O isolamento social é uma medida efetiva para garantir que crianças e adolescentes estejam entre as faixas etárias menos infectadas pelo coronavírus, mas o afastamento também tem ocasionado outras preocupações. Entre elas, está uma de médicos pediatras: que é a procura tardia por outros atendimentos médicos. Nesta quarta-feira (19), o infectologista pediátrico Victor Costa Junior, do Hospital Pequeno Príncipe, pediu atenção para o aparecimento de doenças nos pequenos.

“Muitos pais, com medo de tirar a criança de casa, não estão levando as crianças nas consultas. É uma queixa dos médicos, os consultórios estão vazios. O pronto-atendimento do hospital que trabalho, que é uma referência em Curitiba, tem uma média de 17 mil crianças atendidas por mês no hospital. Somente em agosto, o número caiu para 1,6 mil atendimentos, mostrando que realmente, as crianças estão ficando em casa e não estão ficando doentes. Só que quando estão vindo ao hospital, estão vindo de forma tardia”, disse Costa em entrevista à Associação de Emissoras de Radiodifusão do Paraná (AERP).

O médico Victor Costa Junior concede entrevista ao programa Em Pauta, da AERP, na manhã desta quarta-feira (19). (Foto: Assessoria/AERP)

Segundo Costa, essa demora para atendimento, pode dificultar o tratamento de saúde das crianças. “Hoje, uma estatística cruel que nós vemos nos hospitais são os diagnósticos tardios. São pneumonias e apendicites mais graves que estão chegando para nós, porque os pais seguraram o paciente por muito tempo em casa. Há casos graves por conta da automedicação. Então, a gente desaconselha a automedicação em casa, e na presença de sintomas diferentes, entre em contato com o pediatra e o pronto-atendimento”, reforçou.

Ele lembrou que, logo após o inicio da pandemia, duas realidades preocupantes em relação as crianças passaram a ser vistas pelos médicos. A primeira, está no abandono das consultas de rotina. Por sua vez, o abandono do calendário vacinal é a segunda situação ressaltada pelo médico.

Saúde mental

A saúde mental das crianças também foi tema da entrevista. De acordo com Costa, é importante atenção. “Realmente, hoje, eu creio que a saúde mental vai ser a principal sequela nas crianças que estão há mais de quatro meses trancadas devido à quarentena”, alertou.

O médico ainda deu um recado ao citar que é importante diagnosticar os problemas porque os transtornos da saúde mental são exteriorizados de várias formas nos pequenos. “É nesta hora que surge o aumento do peso, os quadros de depressão e ansiedade, o sono irregular. Então, tudo isto é resultado da angústia da criança ficar trancada em casa”, destacou.

Um dado que Costa ressaltou durante sua fala é em relação ao uso crescente de estímulos visuais, como: vídeos, aplicativos e equipamentos eletrônicos para entreter os menores. Isto acelera o metabolismo cerebral das crianças e favorece no surgimento dos distúrbios. “Então, o adolescente; a criança escolhe ficar sentado na frente da televisão, quando poderia fazer alguma atividade física ou um outro tipo de brincadeira que seja mais lúdica”, ressaltou o infectologista.

Dicas

Questionado sobre como fazer para que este hábito não seja algo predominante na vida das crianças, o médico exemplificou uma técnica usada para estabelecer uma rotina. O objetivo é dizer aos menores que estar em quarentena não significa estar em férias.

“Dar banho na criança antes da aula, vestir o uniforme nela e coloca-la na frente do computador. Isto estabelece que ela tem horário da escola. O importante aqui é dizer que as rotinas precisam ser mantidas. Porque, no futuro, a recuperação da “vida normal” poderá ser muito traumática para os dois lados: os pais e as crianças”, disse.

Costa também chamou atenção para as contaminações. Apesar deste grupo não estar entre os mais vulneráveis com o coronavírus, isto não deve representar uma queda nas ações de prevenção, ainda mais em casa.

“O que a gente pôde observar nos casos em crianças, é que no inicio da pandemia, pacientes com comorbidades estavam sendo internados. Depois de um tempo, este grupo ficou menor porque, agora, os pacientes internados que não possuem nenhuma doença base estão se contaminando em casa. Esta situação é resultado de um relaxamento dos pais que acabam saindo e acham que a residência é um ambiente seguro. Quando, na verdade, ele também é possível de ser contaminado. Então, é preciso manter a higiene em casa”, reforçou.

Volta às aulas

Uma pesquisa do Datafolha mostrou na última segunda-feira que 79% dos brasileiros acreditam que a possível volta as aulas irá agravar a pandemia no Brasil. No Paraná, existe o debate mediados pelas Secretárias de Saúde e Educação para que descobrir a melhor maneira de fazer a retomada do ensino presencial no Estado.

Costa comentou o assunto e destacou os dois lados da moeda. “É um assunto extremamente delicado de ser abordado porque hoje nós temos duas necessidade distintas. A primeira, é a necessidade da volta para as crianças terem convívio social. Com o afastamento, houve o aumento da violência, os riscos de gravides na adolescência e quadros de depressão e ansiedade. Então, o aspecto social é este”, inciou o raciocínio.

Porém, o infectologista foi pontual ao dizer que nenhum modelo de volta as aulas dará certo se não houver a colaboração da comunidade em relação as possíveis normas estabelecidas pelas autoridades. Segundo Costa, inclusive, não haveria como segurar uma segunda onda de contágios.

“Em relação a doença, existem vários modelos no mundo que foram testados. A maioria deles híbrido. A grande maioria, respeitando o distanciamento, isolamento e higienização dentro da escola. Mas não adianta a escola estar 100% higienizada, todos usando máscara, com distanciamento, tendo um número reduzido de alunos em sala, se a partir do momento que a criança estar exposta no ambiente domiciliar. Portanto, se não houver este sincronismo com a escola e a comunidade/família não tem como segurar uma segunda onda do coronavírus”, opinou.