Preocupada com a pouca quantidade de alimentos em casa, Leni Liberal Santos, 54, recorreu às redes sociais em busca de uma cesta básica.
“Estou desempregada, se tiver alguém que tenha uma cesta básica pra me doar, eu aceito. Obrigada”, dizia a publicação com corações rosados ao fundo feita em um grupo que atua com doações na cidade de São Paulo na última quinta (10). Foi a primeira vez que ela precisou pedir alimentos na internet. A situação, que já vinha se complicando desde o começo da pandemia, piorou.

 

(Foto: EBC)

 

“Nos últimos dias não estou fazendo compra, só o necessário. Hoje só tenho arroz e um pouco de óleo, feijão não tem”, diz. “Na minha região teve o aumento de tudo, deixei de comprar muitas coisas. Deixei de comprar carne”.

O desemprego e a perda de renda, agravados pela crise provocada pelo novo coronavírus, aliados à alta de preços dos alimentos básicos tem feito com que muitos moradores das periferias não consigam garantir os itens básicos do dia a dia.

Pensionista, Leni ganha um salário mínimo (R$ 1.045) por mês e, por isso, diz não ter recebido o auxílio emergencial. O filho dela, que trabalhava como auxiliar de produção, perdeu o emprego e, apesar das tentativas, não está conseguindo se recolocar.

Ela mostra a geladeira e o armário, quase vazios. “Tá vendo como está difícil? No CRAS [Centro de Referência de Assistência Social] recebi uma cesta, mas já acabou. Pago as contas e aí o dinheiro acaba. Conto com a ajuda da minha família também”, afirma.

A alta no valor dos alimentos vem de algo distante da realidade de Leni, mas impactou diretamente a sua casa.
Segundo o economista Juan Pereira, 26, a alta vivida no Brasil está ligada ao cenário da economia mundial e ao aumento das vendas dos produtos brasileiros para o exterior.

“Ficou mais vantajoso exportar o produto e aproveitar o câmbio favorável. Alguns produtores privilegiaram a exportação do arroz do que disponibilizá-lo para o mercado interno”, diz. “Quem paga mais leva o arroz”.

A situação tem afetado, sobretudo, moradores de baixa renda que tem a maior parte dos gastos justamente com alimentação.
De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), nos oito primeiros meses do ano, a inflação registrada na cesta de consumo das famílias mais pobres foi duas vezes maior do que a de famílias mais ricas. Neste ano, o arroz, por exemplo, teve uma alta de 19,2%, o feijão, de 35,9%, e o leite, 23%.

Como alternativa, algumas pessoas tiveram de trocar o que consumiam para conseguir ter comida na mesa.

É o caso de Camila (nome alterado para preservar a identidade da fonte), 16, que vive com o marido no Jardim Ideal, no Grajaú, bairro da periferia na zona sul de São Paulo.

Alimentos antes comuns na rotina da casa agora estão sendo substituídos. A carne, por exemplo, deu lugar ao ovo. “Está difícil, meus pais também estão desempregados, ajudo no que posso porque minha mãe é doente”, afirma a estudante.

Antes da pandemia Camila trabalhava como babá, mas perdeu o emprego assim como o companheiro, que era atendente de telemarketing.
Segundo ela, antes da Covid-19, era possível fazer uma boa compra no mercado com R$ 200, mas agora está mais complicado.

“Subiu demais os preços de alimentos, o arroz, feijão, óleo, carnes. Tentamos o máximo economizar, mas é difícil porque as coisas estão bem caras”.
Situação semelhante vive a dona de casa Isabel Cristina Rosa, 62, em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Sem renda e dependente do auxílio emergencial, ela conta que ‘só está dando para comprar o básico’.

“Com esses valores, agora só compro o que é necessário, como arroz, feijão e alguma mistura que está na promoção”, afirma. Há alguns meses, Isabel conseguia comprar outros alimentos, como frutas, além de fazer feira.

Sobre as últimas idas ao mercado, Isabel diz que tem sido cada vez mais comum a troca de alimentos por marcas mais baratas ou deixar de comprar alguns itens “luxuosos”, como biscoitos. “Troquei porque os preços estão fora do normal. Resumindo, o meu dinheiro está sendo só para mercado mesmo”.