A principal face pública da oposição russa ao governo de Vladimir Putin, o blogueiro Alexei Navalni, foi internado nesta quinta (20) sob suspeita de envenenamento.
Ele está em coma, segundo disse no Twitter sua assessora de imprensa, Kira Iarmich. Aliados de Navalni, temendo por sua vida, querem permissão para removê-lo para ser tratado no exterior.

Navalni, um advogado de 44 anos, estava na cidade de Tomsk (Sibéria), 2.200 km a leste de Moscou, participando de reuniões com candidatos oposicionistas da eleição regional russa, que ocorrerá no mês que vem.

O líder da oposição russa Alexei Navalny – Foto: EPA

 

Às 7h17 desta manhã (21h17 de quarta em Brasília), ele foi fotografado no aeroporto de Tomsk tomando chá em um copo de papelão. O autor da foto, Pavel Lebedev, embarcaria no mesmo voo da companhia S7 para Moscou.

“Ele foi ao banheiro depois da decolagem e não voltou mais. Ele estava gritando de dor”, publicou Lebedev em redes sociais. Ele postou a foto de Navalni tomando o chá e um vídeo do atendimento dele no avião no Instagram.

A aeronave fez um pouso de emergência em Omsk, 750 km distantes de Tomsk. Lá, Navalni foi levado inconsciente para um hospital e colocado no ventilador mecânico.
“Ele está em coma. Nós assumimos que Alexei foi envenenado por algo misturado a seu chá. Foi a única coisa que ele tomou pela manhã”, escreveu Iarmich no Twitter. Mais tarde, numa live, ela disse que “não há dúvida que foi veneno”.

O Kremlin desejou pronta recuperação a Navalni. “Qualquer envenenamento terá de ser confirmado por testes de laboratório”, afirmou o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, na sua entrevista coletiva diária.

A atenção que Navalni atrai e as circunstâncias de sua internação levam inevitavelmente à memória do destino de outros opositores e desafetos do governo russo. Ele mesmo vítima anteriormente. Em 2018, durante um protesto, ele foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.

No ano passado, enquanto cumpria um dos inúmeros termos de 30 dias de prisão por protestos não autorizados, foi internado com uma reação alérgica aguda.
Iarmich lembrou imediatamente do episódio de 2019, e o correlacionou com o desta quinta.

O Kremlin sempre negou qualquer associação a ataques contra opositores. A lista, contudo, acumula casos – com um mórbido destaque à modalidade envenenamento. O mais famoso deles foi o episódio em que Alexander Litvinenko, um ex-espião, foi envenenado com a substância radioativa polônio-210 em seu chá no Reino Unido. As imagens dele agonizante, sem cabelos, no hospital, correram o mundo.

Já em 2018, o evenenamento de outro ex-espião, Serguei Skripal, e sua filha, gerou uma crise diplomática. Eles foram atingidos por um composto da Guerra Fria, o Novitchok, também no Reino Unido. Londres acusou diretamente Putin de operar em seu território e iniciou uma expulsão mútua de diplomatas com Moscou na sequência, e não mandou representantes para assistir a abertura da Copa do Mundo daquele ano na terra de Putin.

Ambos os episódios envolviam ex-espiões, cujas rixas com antigos colegas são inescrutáveis. Já a jornalista investigativa Anna Politkovskaia (2006) e o politico opositor Boris Nemtsov (2015), dois duros críticos do regime de Putin, foram mortos a tiros nas mesas circustâncias dúbias: supostos bandidos tchetchenos.

Segundo informou por WhatsApp o núcleo de ativistas moscovitas da Fundação Anticorrupção, grupo de Navalni, há o temor de que a verdadeira condição do blogueiro. “Estamos no escuro, a mulher de Alexei, Iulia, está voando para Omsk”, disse a mensagem.

Antes disso, houve dois comunicados conflitantes do hospital na imprensa russa. Num, os médicos disseram que Navalni estava em coma, mas estável. Noutro, que corria risco de morrer.
A representante regional do Ministério da Saúde russo, Tatiana Shakirova, disse a jornais russo que “o envenenamento é uma das hipóteses, mas não é possível dizer o que foi agora”.

Já a agência estatal Tass, por sua vez, informou que a polícia não considerava o caso como um envenenamento, o que gerou alarme entre os colegas de Navalni.
Segundo o site independente Meduza, a médica de Navalni, Anastasia Vasilieva, chegou a Omsk e afirmou que ele os exames de sangue do blogueiro estavam regulares, mas que não havia recebido antídotos contra toxinas. Ela informou que, por isso, pediu permissão para tentar levá-lo para o exterior.
Segundo a fundação, Navalni também trabalhava numa investigação com um site de Tomsk acerca de corrupção de autoridades locais do partido dirigente, o Rússia Unida, que dá suporte a Putin e é dominante no país.

Foram essas atividades que tornaram Navalni célebre, em especial no Ocidente. Ele surgiu como uma liderança nos primeiros grandes protestos enfrentados por Putin, em 2012.
Cinco anos depois, contudo, seu trabalho como blogueiro anticorrupção ganhou destaque nacional. Uma apuração sobre os bens do então premiê, Dmitri Medvedev, levaram a uma onda inédita de protestos nacionais – todos convocados pela internet e descentralizados.

A operação toda, como a Folha de S.Paulo mostrou em 2017, é bastante opaca. Isso levou a suspeitas de que Navalni poderia ser um peão num dos jogos de poder da Rússia putinista, mas o fato é que ele crescentemente se colocou em oposição ao próprio presidente.

Tentou concorrer ao Kremlin em 2018, mas foi impedido por causa de uma condenação judicial nebulosa. Não que tivesse muita chance: apesar de ser o mais vocal opositor de Putin, sua penetração na Rússia nunca lhe deu mais do que quase traço em intenção de votos, segundo institutos independentes.

Além disso, ele nunca teve apoio direto de opositores institucionais de Putin, integrantes de partidos estabelecidos.
O caso de Navalni imediatamente disparou alarmes em países adversários da Rússia. Os chanceleres do Reino Unido e da Lituânia expressaram grande preocupação com a notícia.