O ano de 2020 ficará para sempre marcado pelo coronavírus Sars-CoV-2, que paralisou o mundo inteiro, infectou mais de 82 milhões de pessoas e causou a morte de ao menos 1,8 milhão. Por isso, a pandemia aproximou a ciência do dia a dia.

Inúmeras vozes de médicos, epidemiologistas, imunologistas, virologistas, matemáticos, físicos, químicos, biólogos, microbiologistas e diversas outras áreas da ciência, não apenas restritas aos campos da saúde e exatas, foram ouvidas neste ano.

Além da disseminação de termos e conceitos científicos, a ação conjunta de diversos pesquisadores em todo o mundo levou ao grande avanço da ciência do ano: as vacinas de RNA.

 

Crime fictício, ciência de verdade: curiosos têm dia de investigador em laboratório
Na tarde da última sexta-feira (29), o Laboratório de Aulas Práticas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP se tornou o centro de uma investigação criminal. Profissionais já formados, graduandos, alunos do ensino médio e professores do ensino básico eram alguns dos participantes da “Oficina CSI”, promovida pelo CientificaMente, projeto de extensão coordenado pela professora Maristela Martins de Camargo.
Inspirada na célebre série americana, a atividade tem como objetivo descobrir, por meio da análise de DNA, qual dos suspeitos cometeu o crime investigado. Acompanhe na fotorreportagem a seguir todos os passos dessa busca, registrada pelas lentes da fotógrafa Cecília Bastos. Reg. 020-16 – foto Cecília Bastos

 

Embora fossem objeto de estudo há pelo menos três décadas, só neste ano, com investimento pesado e aceleração dos processos e sem abrir mão dos protocolos de segurança, a pesquisa das chamadas vacinas de terceira geração, que usam DNA ou RNA em sua composição, deslanchou.

A dificuldade no passado vinha da instabilidade da molécula e de como usá-la adequadamente. “Há apenas três anos o RNA começou a ser testado em vacinas”, diz Natália Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência. “A possibilidade de ter vacinas a toque de caixa, ou como no termo em inglês ‘plug and play’, é um sonho antigo de todo mundo que trabalha com genética. Com certeza as vacinas para Covid-19 quebraram um paradigma, e espero que esse reconhecimento venha com um prêmio Nobel, no próximo ano, para a Katalin Karikó [bioquímica húngara inventora da tecnologia de mRNA].”

Mas, em meio a tantos acertos e avanços da ciência, vieram também alguns deslizes. Uma comunicação científica que zela pela transparência, especialmente em meio a uma pandemia, é essencial para não só alertar a população, mas também tranquilizá-la. E, nisso, o Brasil falhou.

“A população precisa de honestidade, de se sentir parceira no processo, de saber que as instituições estão cuidando das incertezas [da pandemia] da melhor maneira possível, e essa falta de comunicação [no Brasil] levou exatamente a essa situação que vivemos hoje, de polarização política muito forte e de politização da ciência”, diz Pasternak.

Junto ao problema da comunicação, o principal deslize científico foi o despreparo de parte da comunidade médica para lidar com relações de causalidade e não conseguir avaliar qualidade de evidências científicas, avalia a microbiologista.

Proliferaram artigos e pré-prints (artigo ainda sem revisão de pares) sobre tratamentos sem comprovação científica, como vitamina D, ozonioterapia e até enxaguante bucal, muitas vezes endossados por médicos.

A comunidade acadêmica percebeu isso, e o número de artigos de Covid-19 retratados, seja por fraude, erro metodológico, ou arrependimento dos autores, bateu recorde em 2020: 69, segundo o site Retractionwatch.com.

O número pode parecer baixo frente aos mais de 100 mil artigos publicados sobre o tema. Mas, em média, o número de artigos retratados por ano gira em torno de 4 a cada 10 mil, para todas as áreas da ciência.

Entre os artigos retratados, dois se destacaram: um estudo publicado na revista The Lancet, a mais prestigiosa da área médica, que apontava maior risco de morte associado à hidroxicloroquina em pacientes internados com Covid.

O estudo incluía dados de 96 mil pessoas, mas, quando os cientistas pediram os dados brutos, os autores negaram, alegando confidencialidade da empresa Surgisphere, que compilou os dados.
Diversos especialistas criticaram a falta de transparência e, após a publicação de uma “expression of concern” (expressão de preocupação”), a revista tirou o artigo do ar, justificando que não era possível fazer uma auditoria externa dos dados.

A mesma empresa, Surgisphere, esteva envolvida em outro artigo retratado na New England Journal of Medicine (NEJM), que avaliava a relação de eventos cardíacos de internados com Covid e medicamentos. A retratação também ocorreu por que auditoria independente não poderia ter acesso aos dados.

Embora o estudo da Lancet fosse o maior até então para avaliar os efeitos da hidroxicloroquina, diversos outros estudos publicados antes já apontaram que seus benefícios eram, em geral, falhos frente aos malefícios. Mesmo assim, a discussão sobre a droga não cessou.

Na mesma semana da retratação da Lancet, um outro artigo, publicado na NEJM, apontou que a hidroxicloroquina não tinha eficácia como profilaxia (prevenção da infecção) pós-exposição pelo coronavírus Sars-CoV-2. Seu uso para redução de mortes ou de intubação também foi refutado um mês antes em estudo publicado na mesma NEJM.

Até mesmo a matemática não escapou do debate, e alguns papers e pré-prints foram publicados na tentativa de que a estatística extraída de revisões e meta-análises pudesse trazer novos argumentos à discussão. Não funcionou.

O acúmulo de estudos contraindicando a hidroxicloroquina era maior do que a fraca evidência a seu favor, e entidades médicas em todo o mundo, incluindo a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), recomendaram abandonar o medicamento.

Apesar disso, no Brasil, o ministro da saúde Eduardo Pazuello, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e uma quantidade enormes de médicos continuaram defendendo o uso da droga.

É natural, frente a uma doença inédita, testar novos tratamentos, mas apenas com uma forte evidência favorável seu uso é recomendado. Outros fármacos também foram derrubados no meio do caminho, como o antiviral remdesivir, cujo uso foi contraindicado pela OMS pela qualidade fraca da evidência disponível, mesmo com a aprovação do FDA norte-americano.

Por outro lado, o esteroide mais acessível dexametasona teve bons resultados no tratamento de pacientes internados. “Esse aprendizado dos médicos de como tratar o paciente nas unidades intensivas diminuiu muito a mortalidade”, conclui Pasternak.

As inofensivas máscaras também foram colocadas à prova de fogo. Um artigo publicado na revista Annals of Internal Medicine dizia que o uso de máscaras protetoras era ineficiente contra a transmissão do vírus e foi retirado do ar após uma enxurrada de críticas nas redes sociais. O conhecimento sobre o uso de máscaras e sua eficácia para proteção foi, enfim, comprovada em novembro, após publicação de um artigo na Lancet.

Por fim, a “framboesa do ano” da ciência pode ser dividida para dois artigos: um que associava as ondas 5G à entrada do vírus nas células da pele, publicado e logo em seguida retratado, e um capítulo de livro, publicado pela editora Elsevier, dizendo que o Sars-CoV-2 veio de “carona” à terra em um meteoro, uma ideia já divulgada pelo autor correspondente para outros vírus, inclusive o da Sars (de 2002) e largamente refutada pela comunidade científica. O capítulo de livro não foi retratado.