Pensei que estivesse morrendo. Durante o dia, eu ficava tão cansado que meus joelhos cambaleavam. Ao dirigir, minha cabeça pesava. Meu rosto denunciava sem piedade o esgotamento físico.

À noite, eu dormia mal, com as pernas agitadas, depois acordava sobressaltado, ofegante, com o coração acelerado.

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Meu médico estava intrigado. Pediu exame de sangue, de urina, eletrocardiograma – ele cogitou que poderia ser um problema cardíaco – por causa daquelas palpitações noturnas…

Mas, não, meu coração estava bem. Meu sangue estava ótimo.

Ele pediu então uma colonoscopia. Era final de 2008, e eu tinha 47 anos – quase na hora de fazer uma de qualquer maneira. Tomei então os quatro litros de Nulytely para limpar o intestino, e o gastroenterologista poder dar uma boa olhada lá dentro.

Meu cólon estava limpo, disse o médico quando acordei. Nenhum sinal de câncer. Tampouco de pólipos preocupantes.

No entanto, havia um problema.

“Enquanto estava anestesiado, você parou de respirar num determinado momento. É bom você dar uma investigada. Pode ser apneia do sono”.

Eu nunca tinha ouvido falar nisso.

O sono é marcado por alterações dinâmicas por todo o corpo. É composto por diferentes fases e, conforme você passa por elas, sua respiração, pressão arterial e temperatura corporal caem e aumentam.

A tensão nos músculos geralmente permanece a mesma de quando você está acordado – exceto durante a fase REM, que representa até um quarto do seu sono. Durante esta fase, a tensão na maioria dos principais grupos musculares diminui significativamente.

Mas se os músculos da garganta relaxarem demais, podem bloquear as vias aéreas. O resultado é apneia obstrutiva do sono – do grego ápnoia, que significa “sem respirar”.

Na apneia do sono, seu suprimento de ar é interrompido continuamente, causando a queda dos níveis de oxigênio no sangue. É por isso que você se mexe ofegante, tentando respirar. Isso pode acontecer centenas de vezes por noite, e os danos são muitos e graves.

A apneia coloca pressão sobre o coração, uma vez que leva o órgão a bombear o sangue mais rápido para compensar a falta de oxigênio. Os níveis flutuantes de oxigênio também causam acúmulo de placas nas artérias, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, hipertensão e derrame.

Em meados da década de 1990, a Comissão Nacional de Pesquisas sobre Distúrbios do Sono dos EUA estimou que 38 mil americanos morriam todos os anos de doenças cardíacas agravadas pela apneia.

Também há evidências cada vez maiores de que a condição afete a metabolização da glicose e promova resistência à insulina – levando ao diabetes tipo 2 –, além de incentivar o ganho de peso. Sem contar no cansaço proveniente de nunca ter realmente uma boa noite de sono, que está associado à perda de memória, ansiedade e depressão.

A falta de sono também causa desatenção, que pode levar a acidentes de trânsito. Um estudo realizado com motoristas na Suécia, em 2015, mostrou que aqueles que sofrem de apneia do sono têm 2,5 vezes mais chance de se envolver em um acidente.

Também se traduz em atrasos e faltas sucessivas ao trabalho – as pessoas com apneia costumam ser demitidas com mais frequência do que as que não têm o distúrbio.

Mas, assim como aconteceu com o tabagismo durante as primeiras décadas após ser identificado como um hábito letal, há um descompasso entre os danos que a condição causa e a percepção da população de que é uma ameaça.

“Eles não conseguem associar a apneia do sono com suas muitas doenças graves relacionadas a ela”, diz um relatório encomendado pela Academia Americana de Medicina do Sono, que estima que a condição afete 12% dos adultos americanos – mas 80% não são diagnosticados.

O mesmo acontece globalmente: quase 1 bilhão de pessoas em todo o mundo sofre de apneia do sono leve a grave, de acordo com um estudo de 2019.

Os cientistas correm agora em busca de uma solução. Há desde estudos aprofundados sobre hipóxia – como o corpo reage à falta de oxigênio – até novos tipos de cirurgias e equipamentos para tratar a condição.

