A estudante de cinema, a carioca Hannah Farbiasz, 26, conseguiu tomar a primeira dose da vacina da Pfizer contra a Covid-19, em Israel, nesta quarta-feira (13), mesmo estando fora do grupo de risco para a doença.

Enquanto isso, o pai da jovem, Jack Farbiasz, 62, que vive no Rio de Janeiro, ainda está a espera de saber a data de início da imunização. “Ouço que quem está fora do Brasil na pandemia tem sorte. Fico feliz de estar num país que leva o vírus a sério, mas desesperada quando penso ‘e as pessoas que eu amo?’. É a minha família que não vai se vacinar”, diz ela, que se sente “semi-imunizada” e “hiper ansiosa” para receber a segunda dose, que deve ser aplicada daqui a 21 dias.

Foto: Arquivo pessoal

Judia, ela se mudou há um ano e oito meses para Israel para cursar o mestrado em cinema e televisão na Universidade de Tel Aviv.

Mas acaba de completar um ano sem conseguir voltar para o Brasil –a última vez foi em janeiro de 2020, pouco antes de o aeroporto se fechar para conter a pandemia, cancelando seus planos de viajar em setembro.

Na última semana, ela soube por meio de uma amiga que estava sobrando vacina em algumas clínicas da cidade. A explicação que recebeu foi a de que quando uma caixa é aberta, todas as doses precisam ser aplicadas –o imunizante da Pfizer tem logística complicada e precisa ficar armazenado a -70° C.

Então, quando não há número suficiente de idosos ou profissionais da saúde para aplicar, as doses que sobram começaram a ser disponibilizadas para os mais jovens e pessoas fora do grupo de risco para evitar o descarte.

“Fui em duas clínicas até conseguir. Tinha uma fila de cinco pessoas esperando para saber se havia sobras, três bem jovens e duas com uns 40 anos”, conta.

A enfermeira explicou que ela poderia ter febre, dor nos músculos ou dor de cabeça nos próximos dias, e que deveria sentar 15 minutos após receber a dose. Ela conta que não sentiu dor no braço na hora da aplicação e não teve os efeitos colaterais até agora.

O primeiro desejo após a segunda dose, em 3 de fevereiro, é voar de volta para o Brasil para visitar a família e os amigos. “Foi muito rápido, fiquei extasiada. Quando sentei para esperar os 15 minutos aí comecei a chorar e contar para todo mundo”, diz. “Caiu a ficha de que estamos realmente caminhando para superar a Covid.”

Israel é o país que tem, proporcionalmente, a maior parte de sua população já imunizada. Segundo o levantamento Our World in Data, plataforma da Universidade de Oxford, cerca de 18% dos israelenses já foram imunizados desde 20 de dezembro. Bem mais que outros países, como a Grã-Bretanha (1,5%) e os Estados Unidos (menos de 1%).

O governo israelense também autorizou o uso da vacina desenvolvida pela Moderna e comprou seis milhões de doses do imunizante. A previsão é de que toda a população adulta seja vacinada até fim de março. “Seremos o primeiro país a vencer o coronavírus”, disse o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que concorre no quarto pleito em dois anos. A vacinação virou sua principal bandeira.

A agilidade da vacinação em Israel tem como base o tamanho diminuto do país (menor que Sergipe) e a existência de quatro sistemas universais de saúde paralelos, que atendem gratuitamente a população e estão acostumados a realizar tratamentos em massa em caso de conflitos ou desastres naturais.

No entanto, com a nova variante britânica do vírus, que levou à multiplicação dos casos de Covid-19, os hospitais israelenses voltaram a ficar sobrecarregados –há mais de 8.000 novos infectados por dia e o número de mortos beira os 30 (no total, desde o início da pandemia, morreram 3.596 pessoas).

O avanço dos casos forçou o país a decretar em 7 de janeiro um novo lockdown mais severo do que o em vigor desde o fim de dezembro, com fechamento de escolas e muitas restrições, na tentativa de um esforço final contra a doença.
“Shoppings, bares e locais de entretenimento estão fechados, mas as ruas estão cheias. Embora a maioria das pessoas usem máscara, no ano passado se você ultrapasse a distância de 500 metros da sua casa, um policial podia te multar, agora está menos rigoroso”, conta Hannah.

Hannah critica a forma como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro tem lidado com a pandemia. Ela afirma que se surpreendeu ao vê-lo sem máscara, minimizando o vírus. “Outros líderes polêmicos tiveram bom senso. Aqui, o premiê está sendo investigado por corrupção, tem um processo de impeachment e podemos critica-lo por outras questões, mas ele está levando a pandemia a sério. Isso influencia muito em como o povo se comporta”, diz.

Desde o início da quarentena, a estudante cumpre o isolamento de forma rigorosa. “Moro sozinha em outro país, penso que não posso ficar doente ou morrer aqui”, diz ela, que sai apenas para trabalhar e viu poucos amigos nesse período.

Mas em breve ela deve receber um “passaporte verde”. O documento para vacinados contra o coronavírus, com validade de seis meses, será concedido a quem tomar as duas doses do imunizante e dará vantagens como frequentar eventos esportivos e culturais, além de não precisar de quarentena ao retornar ao país do exterior.