Israel anunciou que emitirá “passaportes verdes” para vacinados contra o coronavírus. O documento, com validade de seis meses, será concedido a quem tomar as duas doses da vacina e dará aos portadores vantagens como frequentar eventos esportivos e culturais, além de não precisar de quarentena ao retornar ao país do exterior.

Documentos com validade de 72 horas também serão concedidos a quem tiver teste de detecção negativo para o vírus.

Pelo ritmo da vacinação em massa no país, a maior do mundo neste momento, a demanda será grande. Cerca de 17% da população de 9,3 milhões de habitantes já tomaram a primeira dose do imunizante da Pfizer/BioNTech desde o dia 20 de dezembro.

Bem mais que outros países, como Reino Unido (1,5%) e Estados Unidos (menos de 1%). Cerca de 1,6 milhão de doses já foram administradas, principalmente em maiores de 60 anos e profissionais de saúde.

“Estamos quebrando todos os recordes”, festejou o premiê Binyamin Netanyahu, que espera vacinar 1,8 milhão de israelenses até o fim de janeiro e 6 milhões até as próximas eleições, em 23 de março. O premiê concorre no quarto pleito em dois anos, e a vacinação virou sua principal bandeira.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, recebe segunda dose de vacina contra a Covid-19 – Foto: Reprodução/Twitter

A agilidade da vacinação em Israel tem como base o tamanho diminuto do país (menor que o estado de Sergipe) e a existência de quatro sistemas universais de saúde paralelos, que atendem gratuitamente toda a população e estão acostumados a realizar tratamentos em massa em caso de conflitos ou desastres naturais.

O Exército também ajuda na complicada logística do transporte das vacinas, que precisam ficar armazenadas a -70° C.

Para o escritor e colunista Ben-Dror Yemini, o sucesso é calcado na rapidez e na informalidade dos israelenses. “Somos bons em administrar a ‘bagunça’, improvisar e encarar riscos. Enquanto na França cada vacinado tem que assinar um termo de 42 páginas, aqui as pessoas assinam uma página só e tudo demora poucos minutos”.

Yemini aponta para o fato de que Netanyahu agiu pessoalmente junto às farmacêuticas e pagou um preço mais alto, de cerca de US$ 30 por dose, o dobro do valor pago pelos europeus. “Pode-se criticá-lo por muita coisa, mas nesse caso ele agiu certo. Uma semana a menos de lockdown no país já paga as vacinas mais caras.”

Apesar do otimismo e da eficiência, três problemas ameaçam a imunização em Israel. O primeiro é que faltam vacinas. O ritmo de 150 mil inoculados por dia levou ao fim do primeiro lote na primeira semana de janeiro. Por pressão de Netanyahu, a Pfizer aceitou enviar mais 1 milhão de doses no domingo (10). Em troca, pediu às autoridades israelenses que forneçam estatísticas que ajudem a entender melhor a eficácia de sua vacina. Israel seria, então, um “modelo” a ser estudado.

O segundo problema é a variante britânica do vírus, que levou à multiplicação dos casos de Covid-19. Os hospitais registram sobrecarga, há mais de 8.000 novos infectados por dia, e o número de mortos beira os 30 (no total, morreram 3.596 mil pessoas).

Como há um intervalo de 21 dias entre a aplicação das duas doses da vacina da Pfizer/BioNTech, o país foi obrigado a decretar, a partir da meia-noite de quinta-feira (7), um lockdown mais severo do que o em vigor desde o fim de dezembro, com fechamento de escolas e muitas restrições.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Outro problema é a população super-religiosa, os ultraortodoxos, que são 12% dos cidadãos. Eles demonstram hesitação em suspender aglomerações, aulas em escolas e seminários rabínicos. Algo semelhante acontece com a minoria árabe-israelense (20% da população).

Enquanto Israel imuniza sua população, a vacinação ainda não começou na Cisjordânia (2,8 milhões de habitantes) e na Faixa de Gaza (2 milhões).

A ONG Anistia Internacional divulgou nota na quarta-feira (6) exigindo que Israel “pare de ignorar suas obrigações internacionais enquanto força ocupante e atue imediatamente para assegurar que as vacinas de Covid-19 sejam fornecidas igualmente aos palestinos da Cisjordânia e na Faixa de Gaza”. A nota ignora que Israel não ocupa Gaza há 15 anos e que o grupo islâmico Hamas, que controla a região, não reconhece Israel.

O ministro da Saúde Yuli Edelstein disse que a prioridade são os cidadãos israelenses, mas que é interesse do país conter o vírus no lado palestino. Israel já colabora com o Ministério da Saúde palestino desde o começo da pandemia, com treinamento e repasse de máscaras, seringas e equipamentos.

Israel ocupa a Cisjordânia e Jerusalém Oriental desde 1967 –deixou Gaza em 2005. Pela Convenção de Genebra, é responsável pelo bem-estar dos palestinos dessas regiões.

Mas, em 1995, Israel e Autoridade Nacional Palestina assinaram os Acordos de Oslo 2, criando o Ministério da Saúde palestino, que se tornou único responsável pela função, com exceção dos 300 mil palestinos de Jerusalém Oriental, que têm cobertura médica em Israel. Segundo esses tratos, os dois governos devem coordenar esforços em vacinação.

Mesmo assim, e apesar dos protestos de ONGs, a Autoridade Palestina preferiu, ao menos publicamente, não depender de Israel para a imunização na Cisjordânia. Em Gaza, o Hamas certamente não pediria assistência.

Os palestinos negociam diretamente com a Rússia, para receber a Sputnik V, com a farmacêutica AstraZeneca e conta com a iniciativa Covax, da OMS, um programa que busca viabilizar imunizantes a preços mais acessíveis.

O diretor-geral do Ministério da Saúde palestino, Yasser Bouzieh, disse que milhões de doses por meio da Covax devem chegar em fevereiro. O mesmo pode acontecer com a vacina Oxford-AstraZeneca.

“Eles querem demonstrar independência. Temos que respeitar essa decisão”, diz o advogado Daniel Pomerantz, chefe-executivo da ONG Honest Reporting. “Se não há coordenação ou um pedido formal, Israel está proibido de fazer algo à revelia. Você pode imaginar o que aconteceria se Israel fosse vacinar palestinos à força?”

A TV israelense Kan 11 revelou que a Autoridade Palestina teria pedido 10 mil doses a Israel para imunizar equipes médicas. Hussein al-Sheikh, responsável pela coordenação civil com os israelenses, afirmou que Israel se recusou a repassar os imunizantes, mas fontes israelenses afirmaram que o país já forneceu dezenas de doses aos palestinos, secretamente.

Os palestinos também apresentam alto índice de hesitação quanto à vacina, em meio a ondas de notícias falsas e teorias conspiratórias. Uma vacina fornecida por Israel poderia ser mais um motivo para afastar os céticos.