Perder um ente querido nunca é fácil, com a pandemia esse processo se tornou ainda mais doloroso. De acordo com o Consórcio de Veículos de Imprensa, até esta quinta-feira (2), o Brasil já havia perdido cerca de 520 mil vidas para a Covid-19. Como a velocidade de vacinação ainda não é suficiente para uma redução significativa na transmissão do vírus, a tendência é que o número de vítimas continue aumentando nas próximas semanas.
- Se eu tomar a vacina contra a Covid-19, estou imune até quando?
- Por que as vacinas contra a Covid-19 podem causar efeitos colaterais?
- Como evitar as doenças de inverno em tempos de Covid-19?
Milhares de famílias brasileiras estão sendo obrigadas a passar por um processo de luto ainda mais difícil. Já que com a Covid-19 não se pode acompanhar os últimos dias do indivíduo que está em estado terminal por conta do vírus. Como o Sars-CoV-2 é de propagação muito rápida, qualquer pessoa que contraí-lo precisa ser imediatamente isolada. Com isso, no caso de complicações pela doença, não é possível que o familiar faça uma despedida do ente querido, o que pode dificultar na concretização da perda.
De acordo com a psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Joanneliese Freitas, as perdas pela Covid-19 se tornaram mais difíceis porque um familiar não pode estar ao lado da pessoa que ama durante seus últimos momentos, como acontece no caso de perdas por outras doenças. Com isso, esse familiar acaba sendo tomado por um sentimento de impotência que é devastador.
“As vezes só de estar junto, segurar na mão, falar uma palavra de conforto, fazer carinho, isso nos da a sensação de que a gente está fazendo alguma coisa. Sempre tem o aspecto de acompanhar o pior”, diz
Na tentativa de viabilizar a manutenção da saúde mental e a dignidade dos pacientes, os profissionais de saúde costumam criar estratégias de contato remoto por meio de chamadas de vídeos, áudios e cartas. Essa é a importância dos cuidados paliativos em tempos de pandemia. Essa técnica tem sido utilizada quando os pacientes estão em estágio terminal por conta de complicações em razão do vírus, tudo com a intenção de oferecer dignidade e diminuição de sofrimento ao familiar. Com isso, as equipes de saúde também ajudam as famílias em como lidar com a despedida de uma pessoa querida.
Respeitar as próprias emoções
Para Joanneliese, cada pessoa reage de um jeito ao perder um ente querido. Além disso, todas tem um tempo diferente para absorver a perda. Em um primeiro momento, a especialista recomenda que quem teve que lidar com o falecimento de um familiar pela Covid-19, não repreenda o sentimento e procure viver o luto. Afinal, se o indivíduo tentar esconder a sua emoção, é possível que esse sofrimento transborde no futuro.
De acordo com a psicóloga, é muito importante que cada pessoa enlutada procure reconhecer suas próprias emoções, para que assim, possa descobrir qual estratégia usar para lidar com o luto. Segundo ela, tudo vai depender da relação que se tinha com a pessoa que faleceu, da rede de apoio que se tem após a perda, da cultura religiosa, entre outros.
“Na verdade a gente não tem uma fórmula pronta. Há algumas coisas que funcionam bem para algumas pessoas e são terríveis para outras”, afirma
Além da aceitação dos próprios sentimentos, a psicóloga sugere que quem está lidando com a perda olhe para momentos de dificuldade que são anteriores a perda. A ideia é pensar em formas de superar uma dificuldade atual. Ademais, ela recomenda que o enlutado procure por pessoas confiáveis que podem acolhe-lo sem que ele seja julgado por causa do luto.
“Se você não tem a sua volta essa possibilidade, procure um grupo de acolhimento, um suporte, onde você possa dividir o seu luto sem ser julgado ou discriminado”, diz
Joanneliese ressalta que no luto não há fases ou tempo específico que a pessoa enlutada pode levar sentindo uma determinada emoção. Segundo ela, cada um lida com a perda de uma forma. “Importante a gente se consultar e se perceber um pouco mais para ver qual sentimento faz sentido para gente nesse momento”, afirma.
Formas de lidar
De acordo com a psicóloga, o luto não deve ser encarado por meio de frases “bola pra frente”, “isso vai passar”, afinal, para uma pessoa que perdeu um ente querido recentemente, não há como simplesmente “seguir em frente”. Segundo ela, é preciso entender que o luto “tem um tempo e não passa de uma hora pra outra”.
“O luto não tem uma resolução como a gente acha que tem. A gente acha que é esquecer e bola pra frente, mas como a gente esquece alguém que faz parte do que eu sou?”
A especialista aponta que o principal desafio da pessoa enlutada precisa estar em como se relacionar de outra forma com um indivíduo que faleceu. Nesse caso, a questão não é esquecer do outro, mas sim sacramentar de que forma essa pessoa que morreu vai continuar fazendo parte da vida.
“Na hora que eu sinto um cheiro, o toque que lembre daquela pessoa, o luto, é quase que como um tsunami, parece que é terra arrasada e você tem que reconstruir“
Luto nunca vai embora
Para Joanneliese Freitas, o luto nunca vai embora, mas sim diminui de intensidade ao longo do tempo. Segundo ela, as ondas do luto que aparecem como um tsunami continuarão aparecendo no dia a dia, mas ficarão mais calmas com o passar dos anos.
“Vai ficando mais calmo, em alguns anos você ainda vai lembrar, ter a experiência de sentir aquela falta ou dor”, diz
De acordo com a psicóloga, essas ondas costumam aparecer quando é aniversário da pessoa ou há uma data comemorativa sem a presença dela. Essas “revisitas” no pensamento normalmente são de boas lembranças em momentos vividos junto ao indivíduo que faleceu. “Lembranças boas permanecem até mesmo no começo e é por isso que dói”, afirma.
Por fim, a professora ressalta que, ao longo do tempo, a principal mudança em relação ao luto está na forma de lidar com as boas lembranças, no entanto, o luto e a dor da perda nunca vão embora. “O luto não termina, mas ele se modifica e nos revisita ao longo da vida”.
UFPR acolhe pessoas em luto
A professor Joannelise informa que a UFPR está acolhendo quem perdeu familiares e pessoas queridas para a Covid-19. O projeto de extensão batizado de “Luto: vivências e possibilidades”, é vinculado ao departamento de psicologia e oferece dicas, sugestões, eventos online e até grupos de acolhimento para pessoas que precisam lidar com o luto de uma grande perda.
Acompanhe o projeto e suas atualizações:
Facebook: https://www.facebook.com/lutopsicologiaufpr/
Instagram: https://www.instagram.com/lutopsicologiaufpr/
Para ter acesso as cartilhas: https://manylink.co/@LutopsicologiaUFPR
