A invasão de apoiadores de Donald Trump ao Capitólio, na quarta (6), chocou o mundo e parte dos EUA não apenas pela gravidade do ato, que terminou com ao menos quatro pessoas mortas, mas porque ocorreu nos corredores e salas daquele que é considerado o coração da democracia americana.

A escolha do edifício como foco de insurgentes e terroristas, porém, não é uma novidade na história do país. Já faz mais de dois séculos que o prédio em Capitol Hill, em Washington, acumula episódios de ameaça à sua estrutura física, assim como à vida de políticos e funcionários que ali trabalham.

Em 1814, durante a guerra entre americanos e britânicos iniciada dois anos antes, as tropas inglesas lideradas pelo vice-almirante Sir Alexander Cockburn e pelo major-general Rober Ross marcharam sobre a capital dos EUA e atearam fogo no Capitólio, que ainda estava em construção.

 

Apoiadores do presidente Donald Trump fizeram protesto em frente ao Congresso norte-americano. – Reuters/Direitos Reservados/Agência Brasil

 

Graças a uma chuva torrencial, o edifício sobreviveu à tentativa de derrubá-lo. No início da guerra, a Casa Branca foi outro dos pontos centrais atacados pelos britânicos, em retaliação à invasão dos americanos no Upper Canada, onde hoje fica a província canadense de Ontario.

A tomada dos ingleses foi a única vez em que Washington ficou sob domínio de uma outra nação.

Em 2014, no 200º aniversário dos ataques, a embaixada britânica na capital precisou se desculpar após publicar no Twitter a imagem de um bolo com o formato da Casa Branca, acompanhado de velas. “Comemorando os 200 anos do incêndio à Casa Branca. Só com velas desta vez!”, afirmou a embaixada, em publicação que até hoje não foi apagada da rede social.

Com o Capitólio em funcionamento e já estabelecido como símbolo das instituições democráticas dos EUA, o atentado de 1954 teve maior simbolismo do que o fogo causado pelos britânicos.

No dia 1º de março daquele ano, congressistas estavam reunidos na Câmara dos Representantes para a votação de uma lei de imigração quando um grupo formado por quatro nacionalistas porto-riquenhos entrou no prédio e disparou na direção de políticos, deixando cinco deles feridos -nenhum morreu.

O ato formou parte de uma série de revoltas realizadas desde os primeiros anos daquela década pelo Partido Nacionalista Porto-Riquenho, que demandava a independência dos Estados Unidos. Em 1950, por exemplo, dois membros da legenda tentaram assassinar o presidente Harry Truman, mas foram impedidos por seguranças da Blair House, onde estava o democrata durante reformas na Casa Branca.

Truman, ciente do risco de haver uma escalada de novos atos violentos, convocou um plebiscito para definir a condição futura de Porto Rico. Não havia entre as opções, entretanto, a independência.

Os porto-riquenhos deveriam escolher entre seguir como colônia ou ter autonomia limitada. A maioria dos nacionalistas, descontente com o fato de que o controle permaneceria com os EUA, boicotou a votação, que terminou com mais de 80% a favor da mudança da ilha para Estado Livre Associado.

Presidente do Partido Nacionalista, Don Pedro Albizu Campos, que estava preso, trocava cartas com Lolita Lebrón, nacionalista que havia se mudado para Nova York no início da vida adulta.

O plano inicial da porto-riquenha, junto a outros colegas de partido, era atacar diversos pontos de Washington. A ideia depois foi descartada por Lebrón, que preferiu realizar o atentado em um único ponto, justamente no coração do Capitólio, onde ela acreditava que poderia gerar maior repercussão.

Acompanhada de Rafael Cancel Miranda, Andres Figueroa Cordero e Irvin Flores Rodríguez, Lebrón e os nacionalistas entraram no prédio com armas semi-automáticas e dispararam, de uma galeria de visitantes na Câmara dos Representantes, na direção dos congressistas.

Aos gritos de “viva Puerto Rico libre!”, Lebrón ainda exibiu uma bandeira do país. Quando capturada, afirmou que sua intenção não era matar ninguém. “Eu vim pela independência de Porto Rico.”
Lebrón, Miranda, Cordero e Rodríguez foram primeiramente acusados de tentativa de homicídio e outros crimes, com pena de 75 anos de prisão para os homens e 50 anos para Lebrón.

Ainda em 1954, o grupo sofreu nova acusação, desta vez por conspiração sediciosa. Todos negaram a tentativa de derrubar o governo dos Estados Unidos, mas admitiram a de tornar Porto Rico independente. Gonzalo, irmão de Lebrón, testemunhou contra ela.

Em 1979, o presidente Jimmy Carter concedeu clemência aos terroristas. Segundo o governo, a libertação “seria um gesto humanitário significativo, visto de tal forma pela comunidade internacional”. Os nacionalistas foram recebidos com festa em Porto Rico, especialmente Lebrón, a mentora do ataque.

Outros atentatos ao Capitólio

– Tentativa de assassinato em 1835
No dia 30 de janeiro de 1835, o pintor de casas Richard Lawrence tentou assassinar o então presidente dos EUA, Andrew Jackson. Lawrence planejou o atentado por dias, circulando a região do Capitólio e ciente de que o presidente compareceria, no edifício, a um funeral de um político da Carolina do Sul.
Quando o presidente saía do funeral, o pintor sacou a arma, que emperrou. Quando Lawrence sacou uma nova arma, esta também não disparou, provavelmente danificadas pela umidade. O presidente teria acertado o terrorista com sua bengala, e então Lawrence foi preso. Ele passou o restante da vida em hospícios, sem condenação por supostamente sofrer de insanidade.

– Bomba em 1915
Erich Muenter, professor de alemão na Universidade Harvard, explodiu três bananas de dinamite na sala de espera do Senado em 2 de julho de 1915. A explosão não feriu ninguém. Seu ato, disse, era uma resposta a financiadores americanos que contribuíram com os ingleses na Primeira Guerra. No dia seguinte ao atentado, Muenter ainda feriu o banqueiro J.P. Morgan Jr. e foi preso. Ele se suicidou dias depois.

– Nova bomba em 1983
Em 7 de novembro de 1983, uma explosão causou estragos no segundo andar do Senado. Minutos antes, uma telefonista do Capitólio recebeu uma ligação de um grupo denominado Unidade de Resistência Armada, que anunciava o ataque como forma de retaliação a ações militares dos EUA em Grenada (América Central) e no Líbano. Não houve mortes ou feridos. Em 1988, o FBI prendeu sete membros de um grupo radical de esquerda pelo ato.