POR IGOR GIELOW – SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Após seis dias de combates que deixaram dezenas de mortos, a Armênia aceitou nesta sexta-feira (2) discutir um cessar-fogo com o Azerbaijão sob os auspícios do chamado Grupo de Minsk. Os azeris não se manifestaram ainda.

Formado em 1992 para lidar com a guerra em torno da região disputada de Nagorno-Karabakh, o grupo é encabeçado por Rússia, França e EUA. Na quinta, ele pediu um cessar-fogo incondicional aos dois lados.

“Embora esta agressão continue a receber nossa resposta forte e decidida, estamos prontos para nos envolver com os países do Grupo de Minsk para restabelecer um regime de cessar-fogo”, disse o Ministério das Relações Exteriores em Ierevan.

Até aqui, os armênios vinham resistindo à mediação internacional, proposta inicialmente pela Rússia.

 

Foto: Reprodução

 

A questão é convencer Baku. Na quinta, o presidente Ilham Aliyev replicou a reação de seu padrinho, o líder turco Recep Tayyip Erdogan, e rejeitou os termos das potências. Disse que os combates só cessam com a saída dos “ocupantes armênios”.

Nagorno-Karabakh é um território de maioria étnica armênia que ficou anexo ao Azerbaijão na divisão do Cáucaso feita pelos soviéticos nos anos 1920. Com o ocaso comunista, declarou-se independente e foi apoiado pela Armênia, gerando a guerra de 1992-94, suspensa por cessar-fogo.

Além da área, forças de Karabakh controlam, com o apoio de Ierevan, sete distritos ao seu redor, garantindo contato com a fronteira armênia e dando profundidade estratégica de defesa contra os azeris.

A ONU já decidiu, em quatro resoluções de 1993, que as áreas precisam ser desocupadas para estabelecer a negociação do status de Karabakh, chamado de Astrakh pelos armênios. Isso não ocorreu, e Baku quer todos os territórios para si.

“As resoluções confirmaram que o conflito é entre o Azerbaijão e Nagorno-Karabakh. A Armênia só foi obrigada a exercer sua influência para impedir a hostilidade. Elas exigem que terceiros países se abstenham de intervir. Essa demanda está sendo grosseiramente violada pela Turquia”, diz o embaixador armênio no Brasil, Arman Akopian.
Segundo ele, as resoluções estão de toda forma obsoletas e são usadas por Baku para efeitos de propaganda.

Comparando com as inúmeras resoluções do conflito israelo-palestino, ele questiona: “Alguém exige uma implementação incondicional de centenas dessas resoluções?”.

A Folha procurou também a Embaixada do Azerbaijão em Brasília, mas não obteve resposta.

Em solo, os combates continuam. Segundo o Ministério da Defesa de Karabakh, morreram na madrugada desta sexta 54 soldados, elevando para 158 as vítimas militares. Mais 11 civis também morreram, somando 34 de domingo até aqui.

Do lado azeri, só são confirmados 20 mortes de civis. Baku negou os relatos de que a Armênia derrubou quatro drones que teriam se aproximado de Ierevan na noite de quinta, apesar de haver testemunhas da ação. Também disse que não teve um jato Su-25 abatido, conforme relatos de Ierevan.

Apesar da baixa confiabilidade dos dados de lado a lado, é possível dizer que este é o pior embate na região desde a guerra dos anos 1990. Na rodada anterior de hostilidades mais sérias, em 2016, houve menos mortos e a crise havia se encerrado após quatro dias, sob a mediação de Moscou.

A Rússia e a Turquia são os principais atores no teatro do Cáucaso desde o tempo que ambos eram poderosos impérios que por lá se encontravam em choque. Hoje os países colecionam parcerias e desavenças, como nos conflitos na Líbia e na Síria.

O Kremlin mantém uma base militar na Armênia, que apoia apesar de o presidente Vladimir Putin ter tido seu aliado Serzh Sargsyan derrubado em 2018.

Já os turcos são os fiadores políticos da autocracia de Alyiev, que também é combatida discretamente pelo Irã dados os laços entre Baku e a enorme comunidade azeri do país dos aiatolás.

Como Erdogan e Aliyev estão com sérios problemas domésticos devido à pandemia do coronavírus e à crise econômica, analistas veem mais do que coincidência no “timing” dos ataques –Baku diz que foi provocada, mas todos os relatos independentes indicam que partiu do lado azeri a agressão desta vez.

Para adensar o caldo político, a Turquia está sob fogo da União Europeia, incomodada com sua expansão sobre a bacia de hidrocarbonetos do Mediterrâneo oriental, que colocou Ancara numa rota de colisão com a Grécia. Ambos os países são parte da Otan (aliança militar ocidental), mas alimentam uma rivalidade histórica.

Assim, a França tem sido a principal crítica do que o presidente Emmanuel Macron chamou de “mentalidade guerreira” de Erdogan em relação ao Cáucaso.

Ele e Putin afirmam estar preocupados com a transferência de soldados da guerra civil síria como mercenários para Baku, patrocinados pela Turquia, que obviamente nega a ação.