Não deixa de parecer uma piada de mau gosto do destino que Kenzo Takada tenha morrido neste domingo (4), vítima da Covid-19. O estilista japonês representava em seu segmento tudo o que a doença interditou: o contato físico no fervo da noite, a euforia de se vestir para espantar o peso da realidade e, principalmente, o discurso antixenófobo plantado por ele nos 1970.

Kenzo Takada, em foto de novembro de 2018 — Foto: Joel Saget/AFP/Arquivo

 

O fato de ter sido o primeiro designer asiático a furar a reticência da costura francesa em ver as cores e a despretensão das formas como veículos de elegância, abriu precedente para a chamada “invasão japonesa” na alta-costura e, por conseguinte, um interesse da Europa e, depois, dos Estados Unidos, pela produção internacional de vestuário.

Kenzo, antes de ser reconhecido pelos jovens millennials como marca de perfume, definiu o que pode se entender como moda globalizada.
Seu trabalho misturava as referências mais díspares possíveis. Podia pescar do folclore indiano as bases dos volumes, misturar a caligrafia de seu país e explodir tudo na roupa com uma viagem de linhas e cores da obra de Kandinsky.

Era uma salada possível na experimentação setentista, que ele logo levou para o outro lado do Atlântico Norte para furar outra bolha.
Quando abriram as portas da boate Studio 54, mito nova-iorquino cujas noites memoráveis fundaram a dita estética da noite, lá estava ele apresentando as modelos saltitantes trajadas com florais de inverno estampados em sobreposições meio ocidentais, meio orientais. A profusão de sotaques e cores cabia naquele 1977 superlativo, que não vislumbrava a depressão endêmica dos anos 1990.

Ele costumava dizer que a vida era melhor em tecnicolor. Numa de suas últimas aparições públicas, há dois anos em Paris, para lançar um punhado das dezenas de perfumes que levam seu nome, Kenzo comentava ao repórter sobre como “queria que as pessoas continuassem a sonhar e se divertir”.

Foi interrompido no discurso, porque a festança no salão do Petit Palais exigia sua presença. Não que alguém não o visse à distância, porque por mais longe que estivesse do globo prateado, a mecha cinza de sua franja combinada ao indefectível paletó amarelo berrante, naquela ocasião usado com gravata e pulôver, fecharia qualquer pupila acostumada ao mar de trajes pretos dos regabofes fashionistas da atualidade.

Assim como fez a elite notívaga sobrevivente da epidemia de Aids, como seus colegas da época Thierry Mugler, Karl Lagerfeld e Zandra Rhodes, Kenzo vivia de emular no presente aquele passado que não gostava do fim da festa. Propagava uma visão otimista, relembrando, por exemplo, os espetáculos circenses que serviram para apresentar parte de suas coleções.

Este ano tem sido especialmente fustigante para esse tipo de leitura fantástica da moda. A despedida de Gaultier em janeiro, um ano após a morte de Lagerfeld, e a partida há três meses de outro japonês pioneiro da vibração estética, o estilista Kansai Yamamoto, são cortes profundos no ego da criatividade sem amarras comerciais.

E soa ainda mais irônico que, quatro dias atrás, a grife Kenzo tenha optado por apresentar durante a atual semana de moda de Paris uma espécie celebração à vida.

A marca é desde 1993 propriedade do grupo francês LVMH -por isso também que, desde então, Kenzo assinava suas colaborações com o sobrenome Takada- e apostou no mesmo movimento “flower power” cuja mensagem de paz e união seu fundador ajudou a imprimir nas roupas da juventude setentista.

A atmosfera bucólica do desfile inspirado nas roupas do apicultores foi gestada pelo atual estilista da grife, o português Felipe Oliveira Baptista, contratado no ano passado para levar à etiqueta uma visão mais pé no chão e palatável aos compradores mais conservadores de hoje.

“Sua incrível energia, generosidade, talento e sorriso eram contagiantes. Sua alma gêmea [a marca] viverá para sempre”, escreveu Baptista numa das redes sociais da grife.

Parte da costura quer mesmo resgatar o espírito dele nesta temporada de verão 2021 dos desfiles, mas a realidade desenhada parece cada vez mais distante dos pilares de sua moda otimista demais