“Algumas horas antes de minha mãe morrer, eu fiz uma chamada de vídeo para ela e a ouvi dizendo os nomes de suas pessoas mais próximas e amadas. Eu a acalmei por 15 minutos e conversei com ela enquanto adormecia. Eu senti que ela nunca mais acordaria.”

ANDREW WEB

 

O produtor Andrew Webb, da BBC, não conseguiu visitar sua mãe no hospital nos dias que antecederam a morte dela. Mas usou a tecnologia para passar um tempo com ela virtualmente.

Relatos semelhantes têm se multiplicado ao redor do mundo, em meio às restrições da pandemia de coronavírus que impedem familiares de visitar pacientes em situação gravíssima em seus últimos dias ou horas.

No texto abaixo, Webb relata o que aconteceu com sua mãe, Kathleen, e como ele se manteve conectado a ela até o fim, apesar da distância física.

No fim há um pequeno guia para quem precisa fazer essa comunicação à distância.

Bodas de ouro

”Minha mãe teve um ataque cardíaco no dia em que iríamos celebrar os 50 anos de casamento de meus pais. Eu e meu irmão, Laurence, já havíamos conversado sobre os riscos de saúde para nossos pais e cancelamos o almoço comemorativo duas semanas antes do início das medidas de distanciamento social no Reino Unido.

Se tivesse o evento tivesse ocorrido, nos encontraríamos na casa deles no sudoeste da Inglaterra em meados de março, um fim de semana antes do Dia das Mães.

Bem antes, em novembro de 2019, minha mãe havia tido a vida salva por uma cirurgia de emergência depois que seu intestino se rompeu.

O problema ressurgiu dias antes da data em que celebraríamos suas bodas de ouro. Ela começou a se sentir mal, e meu pai a levou para o hospital. Nas semanas seguintes, ela não conseguiu comer sem vomitar, perdeu força e acabou morrendo durante a pandemia, depois que seu intestino se rompeu novamente.

Os médicos avaliaram que uma cirurgia a teria matado ou a deixado com uma péssima qualidade de vida. Havia pouco a ser feito.

Ainda que as restrições de distanciamento social não estivessem em vigor, o coronavírus avançava e nossa família enfrentou um duro dilema: como poderíamos visitar um familiar frágil e doente se nós representávamos um risco para ele, outros pacientes e profissionais de saúde? Havia também um risco para nós.

Meu pai, Bernie, de 75 anos, visitou minha mãe com luvas e máscaras estampadas que eu enviei para ele. Mas a legislação mudaria para evitar essas visitas hospitalares.

Então, para falar com ela, usamos as chamadas de vídeo do WhatsApp no celular, com meu pai ao lado dela, segurando o telefone para que ela pudesse nos ver.

Isso permitiu que pudéssemos fazer videoconferências entre aquela enfermaria no sudoeste da Inglaterra e familiares em Londres e Hong Kong.

Mas, quando a quarentena da pandemia começou, meu pai teve que parar de visitá-la pessoalmente.

Com a saúde deteriorada, minha mãe não conseguia atender um telefonema sem auxílio, então precisávamos ligar para o hospital e pedir para os profissionais de enfermagem atenderem a chamada que fazíamos para o celular que meu pai deixara ali.

Só que, de repente, ela foi transferida para o isolamento com suspeita de coronavírus, e os corajosos profissionais de saúde usavam luvas, máscaras e trajes adequados para poder entrar no quarto dela.

Eu organizava as chamadas em vídeo para coincidir com a entrada deles ali. Eles ficavam felizes de ajudar, sabendo que por causa da quarentena aquele telefone era o único ponto de contato de minha mãe com o mundo exterior.

Mas o telefone dela parou de funcionar. Àquela altura, testávamos um monte de aplicativos para falar com ela. Eu e meu irmão descobrimos que o Skype tem uma função de atender automaticamente. Instalamos o aplicativo AirDroid, que nos permitia controlar à distância o novo aparelho, que meu irmão esterilizou numa clínica veterinária antes de levar ao hospital.

Minha mãe viveu mais alguns dias, cada vez mais fraca.

A equipe de enfermagem mantinha o celular de pé para falarmos com ela, e cheguei a encomendar um tripé, mas ele só chegou a tempo do funeral dela.

Dizendo adeus

Por vídeo, minha mãe conseguiu se despedir de mim, de meu irmão e de seus netos, incluindo minha filha de seis anos que vive nos Estados Unidos. Sem smartphones modernos, isso teria sido impossível.

De certo modo, por uma virada no destino, o coronavírus nos forçou a encontrar um jeito de nos comunicarmos com familiares próximos que estão longe e de nos aproximar em um momento crucial como esse.

Meu pai disse adeus à sua companhia de cinco décadas via telefone, ainda que estivessem a 30 km um do outro.

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