Com o assassinato de George Floyd, um negro americano sufocado por um policial branco nos Estados Unidos, uma onda contra o racismo chacoalhou o mundo. O movimento Black Lives Matter (vidas negras importam) ganhou projeção em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, e o debate sobre o tema passou a ser constante nas famílias.

De filhos excluídos de brincadeiras a comentários maldosos nas redes sociais e a violência policial contra pretos, o discurso de que somos todos iguais passou a ser questionado com mais veemência. O tema virou uma constante em programas de TV, não apenas nos policiais, mas se estendeu aos de variedades e teve adesão de parte dos artistas, que cederam seus perfis em redes sociais para ativistas negros.

Essa transformação social ocorreu (e continua) em um momento em que os pais estão mais tempo com os filhos dentro de casa, em virtude da pandemia do novo coronavírus. Mas qual o momento certo para abordar esse assunto com as crianças? Para os especialistas, a conversa sobre racismo deve ocorrer desde a infância. Os primeiros seis anos de vida são considerados fundamentais para a formação de um indivíduo, porque é nesta fase que as primeiras descobertas acontecem na vida de uma criança.

 

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Para a pedagoga e escritora Kiusam de Oliveira, a educação é fundamental no trato de questões raciais e direitos humanos. “A escola é um espaço de reprodução dessas práticas racistas porque quem está dentro dela, em diversas funções e cargos, são as mesmas pessoas que estão fora e que carregam e aprendem a partir desta lógica.”

Autora do best-seller infantil “O Mundo no Black Power de Tayó”, Oliveira explica que não é apenas papel da escola desenvolver uma educação antirracista. “Cada família deve entender que a formação de uma criança é essencial para a reestruturação do nosso país.

Contudo, eu, como teórica da educação, entendo que nós adultos temos uma forma peculiar de agir, muitas vezes impensadas, somente reproduzindo aquilo que já está dado e imposto na sociedade, como as práticas racistas.”

Mãe de Thomas, 3, a publicitária Luciana Amaral, 25, afirma que tenta passar para o filho o que não teve quando criança. Ela conta que frequentou escola particular desde muito nova e que se sentia diferente dos demais, mas não sabia o motivo. “Não tinha contato com pessoas negras, então eu não me via como uma menina negra, e sim como diferente e estranha. Minha mãe [também negra] me chamava de pretinha e eu só conseguia chorar. Tudo relacionado a isso me causava aversão.”

Alvo de racismo, a publicitária diz que carrega até hoje as marcas dos comentários pejorativos e das piadas maldosas. “Aos nove anos eu comecei a alisar os fios do cabelo. Passei a infância e adolescência com cabelo alisado, tinha vergonha”, revela Amaral, que trocou a instituição privada por uma pública, em que também foi vítima de preconceito.

“As pessoas me abraçaram de primeira, mas aí contei que vim de escola particular e fui deixada de lado por ser uma ‘preta patrícia’, como me chamavam. Não tinha noção do que era racismo. Pensava que sofria bullying”, recorda a publicitária, que mora na zona oeste de São Paulo com a mãe, o filho, e o irmão mais velho.

Amaral afirma que se esforça para que o filho se sinta representado. Ela conta que, de forma lúdica, tenta introduzir informações que possam contribuir para a autoestima do garoto. “Ele adora um desenho [Motown Magic, da Netflix] de uma família totalmente preta. O personagem principal é um menininho com black power. Também procuro comprar bonecos negros.”

Ela diz ainda já ter vivido duas situações de racismo com o filho. “Tomei atitude na hora, conversei com as crianças e com os pais delas. Porque, no final, a culpa não é da criança e sim da criação que ela tem, ela foi criada nesse ambiente.”

Representatividade e racismo também são temas presentes na casa do analista de tecnologia Bruno Viana, 31. Pai da Sabrina, 12, do Rhuan, 8, e do Renan, 2, ele afirma ter tido uma infância difícil por ser negro e, agora, evita que os filhos passem pela mesma situação.

“Minha preocupação é mostrar para eles o quanto é lindo ser negro, a importância de não fazer parte do estereótipo ditado pelo sistema, e mostrar a realidade dos fatos”, diz o analista, que mora na Vila Brasilândia (zona norte).

