Em uma era de tanta conexão, muitas vezes o ser humano acaba se isolando, criando dependência tecnológica das redes sociais e desenvolvendo transtornos psiquiátricos. Atualmente, são 221 milhões de celulares ativos no Brasil e 152 milhões de usuários de redes sociais — o equivalente a 70,6% da população, segundo o Digital 2023 Global Overview Report.

O país vive tão conectado que até se tornou vice-líder mundial em dependência tecnológica, ficando atrás apenas das Filipinas. O ser humano está sempre conectado, on-line e cercado por conteúdos, mas, ao mesmo tempo, sozinho e isolado, às vezes, até doente.
Os dados são alarmantes. É comum que um indivíduo passe 9 horas por dia e 66 horas por semana conectado. Ou seja, mais da metade do tempo acordado (56%) está no mundo virtual, levando em consideração que esta pessoa fique acordada 16h por dia. Esse número representa 2,5 dias por semana mergulhado em telas.
A consequência desse novo modo de vida? Uma população com a maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, marcada por um fenômeno denominado de Fear Of Missing Out (FOMO), síndrome que nasce do medo de ficar de fora, principalmente do mundo tecnológico.
Geração iGen e a era digital
A chamada geração iGen, que já nasce imersa no digital, representa alguns efeitos desse comportamento. Jovens com milhares de amigos nas redes, mas nenhum vínculo real. Um indivíduo pode ter mais de 5 mil amigos na internet, mas nenhum amigo fora das telas.
O cenário piora ainda mais quando o estado emocional entra para o jogo. Sem vida real, essa geração começa a sentir a frustração, o isolamento social e a solidão, além de se tornar cada vez mais intolerante. Segundo o levantamento, 8 em cada 10 pessoas relatam se sentir sozinhas.

Segundo Paulo Hansted, empreendedor do segmento de inovação, a iGen é vítima de todo o crescimento exponencial do uso de telas.
“Situação catastrófica, crescente, silenciosa que ninguém fala. A questão é muito grave. Não é um acidente, é uma opção”
afirma.
Em maio de 2023, o cirurgião geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, classificou oficialmente a solidão como epidemia. Entre os jovens de 16 a 24 anos, as taxas de depressão quadruplicaram nos últimos 10 anos em 36 países, incluindo o Brasil, aponta o Monitoring the Future Survey.
A vida imersa na internet se agrava com o cyberbullying, os algoritmos tóxicos e a cultura de comparação virtual. O resultado é um número devastador do aumento da taxa de suicídio. 45% de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos; e 49% entre 15 e 19 anos – equivalente a 9 aviões boeing 737 por ano, segundo o Ministério da Saúde 2012 – 2021.
As meninas são mais afetadas nesse cenário. 3 em cada 5 meninas adolescentes relatam sentir-se tristes ou sem esperança e 1 em cada 3 já pensou em tirar a própria vida. O aumento é de 60% entre 2011 e 2021.
Tecnologia, sociedade e governo
Além do impacto emocional, essa onda de excesso de consumo das redes sociais também afeta a economia e a sociedade.
Paulo se dedicou os últimos 10 anos da vida em cima desse tema e afirma que a questão vai além do que é moda ou tendência, transformou-se em um problema de saúde pública e afeta diretamente as pessoas, a sociedade e a economia, já que muitos deixam até de sair para realizar um encontro presencial e optam por chamadas de vídeo.
“A tecnologia não foi feita para aprisionar, afastar e adoecer as pessoas. Ela foi feita para ocupar um espaço bom na vida das pessoas, de preferência, fazendo com que a gente tenha menos trabalho e mais conveniência e praticidade, principalmente no que diz respeito ao mundo real”
explica Hansted.
Outro ponto crucial sobre o tema é em relação às políticas públicas adotadas pelo Estado. O que os governos têm feito em relação a isso?
Segundo Paulo, existem projetos para a proibição do uso de redes sociais para determinadas idades, mas isso no ponto de vista do especialista, essa decisão seria ingenuidade.
“Não é proibindo que se resolve, mas ensinando e prevenindo. Estimular para que utilizem melhor”
afirma.