A China do líder Xi Jinping lançou nesta quinta (28) o maior desafio político ao Ocidente desde que decidiu massacrar estudantes que pediam democracia no país na praça da Paz Celestial, em 1989.

A ditadura comunista aprovou, como estava previsto desde a semana passada, a lei de segurança nacional para estrangular a oposição a Pequim em Hong Kong, a antiga colônia britânica que lhe serve de centro financeiro desde a devolução de 1997.

No massacre de quase 31 anos atrás, a abertura econômica promovida pelo líder Deng Xiaoping começava a colocar a China no caminho para virar a segunda maior economia do mundo, mas a liberalidade levou milhares a exigir contrapartida política.

A solução do Partido Comunista Chinês foi, sob críticas intensas externas, esmagar os protestos -o número de mortos oficialmente é de 300, mas certamente é maior.

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética acabou logo depois, e Pequim assumiu aos poucos o protagonismo que tem hoje, com 16% do PIB mundial, largamente mantendo sua ditadura intacta dada sua utilidade para o sistema produtivo mundial.

A reação agora dos Estados Unidos, rivais da China na Guerra Fria 2.0 disparada na forma de disputa comercial e geopolítica pelo presidente Donald Trump em 2017, deverá ser imediata. Os países têm se chocado no campo militar e até no manejo da pandemia do novo coronavírus.

Na quarta (27), o secretário de Estado, Mike Pompeo, disse que os EUA não iriam mais considerar Hong Kong um ente autônomo, o que mudaria todo o arcabouço legal na hora de fazer negócios.

A expectativa é por mais medidas retaliatórias. Já existe um ato aprovado em novembro prevendo sanções a autoridades que cometam abusos contra os direitos humanos em Hong Kong, o que por ora foi só instrumento de pressão.

O ato também serviu para Pequim classificar quaisquer protestos pró-democracia como “interferência estrangeira”, um subterfúgio usado com sucesso na repressão de Vladimir Putin a movimentos análogos na Rússia.

Agora, a ditadura terá um instrumento legal para lidar com isso, já que Hong Kong nunca regulamentou o artigo 23 da Lei Básica, sua mini-Constituição, que trata de segurança nacional, por pressão das ruas.

 

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Entre as retaliações, o jornal The New York Times diz que Trump considera, por exemplo, expulsar dos EUA estudantes chineses que tenham alguma relação com academias militares -algo destinado a ser chamado de paranoia racista.

A nova lei, que havia sido anunciada na semana passada, reativou os protestos de rua maciços que vinham abalando o território desde o meio do ano passado. A pandemia do novo coronavírus havia esfriado o movimento, mas já há quase 500 presos na nova onda até aqui.

“Agora vamos começar a guerra dos cem dias”, disse por mensagem o ativista pró-democracia Li Tak, baseado na ilha de Hong Kong, centro da região.

Ele se refere ao prazo estimado para a regulamentação da lei, que permite a Pequim suprimir atividades que considere subversivas, de terrorismo ou de secessão no território, inclusive com o uso de agentes de segurança seus em solo -um tabu hoje.

Não por acaso, ao fim do prazo, em setembro, estão marcadas as eleições para o Conselho Legislativo, o Parlamento local. Das 70 vagas, 35 são escolhidas diretamente e as restantes, por guildas profissionais, com a exceção de 5 cadeiras eleitas numa votação mista.

A oposição, que conquistara 17 de 18 conselhos na eleição local de novembro, tinha esperança de aumentar sua posição minoritária. “Duvido que seja possível lançar candidatos”, disse Li, que concorreu sem sucesso em 2019.

A plataforma digital LIHKG já convocava para novos protestos, mirando o grande ato anual de 4 de junho, quando se celebra no Victoria Park, na caríssima região de Causeway Bay, justamente o aniversário do Massacre da Paz Celestial. A confusão é certa.

De sua parte, a China adotou um discurso conciliador. Nesta quinta, o premiê Li Keqiang afirmou que o objetivo da lei é garantir o princípio “um país, dois sistemas” vigente em Hong Kong, que será “governada por honcongueses”.

A honconguesa no comando agora, a impopular executiva-chefe Carrie Lam, foi ao ponto. “Nós somos uma sociedade muito livre, então por enquanto as pessoas têm liberdade para dizer o que elas quiserem. Direitos e liberdades não são absolutos”, afirmou.

Pelo sistema citado por Li, válido até 2047 por acordo com o Reino Unido, Hong Kong será uma ilha de capitalismo desregulado, multipartidarismo, liberdade de expressão e Judiciário autônomo.

Pequim comanda a política local, mas a oposição coexiste com forças pró-China. Com a nova lei, Xi Jinping deixa claro que só quer ver o item capitalismo válido na agenda.

Mas o fim de outras liberdades, se confirmado, tenderá a dificultar a vida dos chineses. Até o ano passado, 65% do investimento externo que entrava e saía da China passava por Hong Kong. Sua Bolsa foi responsável, em 2018, por 73% das ofertas públicas de ações de empresas do continente.

O regime até tentou diversificar seus polos financeiros, investindo em 12 zonas econômicas especiais, mas Hong Kong seguiu soberana, apesar do discurso oficial que lembra a redução da ex-colônia no peso econômico do gigante, de 18% para 3% do PIB de 1997 para cá.

Há problemas de ordem, digamos, capitalista também. Os protestos do ano passado, disparados por uma lei que previa extradição de locais à China que acabou revogada, derrubaram o PIB honconguês, que ficou 1,2% negativo. O preço de imóveis caiu 29%, o turismo colapsou.

A tempestade perfeita veio com o novo coronavírus, que levou o PIB anualizado do primeiro trimestre a cair 8,9%, o maior tombo da história. A previsão mais otimista é 2020 fechar com um encolhimento de 5% do PIB.

O interesse, claro, não é só de Pequim. Hong Kong sempre foi uma fratura da Guerra Fria, um posto avançado do Ocidente na Ásia. Os EUA têm 290 quartéis-generais e 434 escritórios regionais asiáticos de suas empresas lá, e o consulado local, até hoje ao menos, tem status de embaixada.

Ninguém imagina Washington cessando imediatamente seus negócios com a China, que passam muito por Hong Kong, apesar dos sinais crescentes de cortes de laços em setores estratégicos.

Por isso Li Keqiang também disse descartar a “mentalidade de Guerra Fria” e defendeu iniciativas conjuntas, como investimentos de empresas americanas no polo tecnológico de Wuhan (a cidade-origem da pandemia).

Mais que isso, reafirmou, como seus predecessores de 1989, uma prioridade da política sobre a econômica, acreditando que a gravidade fará o resto. A tragédia do novo coronavírus ajuda o processo, retirando fôlego político do Ocidente para um embate mais incisivo, mas a “guerra dos cem dias” está só começando.