Os quatro meses seguidos de criação de vagas com carteira assinada no Brasil não foram suficientes para empolgar especialistas, que ainda veem uma recuperação lenta do mercado de trabalho e calculam que, mantido esse ritmo, seriam necessários seis anos para repor os 3 milhões de postos perdidos na crise.

Foto: Reprodução EBC

Em julho, o Brasil gerou 43.820 postos de trabalho formais, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados nesta sexta-feira (23) pelo Ministério da Economia. O dado veio abaixo do projetado pela consultoria LCA, que estimava a criação de 45.700 postos.

Também foi pior que o número registrado no mesmo mês de 2018, quando foram criadas 47.319 vagas, além de ter ficado bem aquém da média para o mês registrada de 2004 a 2012, que é de 156.370 vagas. A partir de 2013, a média fica negativa em 10.333 postos de trabalho.

No acumulado do ano, foram geradas 461.411 vagas, acima das 448.263 registradas no mesmo período de 2018,. Mas o saldo em 12 meses, de 521.542, continua bem próximo do dado fechado do ano passado, quando foram criados cerca de 530 mil postos.

“É difícil imaginar que nos cinco meses que faltam para acabar o ano você vá ter alguma coisa muito melhor que os cinco últimos meses do ano passado. E o ambiente no último trimestre do ano passado era mais animado”, disse José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. “Eu acho que não bate 500 mil empregos criados.”

Nessa velocidade, o país levaria 20 anos para ocupar formalmente 10 milhões de desempregados. “Tem que acelerar essa geração. Só que não vai acelerar crescendo emprego em serviços para sempre.”

No ano, o setor é, disparado, o que mais gerou empregos, com saldo positivo de 286.849. Em segundo lugar vem a agropecuária, com 82.165 postos. Construção civil é o terceiro, com 77.481. Em julho, foi o segmento que mais criou vagas formais, com 18.721.

“Com a queda de juros e com esse anúncio da Caixa de fazer prestações pós-fixadas [corrigidas pela inflação], talvez você tenha um ânimo no lado da construção”, diz Gonçalves. “Se você não tiver crescimento na indústria e em serviço mais sofisticado, a renda não vai crescer de modo a comportar o endividamento para comprar um apartamento.”

Para o economista Bruno Ottoni, pesquisador associado da FGV Ibre, o dado de construção civil é como uma boa notícia, mas ainda é cedo para concluir que o setor passa por uma recuperação. “Seria precipitado dizer isso, porque os números do Caged apresentam muita volatilidade.”

Os dados totais de julho também não são vistos com muito otimismo pelo especialista. “É uma recuperação muito lenta. O que eu chamo de recuperação aqui, no caso, é que a gente está gerando postos de trabalho”, disse.

“É alguma geração positiva, porém a gente tem que lembrar que, na crise, foram destruídos 3 milhões de postos de trabalho. Nesse ritmo, para a gente gerar esse número, seriam seis anos. É um ritmo ainda muito lento.”

O saldo de geração de vagas foi positivo em todas as regiões do país –o Sul registrou o menor número de vagas criadas, com 356.