Questionado nesta quinta-feira (14) sobre a diferença entre o número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil e na Argentina, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugeriu que a comparação entre os dois países deve ser feita de maneira proporcional às suas populações, e não por números absolutos.

Foto: Agência Brasil

Até a manhã desta quinta, o Brasil registra 13.240 óbitos por Covid-19 enquanto o país vizinho confirmou 329 mortes, de acordo com dados compilados pela universidade americana Johns Hopkins.

“É só você fazer a conta por milhão de habitantes”, respondeu o presidente. A comparação sugerida por ele, entretanto, expressa de maneira ainda mais evidente a gravidade dos efeitos da pandemia sobre o país.

A taxa de mortes por milhão de habitantes na Argentina é de 7,4. No Brasil, o número é quase nove vezes maior: são 63,2 mortes a cada um milhão de habitantes. O cálculo a partir desse índice permite comparar locais com diferentes tamanhos de população.

Enquanto o presidente argentino, Alberto Fernández, decretou quarentena total no país em março, quando havia 128 casos confirmados, e prorrogou nesta semana as medidas de isolamento até, pelo menos, 24 de maio, por aqui, Bolsonaro voltou a criticar as medidas restritivas adotadas pelos governadores dos estados.

“Tem que reabrir, nós vamos morrer de fome. A fome mata, a fome mata! Então, [é] o apelo que eu faço aos governadores: revejam essa política, eu estou pronto para conversar”, disse o presidente nesta quinta.

“Vamos preservar vidas, vamos. Mas dessa forma o preço lá na frente serão centenas a mais de vidas que vamos perder, por causa dessas medidas absurdas de fechar tudo.”

Ao responder ao questionamento de um jornalista sobre as cifras de mortes no Brasil e na Argentina, Bolsonaro disse que o profissional estava “defendendo [o governo do país vizinho]”, por que “entrou para a ideologia”.

“Você pegou um país que está caminhando para o socialismo.”

Fernández disse, em março, que “as declarações e ações de Bolsonaro levam a pensar que o Brasil pode entrar numa mesma espiral que a Itália” e acrescentou que se preocupa muito com o fato de que países “não entendam a gravidade do problema”, em referência ao governante brasileiro.

Ainda nesta quinta, Bolsonaro mencionou rapidamente a estratégia da Suécia no combate ao novo coronavírus.
“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”

Sem um contexto mais detalhado, a referência do presidente ao país escandinavo que contraria a tendência global de isolamento dá a entender que o governo sueco está sendo bem-sucedido no enfrentamento à pandemia.

Um diretor executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde) chegou a afirmar que a Suécia é um modelo a ser seguido por outros países.

Os números, entretanto, principalmente na comparação com Brasil e Argentina, não corroboram a insinuação de Bolsonaro.

Com menos de um quarto da população da Argentina, a Suécia tem um número de mortes por Covid-19 quase 11 vezes maior.

A taxa de mortes por milhão de habitantes é de 346,5, cinco vezes maior que a brasileira e quase 47 vezes maior que a argentina.

A Suécia adotou um método menos restritivo contra o novo coronavírus e manteve bares, restaurantes e lojas abertas, além de não proibir as pessoas de irem às ruas. O primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven, disse que conta com o voluntarismo da população.

Os países escandinavos que adotaram medidas mais restritivas que as suecas tiveram menos mortes. Até esta quinta, são 43,6 mortes por milhão de habitantes na Noruega, 52 na Finlândia e 92,6 na Dinamarca.