O contágio por coronavírus no Brasil está acelerando há 15 semanas, indicam cálculos do centro de controle de epidemias do Imperial College, um dos principais do mundo.

Desde a semana de 27 de abril, o país tem taxa de transmissão acima de 1, o que significa que a infecção está ganhando velocidade. Na semana que começou neste domingo (3), o índice, também chamado de Rt, manteve o 1,08 registrado na semana passada.

Isso quer dizer que cada 100 infectados por coronavírus no Brasil contaminam outros 108, que por sua vez infectam mais 116,6, que contagiam 126 e assim sucessivamente, espalhando a doença de forma cada vez mais rápida.

Nesse mesmo período, países que também tinham Rt acima de 1 no começo de maio, como Japão e Emirados Árabes Unidos, controlaram completamente a transmissão comunitária. Apesar da preocupação com uma segunda onda, o país asiático tem tido sucesso na política de testes intensivos e rastreamento de contatos para suprimir novos focos.

Arábia Saudita e Paquistão, que também tinham transmissão sem controle há três meses, registram Rt abaixo de 1 desde julho, segundo os cálculos do Imperial College. No balanço divulgado nesta terça (4) pela OMS, os dois aparecem também sem transmissão comunitária.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Dados compilados pela agência europeia de controle de doenças infecciosas também mostraram que o número de novos casos de Covid-19 no Brasil está em alta e já é mais que o dobro dos registrados há dois meses. Segundo a OMS, sem medidas coordenadas de restrição ao contágio, o Brasil ainda terá um “longo caminho” antes de domar o coronavírus.

Dos países da América do Sul com mais de dez casos nas últimas duas semanas, só o Chile tem taxa de transmissão abaixo de 1. O índice do país está em 0,94, ou seja, cada 100 habitantes infectam outros 94, que passam o coronavírus para 88, depois 83, desacelerando a expansão da doença.

Além do Brasil, Argentina e Bolívia (1,16), Venezuela (1,13), Colômbia, Peru e Equador (1,09) apresentam contágio acelerado.

Com exceção do Uruguai, de Suriname e da Guiana, onde ocorrem focos isolados da doença, todos os países sul-americanos apresentam transmissão comunitária sustentada.

Especialistas em epidemias têm ressaltado que, como o Brasil é grande e diversificado, a velocidade da transmissão pode variar bastante de acordo com a região, com mostra o acompanhamento dos casos feito pela Folha de S.Paulo. Há três semanas, a OMS afirmou que o Rt brasileiro varia, geograficamente, de 0,5 a 1,5.

O Imperial College calcula a taxa com base no número de mortes reportadas, dado menos sujeito a subnotificações; como há uma defasagem entre o momento do contágio e a morte, mudanças nas políticas de combate à epidemia levam em média duas semanas para se refletirem nos cálculos.

Segundo as estimativas do centro britânico, o Brasil terá o maior número de mortes por coronavírus nesta semana, 7.870. O país lidera o número de óbitos esperados também há 15 semanas. Na Índia, são esperados 5.620 óbitos, e no México, 4.340 (os Estados Unidos não entram no relatório, pois seus dados são calculados por estado, em estudo à parte).

Com base nos óbitos relatados, o Imperial College estima também que o número de casos de contágio no Brasil seja cerca do dobro dos registrados.