Viana diz que racismo deve ser falado com as crianças desde pequenas e que isso deve acontecer de forma gradual. Em sua família, ele diz que comentou mostrando animações, filmes e músicas sobre o tema. “Nós sempre assistimos filmes e séries e, consequentemente, as crianças também opinam sobre o que veem na televisão ou na escola. É preciso sempre reforçar que eles, como negros, são maravilhosos e que não devem nada ao resto do mundo.”

Na avaliação de Maurício Pestana, coordenador do Fórum Brasil Diverso 2020, Maurício Pestana, a discussão sobre racismo cresceu, mas continua precária. “Graças ao ativismo, hoje temos mais consciência, é uma minoria que não vê que o racismo é sistêmico e esta enraizado na sociedade. Mesmo assim, não vivemos em um país democrático”, diz Pestana ao mencionar a participação de negros no Congresso.

Um levantamento feito pela Transparência Partidária e outro pelo OLB (Observatório do Legislativo Brasileiro), ambos a pedido da Folha em 2019, mostram que congressistas da população negra são sub-representados entre líderes partidários, relatorias e postos de comando.

Dos 513 deputados, apenas 122 se declaram pretos (20) ou pardos (102) –ou seja, na soma, 24% da bancada atual. No Senado, são 16 senadores (3 pretos e 13 pardos), totalizando 20% da Casa. “Se não existe representatividade, não existe democracia”, pondera o coordenador.

O papel das pessoas brancas na luta antirracista não deve ser descartado, pelo contrário. Na condição de mulher branca, a enfermeira Sylvia Vaie de Lacerda, 44, diz que se empenha para compreender a realidade que a cerca. Mãe do Arthur, 16, Eduardo, 13, Keila, 5, e Cecília, 2, ela afirma que se sentiu incomodada com a ausência de alunos e professores pretos no colégio onde o filho mais velho estuda, na zona oeste de São Paulo.

Lacerda reuniu um grupo de pais e, em parceria com a direção da escola, eles desenvolveram o Projeto Travessias, que oferece bolsa integral para crianças pretas e indígenas. “Percebi que falar só dentro de casa não dava alcance. É um exercício de percepção, como vemos que a discriminação está presente em todos os lugares que frequentamos.”

O psicólogo Marcos Amaral afirma ser preciso construir espaços que estimulem o debate para que as crianças, principalmente as negras, se sintam confortáveis para falarem sobre isso. “As possibilidades de enfrentamento para situações de racismo é importante. [É importante] Convocar os responsáveis e mostrar de que modo a fala é preconceituosa. É essencial que a escola produza um ambiente em que a criança se sinta confortável.”

Amaral diz ainda que, na busca de uma sociedade mais justa e igualitária para brancos e negros, é fundamental que a população branca reconheça os privilégios que possui e que foram herdados do nosso passado escravocrata. Para ele, os brancos, em sua maioria, não possuem discernimento de raça, ou seja, não fazem esse recorte racial.

“É importante que se saiba branco, tal como negro se reconheça negro”, diz. “O racismo produz sofrimento psíquico. Mais do que falar de representatividade, precisamos falar de representação, porque as pessoas negras precisam de um projeto coletivo de vida. Para produzir projetos de enfrentamento do racismo estrutural, só representatividade não dá conta. Não basta sonhar, é preciso concretizar.”

Um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde aponta que adolescentes e jovens negros têm maior chance de cometer suicídio. O risco na faixa etária de 10 a 29 anos foi 45% maior entre negros do que em brancos em 2016 -a cada 100 suicídios em adolescentes e jovens brancos, ocorreram 145 em negros. O índice chega a 50% ao analisar o extrato de negros do sexo masculino, quando comparados aos brancos.

Os dados fazem parte da cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, lançada pelo ministério durante o Seminário Nacional de Saúde da População Negra na Atenção Primária, em 2019. Os números foram calculados a partir do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) da pasta.

Na avaliação de Maurício Pestana, palestrante sobre diversidades, a comunicação possui um papel fundamental nesse processo. “Precisamos ter mais negros e negras em áreas de decisão. Hoje, temos uma política de inclusão, porém ainda não é algo que acontece de fato. Se você não se vê, você não se ama, você não se gosta, você vai fatalmente ter um problema com a autoestima.”