Ao menos 26,2% dos adultos na cidade de São Paulo já teve Covid-19 e carrega no sangue anticorpos contra o novo coronavírus, mostra a quarta fase do estudo conduzido pelo Grupo Fleury na cidade para mapear a parcela da população que já teve a doença. É um aumento de 8,3 pontos percentuais em relação à etapa anterior (17,9%).

Foto: EBC

Esse índice chega a 30,4% nos distritos mais pobres (renda média igual ou menor a R$3.349) da capital, em comparação à 21,6% naqueles de renda mais alta.

A discrepância é ainda maior quando o recorte é o da escolaridade: 35,8% da população de menor nível escolar (até ensino fundamental completo) já contraiu o Sars-CoV-2 -mais de um terço, ante 16% dos indivíduos com ensino superior completo.

Os dados corroboram percepções anteriores de que a maior escolaridade-e, por consequência, renda mais alta e, muitas vezes, maior empregabilidade- pesa para manter o indivíduo em casa, protegido, sem se expor ao vírus. O uso de transporte público é um dos fatores nessa equação.

Enquanto o número total de infectados da cidade e confirmados por meio do exame RT-PCR -considerado o padrão-ouro para detecção da infecção- é de 352.953 (dados divulgados até o dia 21 de outubro), os inquéritos sorológicos são importantes ferramentas para estimar a quantidade de pessoas que já teve contato com o vírus, apresentando sintomas leves (ou, muitas vezes, nenhum sintoma) e possui anticorpos no sangue detectáveis através dos exames sorológicos.

A partir da prevalência encontrada, de 26,2%, estima-se que 2,2 milhões de indivíduos com idade acima de 18 anos da capital possuam anticorpos para o vírus (ou, considerando a população adulta de 8,4 milhões, 1 em cada 4 indivíduos). Esse número é cerca de seis vezes o total de casos confirmados e representa um aumento de 700 mil novos indivíduos estimados com anticorpos contra o vírus desde a realização da terceira etapa.

Essa prevalência na capital é quase o dobro da encontrada no último inquérito sorológico realizado pela prefeitura, que encontrou uma incidência de 13,9%, ou uma estimativa de 1,64 milhão de pessoas com anticorpos contra o Sars-CoV-2 no sangue.

Como observado nas etapas anteriores, a incidência do vírus é maior na população preta e parda (31,6%) em relação aos brancos (20,9%), com valor de p menor de 0,0008, apontando para como a desigualdade social com que o vírus atinge as diferentes populações.

Nesta nova fase, a pesquisa dividiu a cidade em 152 distritos censitários, aumentando ainda mais o espaçamento entre as amostras. Em cada um deles, foram sorteadas residências aleatoriamente e colhidas 1.129 amostras de sangue de indivíduos maiores de 18 anos, entre os dias 1? e 10 de outubro.

A primeira etapa do projeto, concluída em maio, avaliou moradores dos três bairros com maior incidência de casos à época e outros três com maior número de óbitos por 100 mil habitantes (Morumbi, Jardim Paulistano e Bela Vista, e Água Rasa, Belém e Pari, respectivamente) e apontou que cerca de 5% da população desses bairros já teve contato com o vírus.

Já a segunda etapa, concluída no final de junho, analisou 1.183 amostras de sangue dos mesmos 115 distritos censitários da fase 3, e mostrou uma prevalência em toda a população de 11,4%.

Na terceira fase, realizada entre os dias 20 e 29 de julho, a soroprevalência observada foi de 17,9%, e foi a partir desta etapa que foram incluídos dois testes sorológicos distintos, e não apenas um, para avaliar a taxa da população que apresenta anticorpos contra o vírus.

Enquanto o município vem em uma sequência sucessiva de queda no número de novos casos e óbitos nas últimas dez semanas, a curva da prevalência cresceu em menor escala em comparação à curva de casos ao longo dos últimos oito meses, desde a primeira notificação.

Isso pode ser explicado, em parte, por uma maior incidência de pessoas com sintomas leves ou inexistentes -que não se deslocam aos postos de saúde e hospitais para realizar o teste- mas também em um maior preparo do sistema municipal para identificação e notificação dos novos casos.

“É claro que pode haver a possibilidade da chamada sororreversão, que é quando os anticorpos no sangue do indivíduo deixam de existir alguns meses depois e não são detectados no exame, fazendo com que a soroprevalência seja menor do que o número real de casos, mas não acreditamos ser esse o caso”, explica Fernando Reinach, biólogo professor titular da Universidade de São Paulo e autor do estudo.

“Acreditamos que a prevalência vem acompanhando uma curva parecida no número de casos, e isso significa também que a Covid-19 atinge de maneiras diferentes o município, indicado principalmente pela diferença entre os distritos mais ricos, com menor taxa de contágio, e os mais pobres, onde a prevalência é maior, por todas as diferenças sociais que já conhecemos.”

O inquérito sorológico é uma iniciativa do Grupo Fleury em parceria com a ONG Instituto Semeia e o Ibope Inteligência, e tem apoio financeiro do Todos pela Saúde. Conta ainda com colaboração da Escola Paulista de Medicina, Faculdade de Saúde Pública da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo não encontrou diferenças significativas de prevalência nas diferentes faixas etárias e entre os homens e mulheres. Uma avaliação das diferenças encontradas de incidência nas residências com 1 a 3 moradores em comparação àquelas com 4 ou mais está em andamento por pesquisadores do Ibope Inteligência.