Envelhecer com pele de bebê está se tornando um futuro não tão distante assim? De acordo com uma pesquisa publicada na revista científica Nature, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, conseguiu transferir para camundongos um dos mecanismos biológicos ligados à longevidade do rato-toupeira-pelado. O mamífero é conhecido por viver durante décadas sem desenvolver câncer e por resistir ao envelhecimento.

O estudo mostrou que os animais geneticamente modificados viveram mais e apresentaram uma melhora significativa na saúde ao longo da vida. O ganho médio de longevidade foi de cerca de 4,4%.

Foto de um rato-toupeira-pelado. Imagem ilustrativa para matéria sobre um estudo que tenta descobrir o segredo da longevidade através desse animal.
Rato-toupeira-pelado é considerado o guardião do segredo da longevidade. Foto: Ilustração/Pixabay

Os cientistas concentraram os estudos em um gene responsável pela produção de uma forma especial de ácido hialurônico, conhecida como HMW-HA, substância encontrada em grande quantidade no organismo do rato-toupeira-pelado, e que vem sendo associada à proteção contra tumores, inflamações e diversas doenças relacionadas ao envelhecimento.

Nosso estudo fornece uma prova de princípio de que mecanismos únicos de longevidade que evoluíram em espécies de mamíferos de vida longa podem ser exportados para melhorar o tempo de vida de outros mamíferos

afirmou Vera Gorbunova, professora de biologia e medicina da universidade americana.

Inimigo do envelhecimento

Apesar de ter um tamanho semelhante ao de um camundongo comum, o rato-toupeira-pelado pode viver até 41 anos, uma expectativa quase dez vezes maior do que a de outros roedores de porte parecido. Além da longevidade impressionante, o animal raramente desenvolve câncer e também demonstra uma resistência incomum as doenças neurodegenerativas, cardiovasculares e até artrite. Por conta disso, há décadas cientistas tentam entender quais mecanismos biológicos tornam essa espécie tão resistente ao envelhecimento.

Uma das principais apostas da comunidade científica está justamente no HMW-HA. O rato-toupeira-pelado possui cerca de dez vezes mais dessa molécula do que humanos e camundongos. Em estudos anteriores, pesquisadores perceberam que, quando esse composto era removido das células do animal, elas passavam a ficar muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de tumores.

Transferência genética trouxe benefícios aos camundongos

A equipe de pesquisadores introduziu nos camundongos a versão do rato-toupeira-pelado do gene hyaluronan synthase 2, responsável pela produção do HMW-HA, para testar como esse mecanismo funcionaria em outras espécies. O resultado foi que os animais modificados passaram a apresentar níveis mais elevados de ácido hialurônico em diferentes tecidos e demonstraram maior resistência a tumores espontâneos e ao câncer de pele induzido quimicamente.

Mas os benefícios observados pelos cientistas foram além da proteção contra o câncer. Os camundongos também envelheceram de forma mais saudável, apresentando menos processos inflamatórios em diferentes tecidos do corpo e preservando uma melhor saúde intestinal ao longo da vida.

Segundo os pesquisadores, esse resultado chama atenção porque a inflamação crônica é considerada uma das principais marcas biológicas do envelhecimento e está diretamente ligada ao surgimento de várias doenças associadas à idade avançada.

Segredo da longevidade pode abrir caminho para novos tratamentos

Embora o aumento da expectativa de vida tenha sido relativamente pequeno, os cientistas consideram o estudo um marco por demonstrar que adaptações evolutivas associadas à longevidade podem ser transferidas entre mamíferos.

Levamos dez anos desde a descoberta do HMW-HA no rato-toupeira-pelado até demonstrar que ele melhora a saúde em camundongos. Nosso próximo objetivo é transferir esse benefício para humanos.

disse Vera Gorbunova.

De acordo com Andrei Seluanov, outro autor da pesquisa, os cientistas já testam moléculas capazes de desacelerar a degradação do ácido hialurônico no organismo em estudos pré-clínicos. Pesquisas mais recentes continuam revelando mecanismos biológicos únicos do rato-toupeira-pelado.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica Science identificou uma proteína ligada ao reparo do DNA que também pode contribuir para o envelhecimento mais lento da espécie. Os resultados reforçam a ideia de que a longevidade desses animais não depende de um único fator, mas sim de um conjunto de mecanismos que envolve resistência ao câncer, controle da inflamação, proteção celular e maior estabilidade genética.

Para os cientistas, o desafio agora é entender se essas estratégias evolutivas podem ser adaptadas de forma segura para ampliar a saúde humana durante o envelhecimento.

“Coisa careca com cabeça diferente

Nativo das regiões quentes e tropicais do nordeste da África, o rato-toupeira-pelado, cujo nome científico é Heterocephalus glaber, expressão que significa “coisa careca com cabeça diferente”, faz jus ao nome por conta do corpo praticamente sem pelos e dos longos dentes que chamam atenção logo à primeira vista.

A espécie é encontrada em áreas selvagens do Quênia, Etiópia e Somália, vivendo em colônias subterrâneas que costumam reunir entre 70 e 80 indivíduos, embora algumas possam chegar a até 300 membros. Esses animais constroem labirintos de túneis e câmaras subterrâneas que podem ocupar áreas equivalentes a diversos campos de futebol.

E talvez justamente pelas condições extremas em que vivem, com baixos níveis de oxigênio e ambientes fechados, os ratos-toupeiras-pelados tenham desenvolvido algumas das características mais incomuns já observadas em mamíferos. O animal vem fascinando cientistas ao redor do mundo por carregar pistas que podem ajudar a entender melhor doenças humanas como câncer e o envelhecimento.

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