O Congresso escolheu nesta segunda-feira, 16, o deputado centrista Francisco Sagasti como novo presidente do Peru. Ele é o terceiro a ocupar o cargo em uma semana e assume com o desafio de encerrar três crises: uma política que levou milhares de cidadãos indignados às ruas, outra sanitária, causada pela pandemia, e outra econômica, como consequência da recessão.

(Foto: Congresso do Peru)

 

Engenheiro de 76 anos que já trabalhou no Banco Mundial, Sagasti foi escolhido como novo presidente do Congresso, o que automaticamente significa assumir a chefia de Estado, de acordo com a linha sucessória estabelecida pela Constituição. Aparentemente, a escolha encerra uma semana caótica na política peruana, que começou com o impeachment de Martín Vizcarra.

Em setembro, Vizcarra já havia sobrevivido a um primeiro processo de impeachment. Mas, na semana passada, ele foi destituído por “incapacidade moral permanente” – um termo vago que se refere à insanidade, mas que foi usado para puni-lo por ter recebido US$ 630 mil em propina para autorizar obras públicas quando ele era governador de Moquegua, em 2014 – Vizcarra nega qualquer irregularidade.

Enquanto esteve à frente do país, Vizcarra sempre viveu às turras com os partidos políticos em razão de sua retórica anticorrupção, que lhe rendeu popularidade nas ruas, mas inimigos dentro do Congresso. Em seu lugar, assumiu o presidente do Legislativo, Manuel Merino, que não durou cinco dias no cargo – ele renunciou no domingo, após gigantescos protestos de rua contra a destituição de Vizcarra. “É um ótimo dia para a democracia peruana”, disse Steven Levitsky, cientista político de Harvard, que escreveu Como as Democracias Morrem.

Mas a escolha de Sagasti não foi fácil e ocorreu após um impasse na primeira votação – o Congresso havia rejeitado o nome de Rocío Silva-Santisteban, uma defensora de direitos humanos de esquerda que conseguiu apenas 42 votos do total de 130 deputados

Ontem, assim que Sagasti obteve a maioria de 97 votos, o resultado foi recebido com aplausos entusiasmados no Congresso peruano. Imediatamente, ele prestou juramento como presidente do Legislativo. “Faremos todo o possível para devolver a esperança aos cidadãos, para demonstrar que eles podem confiar em nós, que somos responsáveis”, declarou.

Agora, o maior desafio de Sagasti é tirar o país de múltiplas crises. Além da instabilidade política, o Peru vive uma grave recessão. De acordo com projeções do FMI, o PIB peruano deve encolher 14% este ano. O desemprego, que chegou a 6,4% no início do ano, pulou para 16,4% em outubro.

O tombo da economia peruana está diretamente ligado à pandemia de coronavírus. O país registrou 940 mil casos e 35 mil mortes – 1.063 óbitos por cada milhão de habitantes, a taxa mais alta da América do Sul. Foi neste cenário de desgoverno que milhares de peruanos saíram às ruas para protestar, na semana passada.

Mortes

“Esta é a pior crise democrática e de direitos humanos que o Peru vive desde o período Fujimori, disse o analista Alonso Gurmendi Dunkelberg, professor de direito internacional da Universidad del Pacífico. Ele se refere aos dez anos do regime autoritário do presidente Alberto Fujimori, mas também aos dois jovens que morreram durante as manifestações: Jack Pintado, de 22 anos, assassinado com 11 tiros, e Jordan Sotelo Camargo, de 24, que morreu com 4 disparos no peito.

“Dois jovens absurdamente e estupidamente executados pela polícia”, afirmou o escritor peruano Mario Vargas Llosa, em vídeo postado no sábado, no Twitter. “A repressão, contra todo o Peru, tem de parar.”

No entanto, o drama peruano ainda não acabou. O país agora prende a respiração e aguarda a decisão do Tribunal Constitucional, que começou ontem a debater se o impeachment e o afastamento de Vizcarra foram constitucionais, o que pode abrir as portas para mais uma reviravolta dramática.