No sétimo dia após o apagão que afetou 90% da população do Amapá -782 mil pessoas- o racionamento de energia prometido pela CEA (Companhia Energética do Amapá) não está funcionando em algumas partes do estado, onde muitos moradores ainda enfrentam a falta de energia e a escassez de água.

O apagão foi provocado por um incêndio nos transformadores de uma subestação de distribuição de energia, na última terça (3), e somente no sábado (7) o fornecimento começou a ser normalizado. Porém, com apenas 65% da carga do estado recuperada, a CEA anunciou a implementação do racionamento, com rodízios de seis horas no abastecimento de cada região.

Nem todas as áreas do estado estão sendo atendidas conforme o cronograma da CEA. Enquanto trechos de bairros das zonas norte, oeste e sul de Macapá não chegaram a ter fornecimento ininterrupto de energia por seis horas como prometido, outras regiões do estado, como o Distrito da Pedreira, que reúne mais de 20 comunidades quilombolas na Região Metropolitana de Macapá, continuam sem energia.

O descumprimento do rodízio provocou pelo menos 18 protestos neste fim de semana, segundo a Polícia Militar do estado. Um deles foi no Distrito da Pedreira: moradores do quilombo Casagrande interditaram a rodovia AP-070 por cerca de duas horas. A energia da comunidade foi restabelecida ainda no sábado, mas o fornecimento não durou nem uma hora, contou o diretor da Associação de Moradores do Quilombo do Curiaú, o afroempreendedor Willy Miranda, 34.

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Segundo ele, o Curiaú é o único dos quilombos da região onde a energia foi restabelecida e o rodízio está sendo cumprido. “No Casagrande, a energia ficou só 40 minutos e foi desligada. E eles já estão há mais de 24 horas sem energia desde então”, relatou.

A situação é a mesma nas cerca de 20 comunidades quilombolas que ficam no Distrito da Pedreira, onde mais de 6.000 pessoas ainda estavam sem energia até a conclusão desta reportagem e, consequentemente, sem acesso a água potável. E em outras comunidades quilombolas de regiões mais distantes da capital, como Matapi e Maruanum, o cenário é ainda pior, conta Willy.

“Todos estão sem energia e, na maioria dessas comunidades, a água vem de poço, então, sem energia, eles precisam tirar a água do poço manualmente, com baldes, ou ir até o rio para buscar água. Mas o maior problema continua sendo a alimentação. Sem ter como refrigerar, a saída tem sido salgar os alimentos para conservá-los, e isso pode ter reflexos negativos na saúde, sobretudo dos mais idosos e hipertensos”, argumentou.

Alguns distritos e comunidades mais distantes, como Bailique, a 12 horas de barco de Macapá, também seguem sem energia, contou a fotógrafa Dayane Oliveira, 29. “E lá a situação é um pouco mais complicada porque, como a água do mar invade o rio Amazonas, sem a energia para funcionar o poço, as famílias ficam sem acesso a água potável”, lembrou.

O problema não é uma exclusividade dos distritos do interior ou das comunidades quilombolas. A técnica em saúde bucal Adriana Xavier, 34, relatou que nem todos os bairros de Macapá, capital do Amapá, estão sendo atendidos pelo rodízio de seis horas de energia.

“Na minha casa está funcionando, mas minha sobrinha mora em um [conjunto] habitacional do governo [Macapaba, no bairro Infraero 2] e lá eles só têm água no início da manhã”, relatou Adriana.

No bairro onde mora sua sobrinha, na zona norte, o fornecimento de energia deveria ocorrer das 0h às 6h e das 12h às 18h, segundo cronograma da CEA. O mesmo deveria estar acontecendo nos bairros Marabaixo 2 e 3, na zona oeste, e no bairro Muca, na zona sul, mas moradores relatam que, em alguns trechos desses bairros, o fornecimento durou menos de quatro, até duas horas ininterruptas, enquanto os períodos sem energia chegaram a durar até 12 horas.

No último sábado, a Justiça Federal no Amapá deu prazo de três dias para que a empresa Isolux solucione o problema de falta de energia elétrica no estado, sob pena de multa de R$ 15 milhões. O prazo acaba nesta terça (10), quando está prevista uma inspeção judicial na subestação.

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O diretor-presidente da CEA, Marcos Pereira, disse que 65% da carga do estado foi restabelecida ainda no sábado, mas que 15% dela é destinada a manter o fornecimento de energia 24 horas por dia a serviços essenciais, como unidades de saúde, companhia de água, segurança pública, rede bancária e companhias telefônicas.

Segundo ele, o restante é distribuído pelo rodízio, mas há problemas pontuais. “Alguns problemas na rede elétrica ocorreram, como ocorreriam se a energia estivesse normal. Pode ser que o consumidor esteja sofrendo alguns problemas que não são próprios do racionamento”, disse.

Pereira afirma ainda que dificuldades de comunicação levaram localidades no interior do estado a não serem incluídas no rodízio.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), o órgão instituiu um gabinete de crise com a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) e o ONS (Operador Nacional do Sistema) para restabelecer o fornecimento de energia “o mais rápido possível”.

A pasta informou que o MDR (Ministério do Desenvolvimento Regional) reconheceu situação de emergência para ações de socorro e assistência social e que as Forças Armadas estão apoiando as ações, com o envio de geradores de energia, combustíveis, alimentos e profissionais de saúde, uma vez que o Amapá vive um aumento nos casos de Covid-19, que levou a uma ampliação das restrições de circulação no estado, determinado por um decreto publicado dia 4 de novembro.