Diante da repercussão sobre a morte de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, espancado por dois seguranças do supermercado Carrefour, em Porto Alegre (RS), o professor Josafá Moreira da Cunha refletiu sobre como o racismo opera no Brasil. Em entrevista à Banda B nesta sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, o mestre e doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) afirmou que é fundamental a sociedade adotar posturas antirracistas, caso queiramos superar questões como esta.

“Esta situação isolada de racismo reflete o racismo estrutural e sistêmico que atinge a sociedade em proporções pandêmicas. Ele não está apenas presente nos Estados Unidos, como no caso de George Floyd, mas sim no nosso cotidiano enquanto sociedade. Reconhecer isto é fundamental se quisermos superar este racismo, dizendo que ele não é apenas um problema. Mas indo bastante além, adotando posturas comprometidas contra toda forma de discriminação”, criticou.

 

Foto: Reprodução/Instagram

 

O professor ainda comentou sobre as reações sociais diante da morte de João Alberto. Cunha citou, por exemplo, a fala do vice-presidente Hamilton Mourão, ao dizer que “não existe racismo no Brasil”. Para ele, neste momento, o mais importante é realizar a prática da empatia. O professor também sugeriu que as pessoas se reconectem à realidade de milhões de brasileiros e brasileiras que estão sofrendo os efeitos perversos do racismo.

“Precisamos ver algumas das respostas observadas no dia da Consciência Negra e diante da repercussão de uma notícia de um assassinato. Ainda assim, há discursos que buscam minimizar o sofrimento da população negra. Seja em efeitos diretos de ataques explícitos motivados por questões raciais, ou pelo racismo estrutural onde as políticas públicas atendem de forma desigual a população negra”, pontuou.

Pessoas brancas e veículos de comunicação

Ao ser questionado sobre as posturas antirracistas que a sociedade deve exercer, Cunha citou a filósofa estadunidense Angela Davis para defender o envolvimento do restante da sociedade com as causas negras.

“É preciso assumir posturas em defesa dos direitos humanos, da melhoria da qualidade de vida das populações. Em especial, aquelas que estão em condições de vulnerabilidade. Portanto, pessoas brancas têm um papel muito importante. Se hoje a nossa sociedade está condicionada para que as lideranças sejam predominantemente brancas, então são elas que devem assumir este papel”, iniciou.

Portanto, o doutor em psicologia disse esperar que os acionistas do supermercado envolvido na morte de João Alberto adotem posições que quebrem estes problemas. “Os diretores e empresas parceiras têm que tomar posições de modo que o racismo sistemático seja reduzido na sociedade. Mais do que desconstruir o racismo, eles precisam construir oportunidades para que todos na sociedade prosperem e tenham uma vida plena”, completou.

Crianças

O professor aproveitou o momento para lembrar que nesta segunda-feira (20) também é comemorado os 31 anos sobre a Convenção Mundial dos Direitos das Crianças proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU).  Para ele, é uma boa oportunidade de pensar sobre como formamos a nossa sociedade.

“Qual é a perspectiva de futuro das crianças negras para que elas não possam apenas sobreviver neste país”, questiona. E continua: “Uma sociedade que deixa mais da metade das crianças negligenciadas por conta deste racismo estrutural, é uma sociedade que vai permanecer subdesenvolvida. Temos que reconhecer que a grande parte da nossa população é negra e ela precisa ser respeitada em seus direitos”.

No fim, para o professor da UFPR, a única forma de promover uma sociedade mais justa e próspera é educando as crianças para respeitar a diversidade, as diferenças, e celebrar isto como a grande riqueza da nossa nação.

“Isto me faz pensar sobre como estamos formando os líderes do nosso futuro. Que possamos formar líderes que desenvolvam empatia. Que olhem situações de injustiças e tenham o desejo por uma sociedade mais justa. E não que apenas se conformem por ter apenas seus direitos garantidos. Por meio da educação, nós podemos garantir a cidadania e desenvolver pessoas comprometidas com uma sociedade cada vez mais justa”, concluiu.