O DNA da população brasileira é composto majoritariamente por origem europeia, africana e nativo-americana (indígena). Enquanto a genética europeia se sobressai entre as linhagens paternas, a ancestralidade das linhagens maternas é predominantemente indígena e africana, segundo estudo realizado pela Genera, laboratório especializado em genômica pessoal.

De acordo com os dados, a linhagem paterna apresenta uma concentração de mais de 80% de códigos genéticos comuns na Europa, cerca de 15% da África, 3% das Américas e da Ásia, além de 0,4% de outros povos. Essa distribuição é semelhante entre as cinco regiões do país.

Já as linhagens maternas apresentam características específicas em cada região. Segundo especialistas, as diferenças na distribuição de ancestralidades podem se justificar pelo contexto histórico de formação da população brasileira.

Ricardo di Lazzaro Filho, doutor em genética e biologia evolutiva e fundador da Genera, explica que as linhagens revelam a herança genética recebida exclusivamente das vias paterna e materna.

A primeira é obtida pelo cromossomo Y, recebido e transmitido apenas por pessoas do sexo biológico masculino. Já a segunda é transmitida via DNA mitocondrial, presente nas células humanas e transmitida apenas pela mãe a todos os seus filhos biológicos.

Os códigos que definem as linhagens são denominados haplogrupos. Por eles é possível traçar o caminho evolutivo até os ancestrais humanos mais antigos e comuns a toda população.

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Reprodução da pintura ‘A Redenção de Cam’, do espanhol Modesto Brocos – Foto: Divulgação/MNBA

De acordo com Renan Barbosa Lemes, doutor em genética humana e de populações pela USP, o DNA mitocondrial (linhagem materna) é mais diverso no Brasil porque, durante a colonização europeia, vinham principalmente homens.

“Nessa cultura do estupro normalizada durante a colonização, homens europeus tinham filhos com mulheres negras vindas da África ou com as indígenas, que também eram escravizadas”, afirma. Daí a variação entre as diversas regiões do país, marcadas por diferentes características geográficas, históricas e populacionais.

Com maior presença de povos originários, na região Norte a parcela de linhagens maternas provenientes das Américas e Ásia é superior, correspondendo a 51%. Depois vêm as da África, com 26%, e da Europa, com 18%.

O Nordeste é a região que concentra o maior número de descendentes de linhagem materna africana, que correspondem a 40%. Em seguida, América e Ásia, com 35%, e Europa, com 21%.

A região Centro-Oeste mantém esse equilíbrio entre linhagens maternas, com influência regional maior. A linhagem materna é composta em 37% de haplogrupos provenientes das Américas e Ásia, 31% da África e 27% da Europa.

Já a região Sudeste se equilibra entre haplogrupos maternos provenientes de três regiões, sendo 35% da Europa, 31% de América e Ásia e 27% da África. Apenas 4% correspondem a outras linhagens mapeadas.

As linhagens maternas provenientes da Europa são mais frequentes apenas nas regiões Sul e Sudeste, com uma diferença menor em relação às demais ancestralidades. Na Região Sul, as haplogrupos mais comuns na Europa representam 55% da ancestralidade materna, seguidos por América e Ásia, com 26%, África, com 11%, e outros, com quase 7%.

Para a bioantropóloga Mariana Inglez, doutoranda no Instituto de Biociências da USP, é importante pensar, do ponto de vista histórico, como as ondas migratórias aconteceram no Brasil e por que os povos originários indígenas aparecem em menor número nas proporções de DNA de material genético.

“Esses povos estavam aqui há pelo menos uns 15 mil anos e, no momento da chegada dos europeus, as populações ameríndias não foram aumentando, mas declinando. Esses europeus, em contrapartida, continuavam chegando por séculos e séculos e séculos, até recentemente, nessas ondas migratórias mais recentes, inclusive com o apoio do governo”, afirma.

Em diversas regiões do país, esses povos foram dizimados, enquanto em outros foram incorporados à mão de obra escrava. Segundo a pesquisadora, aqueles que conseguiram usar as florestas como proteção foram os que conseguiram sobreviver.

“Além disso, mais próximo do final da escravização, o tráfico diminui, e vai diminuindo também a quantidade de pessoas africanas que estão entrando no país. Paralelamente, vai se formando uma população afrodiaspórica também miscigenada”, diz.

De acordo com ela, o genocídio de populações negras e indígenas fez parte de uma política eugenista de Estado, mas também aconteceu de forma naturalizada, por meio das violências a que esses povos eram submetidos.

“No primeiro momento de escravização no Nordeste, homens jovens chegavam e duravam dois anos nas plantações. De tão mortal que era o trabalho e tão absurdo o nível de violência e exaustão no corpo, em dois anos eles morriam”, conta. Nesse sentido, mães africanas viam seus filhos morrerem enquanto muitos homens negros nem sequer tinham tempo de gerar filhos.

O estudo analisou mais de 260 mil DNAs coletados para o teste de ancestralidade realizado pelo laboratório. Segundo a Genera, a análise respeitou as políticas de privacidade da Lei Geral de Proteção de Dados, e os números apresentados protegem dados sensíveis dos clientes.

Embora possa trazer vieses de amostra em que os componentes africanos e indígenas aparecem um pouco menores do que na realidade, devido ao perfil de quem paga pelo teste -que custa a partir de R$ 299-, especialistas ouvidos pela reportagem dizem que os resultados são compatíveis com outros estudos de ancestralidade genética realizados no Brasil.

“O viés existe, mas a amostra traz um banco de dados grande. Precisamos fazer a captura dessa informação para mostrar que a gente precisa ir além e fazer mais estudos, porque isso reforça o conhecimento histórico e científico sobre tudo que aconteceu no país”, afirma Michel Naslavsky, doutor em genética pela USP e professor do Instituto de Biociências.

De acordo com o especialista, brasileiros com ascendência europeia geralmente sabem de onde suas famílias vieram. “Isso é um privilégio das pessoas brancas no Brasil”, diz. Para o pesquisador, essas informações podem ser aplicadas na saúde pública, auxiliando na identificação de populações mais propensas a cada tipo de doença, por exemplo.

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Africanos e indígenas predominam nas linhagens maternas de DNA no Brasil

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