“É pior, muito pior do que você imagina.” Esta é a primeira frase do livro “A Terra inabitável – uma história do futuro”, em que o jornalista americano David Wallace-Wells relata com requintes de crueza as consequências da mudança climática.

Wallace-Wells, que participa da Flip deste ano, chegou à conclusão de que sutileza não funciona. Resta usar o medo para que as pessoas finalmente acordem para a gravidade do que está acontecendo em decorrência do aquecimento global.

O jornalista americano David Wallace-Wells, autor de “A terra inabitável – uma história do futuro”, participa da 17ª edição da Flip – (Foto: Beowulf Sheehan/Divulgação)

Longe de ter o tom excessivamente científico ou sonífero de algumas obras que abordam meio ambiente, “A Terra inabitável” mais parece um romance de terror. Página após página, o livro apavora aqueles incautos que se achavam imunes aos efeitos da crise climática porque, afinal, moram longe da costa e não serão afetados pela elevação do nível do mar.

“Eu acredito que o medo pode ser mobilizador e motivador, especialmente com a maioria da população, que é complacente em relação aos efeitos das mudanças climáticas”, disse Wallace-Wells à Folha.

Segundo ele, no fim do século, se não mudarmos de rota, o PIB global será 30% menor do que seria sem mudança climática –perda equivalente a duas vezes a grande depressão de 30.

Haverá simultaneamente seis desastres causados pelo clima. A produtividade da agricultura será a metade da atual –ou seja, plantando em uma área equivalente, só conseguiríamos colher a metade. A malária passará a ser endêmica até no círculo ártico. Ainda mais cedo, em 2050, grandes cidades no Oriente Médio e na Índia, como Calcutá, Delhi, Meca, serão inabitáveis por causa do calor.

O livro nasceu de uma reportagem feita por ele para a revista New York em julho de 2017, que viralizou. Na época, ele foi acusado por críticos de ser alarmista e exagerado. Mas ele defende sua estratégia, dizendo que a mensagem sobre aquecimento global não tem sido eficiente como deveria.
“Por muito tempo, os jornalistas eram cautelosos demais, com medo de assustar seus leitores, então não foram transparentes ao relatar o que a comunidade científica estava dizendo sobre a velocidade da mudança climática e a seriedade dos efeitos”, disse à Folha. “Do ponto de vista básico do jornalismo, é muito problemático editar o que sabíamos sobre o futuro do mundo antes de apresentar isso ao público, eu não sou o tipo de jornalista que se sente confortável com isso.”

Segundo o jornalista, desde a divulgação do relatório do IPCC da ONU no ano passado, apelidado de “Relatório do Apocalipse”, jornalistas estão sendo mais claros. E ele acredita que isso vem surtindo efeitos.

“O compromisso da UE em gastar cerca de um quarto do orçamento em medidas de mitigação de mudança climática, meta de zerar emissões líquidas no Reino Unido até 2050, candidatos democratas nos EUA falando sobre o New Deal verde e competindo para ser o mais responsável com clima –tudo isso é progresso produzido por uma perspectiva mais urgente e alarmista.”

Wallace-Wells, que morou no Brasil entre 2004 e 2005, diz estar muito preocupado com a política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.
“Como todo mundo olhando de fora, estou muito, muito preocupado com o estado da Amazônia, parte incrivelmente importante do nosso ecossistema global e uma das maiores razões para nós termos o ar que respiramos”, diz. “A Amazônia é um dos instrumentos mais poderosos que temos na luta contra mudança climática. Temo que esse instrumento se enfraqueça dramaticamente por causa dos planos de Bolsonaro de desenvolver a Amazônia.”

Indagado sobre o ceticismo de integrantes do governo Bolsonaro sobre aquecimento global -o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, questionou as medições de temperatura usadas em estudos- o jornalista afirmou: “Em certo nível, ceticismo é bom, é assim que a ciência funciona, mas mas quando se leva em conta o volume inacreditável de estudos sobre o tema nas últimas décadas, resultados foram reconfirmados em condições e locais diferentes, por milhares de cientistas, é difícil entender. Mesmo que metade de todos esses estudos estivessem errados, o que é não é muito plausível, ainda assim teríamos um cenário horroroso para o futuro.”

Wallace-Wells diz não entender porque muitos chefes de Estado e governo vêm se posicionando contra medidas de mitigação climática. “O caso de Vladimir Putin é compreensível, já que a Rússia é um dos poucos países que sairão ganhando com aquecimento global, que deve aumentar a produtividade da agricultura por lá; já Donald Trump, não acho que ele não acredite em aquecimento global, ele tem uma estratégia de deixar os outros países fazerem o trabalho duro enquanto os EUA continuam se comportando mal , ele vê vantagem econômica nisso.”

E o Brasil? “No caso de Bolsonaro, acho que se trata de verdadeira ignorância, ele se considera um outsider, que fala as verdades e despreza o senso comum das elites”, afirma. “Mas a motivação dessas pessoas realmente não é importante. O importante é que políticas eles implementam. E eles estão alinhados, infelizmente em um momento em que temos muito pouco tempo para agir e impedir catástrofes climáticas.”