Por Paula Sperb

Enquanto muitas empresas familiares enfrentam as consequências econômicas da pandemia, uma família de Porto Alegre precisa lidar com uma dificuldade a mais: o racismo.

Desde que os sócios da cervejaria Implicantes, um negócio fundado e gerenciado por negros, lançaram um financiamento coletivo, ataques racistas são dirigidos à marca.

Implicantes/Divulgação

A cervejaria tem rótulos que homenageiam, sem estereótipos ofensivos, personalidades negras como o abolicionista Luís Gama (1830-1882), a escritora Maria Firmina dos Reis (1822-1917), o jogador de futebol Leônidas da Silva (1913-2004) e a atriz Ruth de Souza (1921-2019).

Comentários como “cerveja é culturalmente nórdica”, “vende Pilsen, Lager? Ou só cerveja preta mesmo?” e “se vier furada como a Marielle [Franco, vereadora assassinada em 2018], não aceito” dão o tom das agressões sofridas.

Sem a renda da venda da cerveja em eventos, agora suspensos para evitar a proliferação do coronavírus, a Implicantes corria risco de fechar as portas.

“Somos pequenos empreendedores e, como outros, somos muito afetados pela Covid-19. Mesmo com a entrega na casa dos clientes, não daríamos conta. Não estamos conseguindo empréstimos em banco”, explica o sócio Tiago Rosário, 34.

Porto Alegre é a cidade com mais cervejarias do país, à frente de São Paulo, segundo o Anuário da Cerveja do Ministério da Agricultura de 2019. São 39 cervejarias na capital gaúcha diante de 27 na capital paulista.

Para reinventar o modelo de negócio, passando a comercializar pela internet para todo o país, a cervejaria precisa de equipamentos para envasar —hoje uma etapa terceirizada— e mais tonéis para fermentação, por exemplo. Daí o financiamento coletivo com recompensas que incluem camisetas e copos, além das cervejas, claro.

Os ataques, porém, tiveram efeito oposto. Uma onda de apoio em torno da cervejaria —que já era engajada na causa antirracista— impulsionou o financiamento, que segue aberto.

Foram alcançados quase R$ 141 mil dos R$ 150 mil necessários, o equivalente a 93% da meta.

Mas o preconceito já era sentido antes. “Um profissional negro sempre tem que provar que realmente sabe o que está fazendo. Não é nada diferente com a Implicantes. Questionam coisas que não questionam outros: se a temperatura está certa, insinuação que não está dentro do estilo e até sugestão para nos passarem uma receita nova”, conta o sócio Diego Dias, 34. Ele fundou a cervejaria em 2018, no dia da Consciência Negra, ao lado do irmão Daniel, 32.

“Quando ia aos bares e pubs apresentar o produto, questionavam se eu era mesmo o dono. Me interrogavam sobre cerveja e era sempre uma surpresa quando viam que eu sabia responder. Somos mais questionados do que qualquer outra cervejaria”, diz Rosário, primo dos irmãos Dias.

Negros foram os mais atingidos pelo desemprego no Rio Grande do Sul no primeiro trimestre de 2020 (13,5%) em comparação ao quarto trimestre de 2019 (10,4%). Para brancos, o desemprego foi menor nos primeiros três meses do ano (7,2%) e no último trimestre do ano passado (6,3%).

Os dados são do último Boletim do Trabalho do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (DEE/Seplag). A análise destes períodos revelam com mais precisão os efeitos iniciais da pandemia, segundo Raul Bastos, pesquisador do DEE.

Para modificar este cenário, o conceito de “Black Money” pretende fazer o dinheiro de famílias negras girar em negócios de outras famílias negras. O “Black Money” é uma das apostas da cervejaria Implicantes, mas, obviamente, não há distinção de clientes.

“A diferença do Black Money para o Pink Money [voltado ao público LGBTQ+] é que o Pink Money é mais voltado para consumo. O Black Money não é apenas afro consumo, mas uma forma da comunidade construir um futuro a partir dos seus próprios termos para alcançarmos autonomia”, explica Alan Soares, 39, um dos fundadores do Movimento Black Money (MBM).

No início da pandemia, o MBM lançou uma marketplace, que já soma 300 lojistas e profissionais negros. Em junho, o faturamento total por meio da plataforma foi de R$ 150 mil. “A pessoa que se considera antirracista não tem mais desculpa. Tem tudo lá. Pode contratar designer, esteticista, pode comprar livros, brincos”, afirma Soares.

“Como consumidores, precisamos ficar atentos e manter o dinheiro mais tempo na comunidade. Isso cria demanda. Se comprar sapatos de pessoas pretas, logo vai começar a ter mais pessoas pretas fazendo sapatos”, diz.

Segundo ele, ao contrário de apenas “transferir riqueza do burguês branco para um novo burguês preto”, esse tipo de iniciativa diminui o desemprego e aumenta a renda da população negra.

“Nós não somos minorias, somos cidadãos minorizados. Lutamos por nossos direitos como pessoas autônomas e livres”, diz Soares.