A adoção mais ampla do trabalho em casa pode levar a um espraiamento das cidades e ao aumento das moradias longe do centro, pois morar perto da empresa deixa de fazer diferença. Com isso, viver em bairros mais afastados se torna uma ideia mais viável, analisou Danilo Igliori, professor de economia da USP, durante um debate virtual promovido pelo Insper.

Igliori usou um exemplo prático: sua equipe do Grupo Zap, onde ele é economista-chefe, está trabalhando a partir de vários bairros e cidades da Grande São Paulo, a muitos quilômetros de distância. Algumas pessoas que tinham a opção de ir para uma segunda casa fora da capital também se instalaram nelas nesse período.

Assim, se a tendência esperada de menor uso dos escritórios se concretizar, isso poderá mudar a cara das cidades no futuro e fazer com que os bairros mais afastados tenham um maior uso ao longo do dia, em vez de servir apenas como dormitórios durante a semana.

O debate abordou também o conceito de “cidade virtual”: a rede de pessoas que dividem atividades e serviços, e que podem compartilhar ou não a mesma cidade real.

 

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Para Igliori, a pandemia reforça essa cidade virtual, marcada pelo trabalho à distância, reuniões em vídeo, compras online e pedidos de comida, mas também replica a desigualdade social.

“Muitas pessoas que já eram excluídas da cidade real também estão de fora dessa cidade virtual”, aponta. Ele citou o exemplo de entregadores, que passam o dia nas ruas entregando comida para que as pessoas não precisem sair de casa, sendo que esses profissionais geralmente não podem desfrutar da vantagem que proporcionam aos outros.

A disparidade no acesso à internet entre as classes sociais é outra questão, que dificulta o acesso ao estudo virtual, por exemplo.

Esse webinar fez parte de uma série de conversas que o Insper realizou nas últimas semanas, para debater os impactos da pandemia na organização das cidades. Os vídeos podem ser conferidos no canal da instituição no YouTube.