O Grupo Vector, responsável pela segurança terceirizada da loja do Carrefour em Porto Alegre, onde João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado e morto por dois seguranças na noite desta quinta-feira (19), tem em seu quadro societário dois policiais militares e um policial civil e atende outras varejistas, como Extra, Atacadão, Lojas Americanas e BIG (Walmart).

A empresa, sediada no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo, tem entre seus 11 sócios os PMs Simone Aparecida Tognini e Fabio da Silva Riobranco, além de Luiz Okasima, policial civil, registrado como fotógrafo técnico do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) de SP. A firma opera em várias cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e Porto Alegre.

Em seu site, o grupo se denomina uma das “empresas líderes no segmento de segurança e serviços terceirizados”. Também afirma que seleciona criteriosamente os colaboradores e que “todos passam por treinamentos periódicos de qualificação”. A página está fora do ar.

O grupo também presta serviços para a loja de construção C&C, a construtora Cyrela, as joalherias Vivara e H.Stern, a fabricante de pneus Pirelli e para a rede de hotéis Best Western.

Além do serviço de segurança, eles ainda atuam em outras áreas de suporte ao comércio, como monitoramento por câmeras, cercas elétricas, limpeza, controle de acesso, telefonistas, motoristas e manobristas.

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Segundo a Constituição Federal, em seu artigo 37, inciso 16, funcionários públicos, como policiais militares, são proibidos de acumularem cargos remunerados –como chefiar ou comandar áreas em empresas de segurança.

Além disso, o artigo 13 do Regulamento Disciplinar da Polícia Militar de São Paulo, em seu item 27, proíbe que o militar da ativa tenha sociedades com fins lucrativos.

O espancamento no Carrefour teria acontecido após uma briga da vítima, conhecido como Beto Freitas, com uma funcionária do supermercado. Ela chamou os seguranças, que levaram Beto, um homem negro, para fora da loja, onde o espancaram até a morte.

Os seguranças Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva foram detidos e presos em flagrante por homicídio qualificado. Ambos são funcionários da Vector. A reportagem não localizou seus advogados de defesa.

O caso já tem sido comparado com o assassinato de George Floyd, um homem negro morto por sufocamento nos Estados Unidos em uma abordagem policial. “Não consigo respirar”, disse Floyd, enquanto era contido.

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No caso de Freitas, os seguranças chegaram a ficar sobre as costas da vítima, segundo a delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Porto Alegre. Esse tipo de contenção dificulta a respiração.

Em junho, no Atacadão em Salvador, um rodoviário acusou os seguranças de agressão após ser acusado de roubar um pedaço de charque e uma caixa de chocolates. Ele afirma ter sido levado para uma sala, onde foi agredido com uma barra de ferro.

No início do ano passado, em uma loja do Extra no Rio de Janeiro, Pedro Gonzaga, um jovem negro de 19 anos, também morreu após ser sufocado por um segurança do estabelecimento.

Em nota sobre o assassinato de Freitas, o Grupo Vector afirmou que “lamenta profundamente os fatos ocorridos na noite de 19/11/2020, se sensibiliza com os familiares da vítima” e que “não tolera nenhum tipo de violência, especialmente as decorrentes de intolerância e discriminação”.

Informa ainda que todos seus colaboradores recebem “treinamento adequado inerente as suas atividades, especialmente quanto à prática do respeito às diversidades, dignidade humana, garantias legais, liberdade de pensamento, ideologia política, bem como à diversidade racial e étnica”.

A empresa também disse que iniciou procedimentos para apuração interna dos fatos e que tomará as medidas cabíveis, estando à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.