No salão de eventos de um prédio de Cuiabá (MT), os balões dourados formam o primeiro nome de Enã Rezende, de 26 anos. No lugar, há itens como chinelos e camisas em homenagem ao rapaz, que colou grau na terça-feira (15). A família não poupou esforços para comemorar a formatura do jovem no curso de medicina.

É um dos períodos mais felizes para a mãe dele, a psicóloga Érica Rezende, 46.

“Tem passado um filme diante de mim sobre tudo o que vivemos”, conta à BBC News Brasil.

Para ela, que há quase 20 anos ouviu de uma professora de Enã que o garoto não conseguiria ser alfabetizado, ver o filho concluir o ensino superior é uma emoção que não consegue descrever.

‘Sempre soube que teria de lutar mais que os outros para conquistar meus objetivos’, diz Enã Rezende – Estúdio Marães

Na manhã de quinta (17), quando visitamos Enã e os familiares, eles se preparavam para um jantar que aconteceria no período da noite, em homenagem aos formandos em medicina. Foi o terceiro evento em comemoração à conclusão de curso da turma. Na noite anterior, houve uma cerimônia religiosa.

“Na colação de grau dele, fiquei em choque, sem expressar muita emoção, porque estava me lembrando de tudo o que vivemos desde que ele era pequeno. Mas ontem, no culto ecumênico, não aguentei e chorei bastante”, revela Érica.

Enã é autista. Desde a mais tenra idade, enfrentou preconceito e sofreu bullying por conta de suas características. Em razão das ofensas que ouvia de colegas, ele afirma que costumava se sentir inferior. O jovem conta que a conclusão do curso de medicina é também uma forma de provar para si que é capaz.

“Eu dizia para mim: tenho que vencer na vida e mostrar que está todo mundo errado. Sempre soube que teria de lutar mais que os outros para conquistar meus objetivos”, diz o rapaz, de fala mansa e poucos gestos.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, é uma desordem complexa do desenvolvimento cerebral. Ele se caracteriza por dificuldades na socialização e comunicação, além de padrões de comportamentos considerados repetitivos, como ações semelhantes em curto espaço de tempo.

Segundo estudo feito por cientistas americanos, a estimativa é de que, aproximadamente, uma a cada 59 crianças têm alguma característica do TEA.

A infância

Quando Enã tinha pouco mais de um ano de vida, os pais começaram a perceber que o garoto possuía características diferentes das demais crianças de sua idade.

“Uma das primeiras coisas que percebemos foi a dificuldade na fala. Ele não articulava bem as palavras. Além disso, ele também tinha dificuldades de compreensão e não conseguia olhar nos olhos. Em contrapartida, tudo o que eu ensinava, ele aprendia na primeira vez”, relembra Érica.

Aos dois anos, Enã foi diagnosticado com psicose infantil, relacionada a dificuldades no desenvolvimento da criança e hoje mais associada à esquizofrenia. Érica cursava psicologia e considerava que o diagnóstico não se enquadrava no caso do filho.

“Desde o início, sempre soube que era uma informação errônea. A psicose poderia ser muito próxima do autismo, mas não era o caso do meu filho. Sempre imaginei que ele tivesse autismo. O diagnóstico é difícil até hoje. Duas décadas atrás era mais complicado ainda”, diz.

O garoto passou a receber acompanhamento psicológico e fonoaudiológico para ter melhor desenvolvimento.

Anos mais tarde, no início da vida escolar, Enã passou a sofrer bullying em razão de suas características.

“Mesmo com acompanhamento fonoaudiológico, eu tinha muita dificuldade de fala. As pessoas não me entendiam direito. Além disso, eu também era desengonçado”, diz o jovem.

“As pessoas riam dele. Mas acho que ele não notava isso”, completa Érica.

“Eu notava, sim, mas não comentava”, diz o médico, em seguida.

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