“Fogo e Fúria”, “Medo”, “Raiva”, “Desequilibrado”. A julgar pelos títulos de seus livros, os biógrafos da era Donald Trump não podem reclamar de falta de material explosivo. Boa sorte com o próximo governo.

(Foto: Divulgação)

 

Tudo bem que não é fácil competir com o presidente que tuíta AMEAÇAS A DESAFETOS POLÍTICOS EM CAIXA ALTA e tem seu pênis descrito por uma ex-atriz pornô que diz ter se relacionado com ele.

Já Joe Biden, consagrado nesta quinta (5) como futuro presidente dos EUA, tem o que o New York Times descreveu como “uma energia negativa online”, com pouco traquejo nas redes sociais.

“Se o ex-vice-presidente ganhar, não será por ter um exército de memes na retaguarda”, disse a revista Wired durante a campanha. “E isso é um bom sinal para a política americana.”

Também é promessa de tempos mais pacíficos para a mídia do país. Trump barrou jornalistas em entrevistas coletivas e os transformou em alvos de ataques pessoais. Chegou a acusar um apresentador de TV de assassinato com base numa teoria da conspiração que ignora o fato de a suposta vítima, uma ex-funcionária, estar a 1.300 km de distância quando, segundo a polícia, morreu num acidente.

A participação num programa matinal em maio dá um vislumbre da relação cordial que o próximo chefe da Casa Branca deve manter com a imprensa. No fim da entrevista ao “Good Morning America”, Biden pergunta ao âncora: “Como você está, cara? Tudo bem?”.

Biden conduziu uma campanha presidencial considerada entediante até por correligionários, o que não deixou de ser um contraponto estratégico ao temperamento do rival republicano. Mas é também um traço da personalidade do senhor de 77 anos apelidado de Amtrak Joe, como a empresa nacional ferroviária, por ter percorrido de trem o mesmo trajeto de Delaware a Washington por 36 anos.

Se Biden é previsível, o mesmo não se pode dizer dos tempos que o aguardam. Ele assumirá a Presidência da nação que mais acumula vítimas da Covid-19, 234 mil até aqui, e que espera enfrentar uma crise econômica desastrosa. Fora lidar com sinistros do antecessor na política externa, como os rompimentos com o Acordo de Paris, as organizações mundiais da Saúde e do Comércio e o pacto nuclear iraniano.

A pressão dos mais progressistas de seu partido, assim como a perspectiva de oposição feroz caso Trump fique no pé, também prometem causar alvoroço. É esperar para ver se entrará em cena o Biden velha guarda, por décadas um apóstolo do bipartidarismo, ou um político reativo à voltagem da nova era.

O democrata também tem pontos vulneráveis. Um calcanhar de Aquiles: o filho Hunter, com histórico de vício em álcool, cocaína e crack. Seus negócios com a Ucrânia viraram outro passivo ao levantar suspeitas sobre possível ingerência do pai, então vice de Obama, para favorecer os patrões estrangeiros.

Uma vocação para gafes pode trazer alguma diversão para a volta dos democratas à Casa Branca. Veja esta de dez anos atrás, quando Biden lamentou a morte da mãe do primeiro-ministro da Irlanda, que continuava bem viva. No mesmo ano, ele celebrou um acordo de Obama definindo-o como “big fucking deal” (algo na linha “um negócio do caralho”). Era o tipo de “polêmica” que virava notícia. Ah, 2010.

“Se você quer depressão, desgraça e desespero, vote no Joe Sonolento. E tédio”, discursou Trump em outubro. “Ninguém mais vai se interessar por política.”

Não é de falta de política que o próximo quadriênio sofrerá. Mas vender biografias do presidente eleito talvez exija mais do departamento de marketing das editoras.