Mas o fato é que das cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo que sofrem de apneia do sono, a maioria provavelmente nem sequer está ciente disso, quanto mais recebendo tratamento – como era o meu caso.

Diante da possibilidade de estar enfrentando um problema de saúde ainda pouco estudado, mas potencialmente fatal, minha principal preocupação era: como posso corrigir isso?

Embora existam fatores de risco para a apneia do sono – como obesidade, pescoço ou amígdala grande, mandíbula pequena e envelhecimento –, ela não se manifesta até que a pessoa adormeça. A única maneira de diagnosticar é monitorando o sono de alguém.

Assim, no início de 2009, movido pela exaustão e pela sugestão do meu médico, marquei uma consulta na Northshore Sleep Medicine, uma clínica do sono em Illinois, nos EUA.

Fui recebido por Lisa Shives, especialista em medicina do sono. Ela deu uma olhada na minha garganta, depois sugeriu que eu fizesse uma polissonografia – exame que mede a atividade respiratória, muscular, cerebral e cardíaca durante o sono.

Voltei então para fazer o exame algumas semanas depois, numa quinta-feira às 21h.

Uma técnica me levou para um pequeno quarto, onde havia uma cama de casal e um armário. Atrás da cama, uma janela horizontal dava para uma sala de laboratório cheia de equipamentos.

Uma técnica grudou eletrodos no meu peito e na cabeça, depois me deu uma camisa para vestir, parecida com uma rede de pesca, no intuito de prender os fios no lugar.

Por volta das 22h, apaguei a luz e logo peguei no sono.

Acordei às 4h30 da manhã e, ainda meio zonzo, me ofereci para tentar voltar a dormir, mas a técnica disse que eles tinham coletado seis horas de dados, e eu podia ir embora.

Depois que vesti minha roupa, ela disse que minha apneia era “grave” e que Shives me daria os detalhes depois. Eu tinha planejado me dar de presente um bom café da manhã, mas em vez disso, fui para casa. Não estava com fome – estava com medo.

Várias semanas depois, eu estava de volta à clínica, desta vez durante o dia. Shives me mostrou uma tela cheia de rabiscos e números multicoloridos, havia um pequeno vídeo em preto e branco de mim dormindo no canto. Foi desconcertante, como ver a imagem de mim mesmo na cena de um crime, morto.

Por falar em morte, eu parei de respirar, Shives me disse, por 112 segundos – quase dois minutos.

Um nível normal de saturação de oxigênio no sangue, medido por um oxímetro de pulso, fica entre 95% e 100%. Pessoas com doença pulmonar obstrutiva crônica podem ter uma leitura perto de 80%. A minha, às vezes, caía para 69%.

Quão grave isso é? A Organização Mundial da Saúde (OMS), em um guia cirúrgico, sugere que, se a oxigenação do sangue de um paciente cair para 94% ou menos, o médico deve intervir para verificar se as vias aéreas estão bloqueadas, se um pulmão entrou em colapso ou se há algum problema de circulação.

Eu tinha poucas opções. Poderia, segundo Shives, fazer uma uvulopalatofaringoplastia, procedimento tão assustador quanto o nome: remover o tecido do palato mole e ampliar as vias aéreas na parte de trás da garganta.

Mas envolveria muito sangue, e a recuperação poderia ser longa e complicada. Shives levantou a possibilidade, mas logo depois descartou – e apresentou a segunda opção: a máscara.

Na primeira década e meia após a apneia do sono ser identificada, havia apenas uma opção de tratamento.

Você podia fazer uma traqueostomia – procedimento cirúrgico que consiste em fazer uma abertura na traqueia para permitir a passagem de ar. O procedimento oferecia alívio certo, mas apresentava complicações significativas por si só.

“Nos início, os médicos não sabiam muito”, diz Alan Schwartz, que recentemente se aposentou como professor de medicina na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA, depois de anos de estudos pioneiros sobre distúrbios do sono.

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