os cinco últimos anos em busca do sonho de ser mãe.

Fez tratamentos médicos de fertilização e há nove meses conseguiu o resultado esperado: estava grávida da sua primeira filha.

Nesta quarta-feira (1º), sete dias após o nascimento da pequena Alice, Rafaela teve o seu sonho de maternidade interrompido. Ela é a sétima vítima fatal da Covid-19 no estado da Bahia, segunda no interior do estado.

Nos últimos anos, a vida de Rafaela foi um vaivém. Com uma frequência, ela percorria os pelos 280 km de estrada que separa a Itaju do Colônia, cidade do sul da Bahia, e a vila de Trancoso, em Porto Seguro.

Rafaela e o marido Erisvaldo – Arquivo pessoal

Na primeira, ela era professora de ensino infantil em uma escola da rede municipal. Na segunda, ajudava o marido Erisvaldo Lopes dos Santos, 47, nas operações da Bigotur, empresa de transfer turístico.

Uma semana antes do parto, em 16 de março, Rafaela e o marido viajaram para Itapetinga, cidade do sudoeste abaiano onde mora parte da família dela e onde escolheram ter a filha em um hospital particular.

Assim que chegaram na cidade, o casal foi procurado por uma equipe da vigilância epidemiológica da prefeitura, que orientou quarentena pelo fato de ambos terem vindo de uma região com casos registrados do novo coronavírus. Só saíram para o hospital.

Após uma cesariana no dia 25 de março, Alice veio ao mundo saudável e forte. Mãe e filha deixaram o hospital, mas bastaram cinco dias para que Rafaela começasse a sentir sintomas como uma febre baixa, em torno de 37 graus, e falta de ar.

Como a falta de ar persistia, ela foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento. Ao relatar que veio de uma região onde já haviam sido registrados casos do novo coronavírus, foi imediatamente isolada, intubada e ligada a um respirador mecânico.

Como a cidade não possui leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), Rafaela seria deslocada no dia seguinte para um hospital em Vitória da Conquista, maior cidade do sudoeste baiano. Mas ela não suportou e morreu enquanto aguardava a chegada de uma ambulância.

“Quando me deram a notícia, foi um choque. Eu fiquei louco dentro daquela UPA. Dizia ‘vocês mataram minha esposa, ela chegou aqui bem'”, conta Erisvaldo. O laudo que comprovou a Covid-19 como causa da morte saiu apenas dois dias depois.

Segundo Erisvaldo, a suspeita é que sua mulher tenha contraído a doença de convidados de um casamento para 280 convidados realizado no dia 14 de março em uma pousada em Trancoso. Sua empresa prestou serviço de transfer ao evento. Rafaela não trabalhou na festa, mas costumava dirigir o mesmo carro no qual o marido trabalhava.

“Nesse dia, trasportamos muita gente. Como trabalho com turismo, costumo ter contato com gente do mundo todo”, diz Erisvaldo, que também fez teste para saber se contraiu novo coronavírus e ainda aguarda o resultado. A pequena Alice também foi testada.

Com a filha de apenas uma semana, Erisvaldo voltou para Trancoso. Agora, conta com a ajuda de sua filha mais velha, de outro casamento, para cuidar da recém-nascida.

Além do luto, ainda teve que enfrentar comentários maldosos de pessoas da comunidade em redes sociais, que diziam que havia sido irresponsável e estava espalhando a doença pela cidade.

“Esse mundo é cruel e as pessoas são maldosas. Acham que eu perdi a minha esposa porque quis?”, questiona. Por outro lado, conta, ele também recebeu ligações de solidariedade de vizinhos e clientes.

Erisvaldo afirma que Rafaela era uma mulher trabalhadora, determinada e que estava sempre cheia de sonhos: “Era uma pessoa maravilhosa, muito lutadora. Trabalhadeira igual a ela não existia”.

E lamenta que sua mulher partido sem conseguir exercer plenamente a maternidade pela qual tanto lutou.

“Estávamos começando a conquistar as coisas, sabe? Nossa empresa crescendo, nossa filha nascendo. E agora ela não está mais aqui.”