A Ilha Haihua foi um projeto movido pelo sonho de grandeza. Inspirada em Dubai, o conjunto de ilhas artificiais teve R$ 120 bilhões investidos em um negócio agora abandonado no mar ao sul da China. Apesar disso, o fracasso continua inspirando admiradores e aprendizes do que não fazer em negócios arriscados.

Foto aérea da Ilha Haihua, empreendimento chinês abandonado ao longo dos anos.
A Ilha Haihua recebeu investimentos bilionários e hoje vive cenário parecido ao de uma “cidade fantasma”. Foto: Reprodução/Redes Sociais

A história da Ilha Haihua

A ideia da Ilha Haihua nasceu no fim dos anos 2000, surfando a onda do boom imobiliário e turismo chinês. A “Dubai chinesa”, como costumava ser chamada, foi colocada em prática pela incorporadora Evergrande Group.

A empresa tinha a ambição de criar o maior complexo turístico artificial do planeta na ilha tropical de Hainan, região frequentemente chamada de “Havaí da China”. Os empresários queriam construir um projeto icônico que servisse como símbolo do poder econômico da companhia.

A implantação começou por volta de 2013, quando o governo autorizou os trabalhos de aterramento marítimo. Milhões de toneladas de areia e terra foram usadas para criar três ilhas artificiais na costa de Danzhou, no norte da província de Hainan.

O anúncio oficial do megaprojeto veio em 2015. Na Evergrande prometia hotéis de luxo, parques aquáticos, museus, centros comerciais, marina para iates, teatros, resorts e dezenas de milhares de apartamentos turísticos.

O início da ruína

Os investimentos começaram a entrar e logo constituíram um total de R$ 120 bilhões (160 bilhões de yuans). A febre imobiliária em torno do empreendimento aumentou e fez os preços dispararem ao longo dos anos seguintes.

Ao lado disso, críticas ambientais começaram a surgir devido à invasão do projeto no mar chinês. Investigações apontaram que a construção destruiu recifes de coral e afetou populações de ostras da região. Autoridades ambientais acusaram políticos locais de terem flexibilizado ilegalmente proteções ambientais para acelerar a obra.

A área usada no projeto seria de cerca de 381 hectares, com outros números chamativos:

  • 58 hotéis modernos;
  • 28 museus temáticos;
  • 7 praças para apresentações culturais;
  • 23 projetos de entretenimento.

O colapso financeiro da Evergrande

Em 2021, a incorporadora acumulava R$ 1,5 trilhão em dívidas. O colapso da Evergrande virou o principal símbolo da crise do mercado imobiliário chinês, um dos principais motores do crescimento econômico do país por décadas.

O período foi crítico para a empresa, quando, em 2020, Pequim lançou regras limitando o nível de endividamento das incorporadoras. O objetivo era frear a bolha imobiliária do país.

Dependente de rolagem de dívida para se manter ativa, a Evergrande foi uma das empresas mais atingidas. Quando o crédito secou e as cobranças chegaram, ela perdeu capacidade de terminar obras, pagar fornecedores, quitar juros e entregar apartamentos vendidos.

Na ilha, muitos edifícios nunca passaram das fundações de concreto, hoje transformadas em lagoas após serem inundadas pela chuva. O maior golpe veio ainda em 2021, quando o governo ordenou a demolição de 39 edifícios do complexo por irregularidades ambientais e urbanísticas.

Em 2024, um tribunal de Hong Kong ordenou a liquidação da Evergrande, consolidando oficialmente a queda da empresa.

Como está a Ilha Haihua hoje?

Mesmo com todos os problemas, a ilha continua ativa. Ela é definida por moradores e locais como “resort fantasma”, atraindo alguns turistas e moradores chineses como uma pequena fração das projeções iniciais.

Entre 2021 e 2022, a ilha chegou a receber 5 milhões de turistas, segundo estimativas. O número, no entanto, reduziu drasticamente nos anos seguintes, especialmente sem o apoio dos investidores.

Um dos retratos do fracasso do projeto é o hotel The Castle, construído com 5.100 quartos para abrigar os milhares de turistas esperados pelos investidores. Hoje, o hotel sobrevive recebendo turistas em excursões durante a alta temporada enquanto fica praticamente deserto durante as outras partes do ano.

Jornais locais retratam as ruas comerciais parecem um cenário de filme pós-apocalíptico, com trechos desertos e prédios abandonados. Moradores e compradores relatam que edifícios apresentam colunas rachadas, concreto deteriorado e corrosão severa em estruturas metálicas.

Sem a Evergrande e outras gigantes imobiliárias, além da desesperança com o projeto, a ilha hoje vive um reflexo distorcido do que um dia poderia ter sido: a Dubai chinesa.

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