Alvo de acusações da comunidade internacional a respeito da possível violação de direitos humanos em seu território, a China abriu a possibilidade de receber observadores independentes da União Europeia (UE) para apurar denúncias de abusos generalizados contra os uigures, minoria majoritariamente muçulmana concentrada em Xinjiang, no oeste do país.

Wang Wenbin, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, disse nesta terça-feira (15) que o bloco europeu é “bem-vindo” para visitar a área e “entender verdadeiramente a situação, sem depender de boatos”.

“A UE expressou seu desejo de visitar Xinjiang, a China já concordou e está disposta a fazer arranjos”, disse Wang, durante uma entrevista coletiva. A declaração foi uma resposta ao pedido feito por representantes da UE ao dirigente chinês, Xi Jinping, durante uma videoconferência nesta segunda-feira (14).

Os europeus querem que a China faça mais concessões no campo dos direitos humanos para conseguir avançar em um acordo comercial que já se arrasta por sete anos e inclui questões de muita complexidade, como a defesa da propriedade intelectual, repasse de tecnologia e subsídios.

Para o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, as negociações avançam para uma relação equilibrada entre UE e China, mas ainda existem “diferenças reais em assuntos difíceis”. Segundo ele, a questão dos direitos humanos precisa de uma “atenção mais cuidadosa”.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou que a China precisa convencer a UE de que o acordo, que os dois lados querem finalizar até o final deste ano, realmente vale a pena.

“Obviamente, também há demandas do lado chinês, mas agora é o momento de provar que existe um verdadeiro interesse em mudar as coisas positivamente”, disse.

Ainda não há uma data marcada para uma visita da UE a Xinjiang, mas a declaração da chancelaria chinesa abre caminho para que investigações sobre o tratamento dado aos uigures causem menos atritos diplomáticos.

Grupos de defesa dos direitos humanos, entretanto, acusam o regime chinês de manter mais de um milhão de uigures em campos de reeducação política que têm como alvos principais líderes religiosos, ativistas e acadêmicos muçulmanos.

Nesta terça, mais de 20 entidades divulgaram uma carta aberta ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em que acusam o regime chinês de crimes contra a humanidade e genocídio.

“As atrocidades incluem detenção arbitrária de 1 a 1,8 milhão de pessoas em campos de concentração, um amplo programa de doutrinação política, desaparecimentos forçados, destruição de locais culturais, trabalho forçado, taxas desproporcionais de encarceramento prisional e campanhas e políticas coercitivas de prevenção de natalidade”, diz o documento assinado por grupos como Uighur Human Rights Project e Genocide Watch.

Autoridades chinesas alegam que os campos são centros de educação e treinamento vocacional e fazem parte de um conjunto de medidas para combatar o terrorismo e o fundamentalismo islâmico.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores disse que não teve acesso à carta, mas que as acusações são “tópicos sensacionalistas inventados por forças anti-China” e constituem “uma farsa para tentar difamar e desacreditar a China”.

Na segunda-feira, a alta comissária dos Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, à semelhança da UE, disse que estava discutindo com o regime de Xi Jinping uma possível visita à região de Xinjiang para avaliar o impacto das políticas chinesas sobre direitos humanos.

Além dos uigures, Bachelet também mencionou a repressão a opositores em Hong Kong, ex-colônia britânica que, em tese, teria autonomia em relação à China continental, mas vem sendo alvo de atenção internacional desde que uma controversa lei de segurança nacional, promulgada em junho, levou à prisão de ativistas pró-democracia e de opositores do regime chinês. Pequim nega qualquer interferência.

Para Sarah Brooks, do Serviço Internacional de Direitos Humanos (ISHR), a fala da comissária denota uma “posição fraca” da ONU em relação à China.

“Os comentários de Bachelet sobre a China não dizem nada de substancial –nenhuma palavra sobre os custos humanos das violações dos direitos da China, contra uigures e em Hong Kong, nem sobre as preocupações contínuas sobre liberdade de expressão, detenções arbitrárias e repressões da sociedade civil”, disse Brooks à agência de notícias Reuters.

Nesse cenário de críticas à China, os Estados Unidos ainda são os protagonistas e os dois países vivem uma espécie de Guerra Fria 2.0, com direito a fechamento de postos diplomáticos, sanções comerciais e até acusações sobre as origens da pandemia de coronavírus.

O mais recente movimento do governo americano contra a China foi a proibição, nesta segunda, da importação de produtos como algodão, tomates, tecidos e peças de computador oriundos da região de Xinjiang.

Segundo o Departamento de Segurança Interna dos EUA, a suspeita é que esses itens podem estar sendo produzidos por meio de trabalho forçado.

Para Pequim, a decisão dos EUA é uma tentativa de intimidação, baseada em invenções, e viola as regras do comércio internacional.